Quando uma decisão de secretaria tramou Cabo Verde, que já tinha um pé no Mundial de 2014
ELTON MONTEIRO INFORPRESS
Esta é a primeira vez que Cabo Verde está num Mundial, mas em 2014 ficou perto, muito perto de uma participação inédita. Em 2013, a seleção ganhou na Tunísia, mas foi impedida de ir ao play-off, naquele que ficou conhecido como “o caso Varela“, e ficou a ver o Campeonato do Mundo de 2014 pela televisão. Doze anos depois do Mundial falhado na secretaria, os Tubarões Azuis, que já empataram com a Espanha, preparam-se para enfrentar um dos adversários mais duros do grupo com a sensação de que está exatamente onde devia estar
O Mundial de 2026 não apanhou Cabo Verde desprevenido. A seleção já tinha estado no ponto de viragem em 2013, quando foi a Radès ganhar por 2-0 à Tunísia e saltou para o primeiro lugar do grupo de qualificação africana. O problema veio depois: a utilização de Fernando Varela, ainda suspenso, transformou a vitória em derrota administrativa e tirou o país do playoff para o Mundial do Brasil.
A história começa no Grupo B da qualificação africana para o Mundial de 2014. Tunísia, Serra Leoa, Guiné Equatorial e Cabo Verde. A Tunísia era favorita, tinha mais experiência, mais estatuto, mais tudo. Mas Cabo Verde vinha de uma CAN histórica e estava a jogar com uma confiança que não se inventa. Chegou à última jornada com um cenário claro: ganhar em Radès. E ganhou. Vitória por 2-0, ultrapassagem à Tunísia e acesso ao play-off africano, a última etapa antes do Mundial. Era a primeira vez que o país se via tão perto.
Poucos dias depois, surgiu o processo disciplinar relacionado com Fernando Varela. O defesa tinha sido expulso num jogo contra a Guiné Equatorial, em março desse ano, e recebeu quatro jogos de suspensão. Cumpriu dois. Jogou contra a Tunísia. A decisão disciplinar que se seguiu alterou o resultado do jogo para 3-0 a favor da Tunísia e mudou a classificação final do grupo. A Tunísia avançou para o play-off, Cabo Verde ficou fora. A Federação cabo-verdiana contestou, mas a decisão manteve-se. O episódio ficou conhecido como o caso Fernando Varela e marcou a campanha cabo‑verdiana.
O impacto foi ainda maior porque a sanção não se limitou à derrota administrativa: Cabo Verde foi também multado em 6000 francos suíços (cerca de €4800, em 2013) e afastado da qualificação. A ironia é que, meses antes, os Tubarões Azuis tinham beneficiado de uma decisão semelhante, quando a FIFA lhes atribuiu vitória por 3-0 no jogo frente à Guiné Equatorial por utilização irregular de jogadores, precisamente no jogo em que Varela tinha sido expulso e iniciado a suspensão que acabaria por estar na origem de tudo.
O guarda-redes Vozinha foi a grande figura do jogo entre Cabo Verde e a Espanha que acabou empatado sem golos
Buda Mendes
Depois de 2013, Cabo Verde continuou a competir sempre perto do topo, mas sem conseguir chegar ao play-off. Na qualificação para 2018 ficou atrás do Senegal. Na de 2022 terminou em 2º lugar, atrás da Nigéria, num formato em que só os primeiros seguiam em frente. Pelo caminho manteve presença regular na CAN e estabilizou uma base competitiva sólida. O apuramento para 2026 surge como consequência desse percurso contínuo.
Um regresso por mérito, não por alargamento
Treze anos depois, o país volta ao mesmo ponto, mas com um cenário completamente diferente. O modelo de qualificação africano para 2026 é direto: quem ganha o grupo vai ao Mundial. Cabo Verde ganhou o grupo. Não precisou de contas, nem de repescagens, nem de esperar que o alargamento para 48 seleções lhe abrisse uma porta que antes estava fechada, ao contrário do Congo, por exemplo. A estreia confirmou o que esta equipa tem vindo a mostrar: organização, calma e um guarda‑redes que voltou a ser decisivo. Cabo Verde empatou com a Espanha porque soube defender baixo quando teve de defender e porque Vozinhasegurou tudo o que podia segurar, como já tinha feito na CAN.
Agora vem o Uruguai, uma equipa mais física e mais direta, que provavelmente vai obrigar Cabo Verde a sofrer mais tempo. Se aguentar o impacto inicial e fizer o mesmo que fez com a Espanha, mostrando que sabe sofrer, mas tem a coragem de quem não se encolhe, Cabo Verde entra no jogo.
É aqui que o passado e o presente se tocam. Em 2013, Cabo Verde fez tudo o que tinha de fazer dentro de campo e viu o caminho desaparecer por causa de um detalhe disciplinar. A seleção que esteve quase lá não é a mesma de hoje, mas o percurso competitivo que começou nessa altura é o que sustenta o apuramento de 2026. Se 2013 foi o aviso, 2026 é a confirmação.