A Argentina volta a Dallas, a cidade onde em 1994 se viu órfã de Diego Maradona
O último momento de Maradona num relvado num Mundial: sendo levado para o controlo anti-doping que daria positivo
Michael Kunkel/Getty
Foi em Dallas, onde a Argentina ia defrontar a Bulgária no último jogo da fase de grupos do Mundial 1994, que caiu a bomba: Maradona tinha testado positivo após um controlo antidoping. Foi suspenso pela federação argentina e não mais vestiria a camisola da seleção. Colegas e Alfio Basile, selecionador na altura, ainda acreditam que, com Diego, a Argentina teria sido campeã mundial. A albiceleste volta esta segunda-feira a Dallas, agora com Messi, para defrontar a Áustria
A imagem é um tratado: num quarto de hotel em Dallas, com umas cortinas que hoje nos parecerão para lá de antiquadas, cheias de folhagens, naturezas mortas e outras coisas-tom-terra, está Diego, polo da seleção argentina, cara fechada. À volta dele, um batalhão de jornalistas, ferozmente armados com microfones das mais diversas proveniências.
O dia é 1 de julho de 1994. Dias antes outra imagem ficaria na história: Diego de mãos dadas com uma enfermeira a caminho do teste antidoping para o qual tinha sido aleatoriamente selecionado após o jogo com a Nigéria. Foi a última vez que se viu Maradona com a camisola da Argentina.
Nesse segundo jogo da Argentina no Mundial 1994, Maradona tinha oferecido uma assistência para Caniggia, que bisou. Na estreia, goleada das antigas frente à Grécia e outra imagem (Diego era assim, vivia para involuntariamente criar fotografias para toda a vida): golo e corrida desenfreada em direção à câmara, olhos raiados de raiva, berro a sair-lhe da goela, mostrando ao mundo que ainda era Maradona.
Maradona no seu último jogo internacional, frente à Nigéria, no Mundial 1994
Richard Sellers/Allstar
No primeiro dia de julho, a Argentina fechava a fase de grupos no Cotton Bowl de Dallas. Horas antes, a comitiva recebeu a bomba: Maradona havia testado positivo a cinco substâncias da família da efedrina, um estimulante que se encontrava na lista de produtos proibidos pela FIFA. Seria imediatamente afastado pela federação argentina e daí para a frente a equipa não mais se endireitou. Depois de duas vitórias a abrir um Mundial onde chegou por milagre, perdeu com a Bulgária e no primeiro jogo a eliminar cairia frente à Roménia.
O regresso de Diego
A Argentina volta esta segunda-feira à cidade onde, há 32 anos, se viu órfã de Maradona - e precisamente no 40º aniversário da Mão de Deus e do Golo do Século de 1986. O palco do Argentina-Áustria já não será o Cotton Bowl, mas sim o mais moderno AT&T Stadium, casa dos Dallas Cowboys da NFL. O momento faz de tal maneira parte do trauma coletivo argentino que até está na canção que foi adotada pelos adeptos para o Campeonato do Mundo de 2026.
“Y 32 años despues/La Scaloneta va a vengar/la Copa que le robaran al diez/la que no nos dejaram levantar”
“Cortaram-me as pernas”, diria Diego Maradona naquele pálido quarto do Hotel Sheraton, onde acusou a FIFA de o “condenar” sem lhe dar hipóteses de se defender ou explicar. “Juro pelas minhas filhas que não me droguei para jogar, porque quando treino como treinei, não preciso de nada para jogar”, sublinhou ainda.
“Quero que fique claro a todos os argentinos que não corri pela droga, corri pela camisola”, garantiu.
Entre o Mundial 90, em que ajudou a Argentina a chegar à final, e o de 1994, Maradona praticamente não jogou pela seleção, com uma suspensão de 15 meses pelo meio por um positivo a cocaína. E enquanto Maradona tentava reerguer-se e regressar à competição, assinando pelo Sevilha, depois pelo Newell’s Old Boys, a qualificação da Argentina para o primeiro Mundial em terras norte-americanas perigava. Depois de perder por 5-0 frente à Colômbia, viu-se obrigada a jogar o derradeiro play-off frente à Austrália.
Maradona a festejar o golo frente à Grécia no primeiro jogo do Mundial 1994
Image Photo Agency
E aí Maradona foi chamado, muito por pressão popular. Mas mesmo em baixo de forma, ajudou a sua seleção a eliminar, com mais dificuldades do que se esperaria, a equipa da Oceânia, com uma vitória por 1-0 em Buenos Aires depois de um empate em Sydney. Os meses seguintes foram de trabalho intenso para chegar bem ao Mundial. “Três meses antes do Mundial, Maradona estava com 104 quilos. Com o preparador físico fizemos com que ele chegasse ao Mundial com 74 quilos. Ele estava a voar”, explicou Alfio Basile, então selecionador nacional da Argentina, numa entrevista ao canal TyC, em 2018.
As teorias
No Mundial, o jogo com a Grécia soou a lendário regresso de um jogador que tinha então apenas 33 anos. A Argentina acompanhava o ídolo, havia esperança. Com a sua suspensão, tudo se desmoronou.
“Eu acho que nós íamos ganhar aquele Mundial se Maradona não tivesse sido banido”, apontou Roberto Sensini, um dos jogadores presentes nos Estados Unidos em 1994, em entrevista à revista “FourFourTwo”. “A equipa era sensacional: também tínhamos o Fernando Redondo, Diego Simeone, Gabriel Batistuta. Mas com a saída de Diego perdemos o nosso farol, o nosso líder. Não fomos capazes de mudar a nossa mentalidade, de jogar sem ele. Eu acho mesmo que com Maradona teríamos ganhado”, sublinhou.
A festejar a vitória frente à Nigéria, antes do controlo antidoping que acabou com a sua carreira internacional
Damian Strohmeyer
Também Alfio Basile nunca ultrapassou essa ideia cimentada com fé de que com Maradona a Argentina teria sido campeã mundial em 1994 e comungava com muitos compatriotas algumas teorias da conspiração ainda hoje associadas ao momento: “Estava convencido que seríamos campeões. Quando a enfermeira entrou e levou o Diego embora, comecei a suspeitar. E suspeito até hoje”, disse nessa entrevista de 2018.
Sue Carpenter, a dita enfermeira, tornou-se, assim, um nome maldito na Argentina. A mulher que havia levado Diego pela mão até ao cadafalso viu-se enredada numa série de teorias mirabolantes, milongas chorosas dos argentinos, que não acreditavam que tudo tivesse sido por acaso. Nunca se provou que Sue fosse mais do que uma interveniente acidental, ela que até tinha sido casada com o argentino e que, confessou ao “El País” anos depois, chorou quando viu Maradona naquele quarto de hotel.
Diego Maradona não mais jogaria pela seleção da Argentina. Ainda voltou ao Boca Juniors, durante mais duas temporadas, mas aquele inusitado momento, de mãos dadas com uma enfermeira, ficou para sempre como o início do fim da carreira de Dios.