A muralha quadrienal de Carlos Queiroz trava Inglaterra
Kane lamenta-se após falhar, perto do fim, a melhor oportunidade de Inglaterra
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Contra um dos candidatos ao título mundial, o Gana, orientado pelo português, conseguiu um empate (0-0) que praticamente garante aos africanos a obtenção do objetivo de passar à fase a eliminar. A equipa de Queiroz realizou uma exibição defensivamente muito sólida, permitindo poucas oportunidades de golo ao adversário
No fim de duas horas com muita repetição dos mesmos padrões — troca de passes de Inglaterra, defesa segura do Gana, jogada perdida, voltar ao início —, com visitas ocasionais da chuva e Bryan Adams a ouvir-se aos altos berros no sistema sonoro do estádio, Carlos Queiroz sorriu. O seu mapa para esta luta, a rota que ele desenhou, baseando-se no muito que já viveu, levara os seus a bom porto. Enquanto os futebolistas que orienta se uniam em oração, Queiroz sorriu. Acabou de chegar ao cargo e já tem a grande meta atingida: vitória ante o Panamá, igualdade (0-0) diante de Inglaterra, os 16 avos de final não matematicamente no bolso, mas virtualmente não escapam.
Ao longo de quase todo o jogo, Inglaterra e oportunidades de golo não fizeram match. A grande exceção deu-se perto dos 90'. Primeiro foi Saka que, driblando pela direita, forçou Benjamin Asare a uma da três defesas que o guardião realizou em toda a partida. De seguida, O'Reilly cabeceou ao poste e eis que tudo chegou aos piores pés na ótica dos ganeses e os melhores na visão inglesa.
Harry Kane há muito que pensava neste momento. Fã da NFL, adepto dos New England Patriots, devoto de Tom Brady, atuar neste recinto, a casa do famoso quarterback, era como visitar um templo para um dos melhores futebolistas da última década. E ele tinha ali, aos 86', a circunstância ideal para brilhar. Bola a jeito do pé esquerdo, posição perfeita, baliza à mercê.
Remate... por cima. O 1-0 para Inglaterra não surgiu, manteve-se o 0-0, o prémio para a muralha de Carlos Queiroz, que só mesmo no fim viveu relativa aflição.
Debaixo da chuva de Boston, com Gianni Infantino presidindo ao duelo nas bancadas com um imperador romano, mas um imperador que usa um jato privado como quem lava os dentes, Carlos Queiroz disputou um jogo que, ao longo dos últimos Mundiais, Carlos Queiroz já disputou várias vezes. O experiente e muito viajado técnico português tornou-se especialista nestes cenários, exercícios de resistência, fixar um bloco baixo, não meter o pé, fazer contenção, travar o adversário. Um exercício de futebol em que se pretende que não haja muito futebol, basicamente.
Carlos Queiroz em Boston
Richard Sellers/Allstar
Carlos Queiroz em Boston
Richard Sellers/Allstar
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O Gana foi honesto na sua abordagem. Pontapé de saída, Inglaterra com a bola, os de amarelo aguardando, aguardando, aguardando. Os ingleses iam trocando passes, chegando aos 20’ com 88% de posse de bola. Aquando do fim do primeiro quarto, Ayew e Yerinky tinham o total de zero passes realizados. Semenyo, o londrino do lado esquerdo do ataque — talvez chamar-lhe defesa adiantado seja mais correto — dos africanos, contava um passe efetuado.
A boa notícia para Carlos Queiroz, que surgiu em Boston em tons de negro, com um fio ao pescoço a dar diversidade cromática à sua figura professoral, era que a muralha estava a funcionar. Inglaterra tinha a bola, monopolizava-a, mas criava perigo nenhum. Até ao descanso, os de Tuchel não enquadraram qualquer disparo com o alvo. O plano do português, de 73 anos e caminhante no seu quinto Mundial consecutivo, estava a resultar.
Os 104 passes que os de branco trocaram no terço defensivo do Gana não levaram a qualquer oportunidade de golo. Diante da Croácia, Inglaterra teve momentos de pressão, de agressividade, de velocidade, de atacar o espaço, uma seleção plena de dinâmicas de equipa de clube. Aqui tiraram-lhes o espaço, reduziram-lhes o terreno, levaram o desafio para outras zonas.
Thomas Tuchel, que começou de chapéu mas rapidamente o tirou, chegou a fazer uma face escassa de energia, como se esta lhe tivesse sido sugada pelo estratega do banco oposto. Acabariam ambos a cumprimentar-se com cordialidade. Foi o 15.º quinto encontro de Queiroz em fases finais de Mundiais e, nos 14 anteriores, deixou a baliza da sua equipa sem sofrer golos em seis e só encaixou mais do que um golo em duas ocasiões. Este foi o quarto 0-0. Nada disto era novo, era somente o show quadrienal do professor Carlos: conseguir que não haja show.
O remate desenquadrado de Kane na melhor oportunidade inglesa
Mattia Ozbot
O remate desenquadrado de Kane na melhor oportunidade inglesa
Mattia Ozbot
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Parte da força dos vice-campeões da Europa na partida inaugural, diante da Croácia, residia na incrível entrada para o segundo tempo, com minutos de vertigem, entusiasmo e Tuchelball, um futebol à medida do reputado alemão que treina os ingleses. O recomeço, desta feita, não alterou excecionalmente o guião. Chegaria o primeiro disparo à baliza, através de Gordon, aos 57', na primeira vez em que os europeus moveram rapidamente a bola e deixaram o compacto bloco de Queiroz algo desposicionado, mas a toada foi-se mantendo, o relógio a correr enquanto amigo de uns e inimigo de outros, um jogo de paciência, uma prova à durabilidade das baterias destes conjuntos, à insistência que se mantinha a atacar ou a defender.
Jordan Ayew, aos 34 anos, na 121.ª internacionalização e na nona fase final pelas black stars, três de Mundial e seis de CAN, foi a tradução estatística da abordagem da formação que capitaneia. O mais avançado dos defesas ganeses passou o fim de tarde a correr atrás da bola, sem rematar, só com três passes feitos na metade do campo inglesa. Na medular de Queiroz esteve Thomas Partey, debutando neste torneio depois de ver o seu visto para o Canadá negado na sequência do julgamento que enfrenta por alegada violação e agressão sexual. Foi, ocasionalmente, assobiado pelo público de Boston, maioritariamente inglês.
Tuchel foi fazendo uso do seu riquíssimo banco. Colocou Saka, O'Reilly, Rogers e Eze, mas a melhor oportunidade dos 80' iniciais seria de quem passou o embate na expetativa. Fatawu, o ex-Sporting que também saiu do banco, conduziu um contra-ataque, servindo Prince Adu. A receção foi má, a intervenção de Konsa foi providencial e o que seria um lance isolado perante Pickford virou uma confusão, com o remate a ser feito, já no chão, acabando a esbarrar em Semenyo e a chance de um heróico 1-0 a desvanecer-se.
Foi ofensiva praticamente singular para o Gana. Depois a ordem voltou a ser encolher-se, fechar-se numa concha. O assédio final dos candidatos ao título de 19 de julho deu sustos para os africanos, mas o nulo manteve-se. O Gana, lembre-se, nem se apurou para a passada CAN, recorreu à magia de Queiroz como uma receita contra a crise. E Carlos entregou a sua habitual muralha. No fim, escutando Bryan Adams, ele sorriu.