A bola que tanto fugiu a Oyarzabal desta vez parecia que tinha um íman
Depois de passar ao lado do jogo na estreia, frente a Cabo Verde, Oyarzabal só precisou de uma parte para se redimir
Patrick Smith - FIFA
Depois do nulo frente a Cabo Verde, Espanha mudou peças e chegou de atitude e movimentações renovadas frente à Arábia Saudita. Num jogo resolvido ainda na 1ª parte e que dominou totalmente, venceu por 4-0, com Mikel Oyarzabal, que não tinha tocado na bola na primeira meia-hora no jogo com os Tubarões Azuis, desta vez a marcar dois golos e dar mais uma assistência nos primeiros trinta minutos do encontro
Há recordes que ninguém quer assumir a paternidade. No primeiro jogo de Espanha no Mundial, frente à fortaleza que Cabo Verde ergueu em frente a Vozinha, Oyarzabal foi um homem sozinho numa ilha abandonada: nos primeiros 30 primeiros minutos de jogo, não tocou na bola, algo que, desde que se contam estatísticas, números e quejandos, nunca tinha acontecido na história dos Campeonatos do Mundo.
Há-de ser um carimbo difícil de engolir para alguém que, no registo das finanças, surge como marcador de golos, engordador de resultados, mago dos remates certeiros. Trinta minutos sem tocar na bola? Já se viram intervenções por menos.
É claro que a história dos homens se faz também da forma como cada um reage aos infortúnios. E, frente à Arábia Saudita, com a Espanha pressionada após um nulo embaraçoso, foi como se o cosmos e os astros se entrelaçassem para que Oyarzabal reescrevesse a sua história. Não é só que o avançado da Real Sociedad tenha tido uma 1ª parte de luxo: foi como se a bola quisesse ir ter com ele, como um íman redentor.
Lamine Yamal a marcar o primeiro golo do jogo
Patrick Smith - FIFA
Com várias alterações face ao pastoso empate da primeira jornada (Lamine Yamal, Baena, Olmo e Porro saltaram para o onze), Espanha foi uma equipa de renovada atitude frente à Arábia Saudita, que ajudou os intentos castelhanos com uma estratégia defensiva bastante equivocada. Havendo espaços, Espanha diverte-se. E metendo mais velocidade, torna-se uma máquina destruidora de movimentos e desmarcações.
Ainda em fase de recuperação, Lamine Yamal foi titular e a sua velocidade serviu de talismã para Espanha, na sua maravilhosa ousadia. Aos 10 minutos, e já depois de um par de dribles de fazer cruzar olhos aos adversários, estava ao segundo poste para abrir o marcador, encostando uma bola vinda do cruzamento de Oyarzabal, que tinha antes combinado com Baena, variando do corredor central para a esquerda.
Oyarzabal, mantido no onze por Luis de la Fuente, retribuiria a manutenção da confiança do selecionador depois de estreia tão espartana. Aos 17’ tentou de longe, quatro minutos depois foi o feliz recetor de uma bola que sofreu uma série de ressaltos até a si chegar, como uma fina ironia. Fez o 2-0 e Espanha, mais do que respirar, carburava. E queria mais.
Ainda antes da meia-hora, lá estava Oyarzabal ao segundo poste para emendar um passe de Olmo de cabeça, após excelente variação de Pedro Porro para Cucurella, como se o esférico só quisesse ser levado até ao seu leito pelo basco, que em menos de nada fez um pirete aos recordes, perante uma defesa árabe em pânico. Ainda enviaria uma bola à barra, de trivela.
Jogadores da Espanha a controlar Al-Dawsari
Buda Mendes
E assim, em apenas uma parte, a equipa molenga que não conseguiu arrancar nada de Cabo Verde resolvia tudo em poucos minutos. O último quarto de hora da 1ª parte já foi de controlo com bola: o Mundial começou aqui para Espanha, um pouco mais rápida nas trocas, mais veloz no pensamento.
Para a 2ª parte nem Lamine Yamal, ainda à procura da plenitude da forma, nem Oyarzabal voltaram, tal a confiança de Luis de la Fuente de que a empreitada estava feita. E estava. Espanha ainda voltaria a marcar, ainda mal regressados do intervalo estavam os jogadores, num momento de mala suerte de Al-Tambakti após remate forte de Cucurella, fechando as contas em 4-0 e iniciando um intenso período de gestão, porque o campeonato é longo.
A Arábia Saudita, um queijo suíço na defesa, foi inócua no ataque, sem argumentos técnicos ou emocionais para se levantar depois de tal arraial de futebol de ataque do adversário nos primeiros 30 minutos.