A cara ainda imberbe e o cabelo menos aprumado, com um pequeno conglomerado a alongar-se um pouco sobre o pescoço, ele de olhar concentrado na bola. É penálti para Portugal, o jogo congela a 11 metros da baliza do Irão e Ronaldo encara a bola, arranca e o remate é cheio de força. Quando entra, Cristiano não corre, limita-se a dar um par de passos para o lado e ajoelha-se, cerra os punhos e grita para o afago de Luís Figo, o capitão que o envolve na celebração. Era 2006 e ele marcava o primeiro golo em Mundiais com a seleção nacional.
E eram outros tempos. Ronaldo ainda vestia nas costas o 17, jogava com a versão de projeto de extremo driblador e espalhafatoso nas fintas na qual apostava e o protagonismo na equipa de Portugal, se bem que já com um holofote a iluminá-lo, não era quase propriedade exclusiva sua como nos anos seguintes. Foi no torneio organizado pela Alemanha, há 16 anos, que Cristiano inaugurou a costela goleadora nos arrabaldes que são o pináculo da carreira de qualquer futebolista. Esta quinta-feira, plantou outra bandeira na sua lua tão peculiar para se agarrar a mais um recorde.
Com o golo ao Gana feito de penálti e no estádio batizado com o nome 974 no Mundial 2022, no Catar, o português tornou-se no primeiro futebolista a deixar golos em cinco Campeonatos do Mundo distintos - Messi, entretanto, juntou-se ao restrito grupo de dois neste Mundial. Esta tarde aumentou o recorde para seis, com o golo frente ao Usbequistão, ligando a sua história mundialesca de Frankfurt, na Alemanha, onde marcou o primeiro, a Houston, nos Estados Unidos, lugar que acolheu o seu nono golo em Mundiais, igualando Eusébio, que marcou esses mesmos nove num Mundial apenas, em 1966.
Porque o marco goleador obriga um futebolista a tocar na bola em seis edições do torneio, que já é, por si só, uma raridade: além do português, apenas Lionel Messi o fez, quando entrou em campo frente à Argélia, umas horas antes de Cristiano. Guillermo Ochoa, guarda-redes do México, está também na sua sexta convocatória, mas ao contrário dos dois astros, só jogou em três dos Mundiais.
Voltando aos golos de Ronaldo em Mundiais, ao singelo golo que deixou no Mundial de 2006, seguiu-se o também único que fez em 2010, na Cidade do Cabo da África do Sul, quando a bola lhe pediu uma boleia às cavalitas para fechar a goleada, por 7-0, à Coreia do Norte. Em 2014, na única vez em que ele e a seleção não se espreguiçaram para lá da fase de grupos, Cristiano estava em Brasília a marcar ao Gana, aproveitando uma trabalhada do guarda-redes adversário.
Em 2018 o regalo foi outro, logo de rompante: três golos à Espanha em Sochi, logo no primeiro jogo no Campeonato do Mundo da Rússia. Um de penálti, que lhe deu corda às pernas para correr desenfreado rumo à bandeirola de canto; o segundo com um remate de pé esquerdo, à entrada da área, desviado na simpática ajuda de David de Gea; e o último curvado num livre direto, um dos poucos da carreira que bateu sorrindo mais ao jeito do que à força. Depois, em Moscovo, o quarto golo de Ronaldo neste Mundial foi à cabeçada, quase na pequena área de Marrocos e ainda na fase de grupos.
O último em Mundiais havia sido mesmo esse no jogo de estreia em 2022, num Campeonato do Mundo em que Ronaldo acabaria no banco, depois de um desencontro com Fernando Santos no derradeiro jogo da fase de grupos, frente à Coreia do Sul. Seria suplente utilizado frente à Suíça e Marrocos, sem marcar. Já neste Mundial não faltaram críticas à exibição de Ronaldo depois da exibição frente à República Democrática do Congo, sozinho na frente, dando-se pouco à equipa, não marcando nas raras vezes que teve oportunidade. Mas ainda havia golo em Ronaldo, depois de 10 jogos seguidos em grandes competições sem celebrar.
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