Martínez “não esperava rosas”, mas no meio do “barulho” houve “raiva” dentro de Portugal: todos querem “jogar um futebol atrativo”
Roberto Martínez reconheceu que os últimos 25 minutos da primeira parte de Portugal contra a República Democrática do Congo “foram muito maus“
Robbie Jay Barratt - AMA
João Cancelo disse que “chegaram algumas coisas“ vindas do ruído após o empate com o RD Congo que rodeou a seleção, mas depois Roberto Martínez garantiu que ”o barulho não entra no balneário”. No meio estará a verdade. Em Houston, na véspera do jogo contra o Usbequistão, jogador e selecionador concederam que a estreia no Mundial deixou a desejar - houve “25 minutos muito maus” - e numa coisa estiveram alinhados: estão agora todos mais preparados para Portugal jogar bem
Há a escola de Rúben Dias, culpando os jornalistas por uma ida à praia ser assunto, e mais ainda, por ser polémica, ou a corrente mais direta de Lamine Yamal, que não deveria ser para aqui chamado, mas acaba de o ser, pois, na véspera, disse ao “El País” ter “sacado uma conclusão” do Mundial: “Vocês jornalistas têm muita pressa em acabar o vosso trabalho. Em vez de desfrutarem dos jogos, querem tirar conclusões rápidas.” Se ambos terão razão haverá margem para debate. Mas são duas tiradas que provam como a perceção de que os jogadores não leem, nem veem, nem ligam ao que vem de fora tem a ver com o éter mais do que com a realidade. Eles não são herméticos.
Em particular no contexto de um torneio que os mantém em estágio durante um mês, em regime de internato, a verem as mesmas caras a cada dia dentro da mesma rotina do mesmo lugar que lhes dá os mesmos estímulos quando se veem com tempo livre. E na palma da mão terão visto, se quiseram ver, como o lado nocivo das redes sociais infetou as suas páginas de Instagram desde o jogo com a República Democrática do Congo, com gente - será mesmo gente? - a ordenar que respeitem, ajudem e passem a bola a Ronaldo. Nem o perfil de Diogo Jota foi poupado, talvez os culpados não sejam gente. Se o forem, enfim.
Noutra das coisas que disse, hoje já datada, Lamine Yamal foi inatacável: “Estamos na primeira jornada. Espanha fez um ponto. Portugal fez um ponto. A Argentina ganhou 3-0, a França venceu 3-1. E vocês pensam que a final será um Argentina-França? Não compreendo.” No teor da sua queixa depreende-se algo visto no ecossistema de Portugal desde a estreia no Mundial. O certo circo montado em torno da seleção nacional, tornou sensível a escolha do jogador a colocar diante dos microfones esta segunda-feira, em Houston, nesta sala de conferência de imprensa com refrigeração invernal, antes de Portugal ter de se ver com o Usbequistão no seu segundo jogo do Mundial.
O escolhido para falar perante sala cheia foi João Cancelo. Ele é pessoa de poucos pruridos, livre grandes filtros quando fala, sem parecer muito importado o lado cénico das situações. O momento era de alguma delicadeza: Portugal vinha de um empate, não jogou bem, discute-se o papel dos jogadores, há as cigarras nas redes sociais que não se calam. “Eu tento abstrair-me, se calhar há cinco anos ligava um bocadinho mais, fui crescendo e mudando. Acabam sempre por nos chegar algumas coisas - muitas vezes de maneira injusta”, opinou o jogador.
Na véspera de somar 70 jogos pela seleção, com sorriso de um branco encandeante, admitiu ter visto a equipa “um bocado de cabisbaixo” no dia seguinte ao empate. Colocou-se diante do espelho, pôs todos ao seu lado: “Sabemos o que fizemos, sabemos que falhámos, sabemos que tínhamos quase a obrigação de ganhar.” Mas notou a seleção “motivada durante a semana”, elogiou “o grupo fantástico”, lembrou ser “nestes momentos difíceis que os grandes jogadores têm de responder”. E viu-os “a todos motivados, com vontade” de o fazer.
João Cancelo a gesticular durante um treino da seleção nacional em Miami
Leonardo Fernandez
O barulho bom, o barulho mau
Defesa direito - ou esquerdo, conforme as necessidades, foi campeão no Barça a bombordo do campo -, mas pomposo a atacar, no seu instinto uma índole para arriscar, ir para cima e envolver-se, nunca marcou em Mundiais. Soltou um “Deus o ouça” quando lhe apontaram que amanhã pode ser o dia, sem ser isso que o aflige: “O mais importante é mesmo a vitória, sabemos que temos muito pouca margem de erro neste momento, queremos fazer um grande jogo e sair com a vitória.” De preferência, com “um futebol atrativo”.
Quando sai Cancelo, de manga curta, entra Roberto Martínez, com pullover de fecho no peito, capuz a roçar o pescoço. Não é agasalho para “o barulho”, coisa que “desde o primeiro dia em Portugal” tem, mas garante que nada furou o balneário apesar de minutos antes um jogador que treina admitir o contrário. “Queremos auto-crítica para melhorarmos e estarmos prontos. É um processo, são já 22 dias de trabalho, posso dizer que o barulho não entra no balneário”, riscou na areia. A verdade, é costume, andará algures pelo meio.
Sempre afim de expressões idiomáticas do português, já usou umas quantas em três anos e meio, o selecionador “não esperava rosas” após entrar no Mundial com um empate. “Há bom barulho, boas críticas no futebol. Mas há muito barulho que não é certo, nem faz sentido.” Bem-disposto, emanando os seus toques de gentleman, desta feita não deixou de temperar a ocasião com peneiradas aqui e ali, algo não visto no selecionador até então, neste torneio.
“É muito fácil falar”, disse, “e ser muito da seleção” quando “a equipa ganha a Liga das Nações”, dando o nó de que “o importante é estarmos juntos nos momentos difíceis”. Não especificou quem cabia no seu plural - se adeptos embarcados com os jogadores, alinhados no apoio, se também os jornalistas. João Cancelo já o deixara no ar: “Peço-vos, a todos, que estejam connosco e se mantenham positivos.” Disse o que Lamine Yamal não dissera diretamente, mas no fundo quis dizer.
E a praia
A última frase dita por Roberto Martínez na conferência deu uma pista para o recado, ao ser questionado se lhe sobra tempo para acompanhar outras seleções do Mundial - “se lerem a imprensa portuguesa verão que estamos sempre na praia, portanto não conseguimos ver os jogos.” Há então coisas que chegam à seleção, como Rúben Dias também sugeriu. O treinador viu com atenção o encontro de Portugal contra a República Democrática do Congo, afinal contou há tempos que revê cada jogo “15 vezes“, e no seu resumo diagnosticou que “os primeiros 20 minutos são muito bons, depois, com os mesmos jogadores, adversários e estádio, os 25 minutos seguintes foram muito maus”.
Para o espanhol, o Mundial já eram três jogos, repetira a ideia nas incontáveis entrevistas antes do torneio, lembrou-a de novo aqui em Houston para enquadrar que esta última semana serviu para uma comunhão. “Avaliámos o que não fizemos bem, por que não conseguimos executar, e limpámos a raiva e a tristeza por não atingirmos o resultado que queríamos.“ Raiva, uma palavra forte, não tanto quanto o sentimento a que se refere, afinal isto é só futebol. A palavra terá sido canalizada para o que descreveu: “O trabalho foi muito, muito bom, agora precisamos de melhorar. Portugal é uma equipa que precisa de crescer nos momentos difíceis. O grupo está ainda mais unido, a atitude dos jogadores foi exemplar.“
Roberto Martínez durante a conferência de imprensa de antevisão ao jogo contra o Usbequistão
Jack Gorman
Mais, teve “uma atitude incrível“. Martínez defendeu o grupo com elogios e pouco sobrou para o Usbequistão além de frases ouvidas muitas vezes - “tem uma clareza muito boa, organização defensiva também” - dedicando outras a Portugal - “temos de perceber o que temos de fazer com bola, criar vantagens, encontrar os espaços certos e ter situações de um para um.”
Sentado ao microfone, miras postas em si, o selecionador nunca se distraiu da defesa da seleção. O adversário, culpa das perguntas, pareceu acessório. Foi mais Portugal. “Estamos a falar de uma equipa que nos últimos 40 jogos tem a melhor percentagem de pontos e de golos na história da seleção, os jogadores merecem respeito. Mas o futebol é assim - é impossível jogar sempre bem“, disse, noutra ligeira alfinetada, sem se contar a outra mais: “A posse de bola não é um ponto fraco da nossa seleção, é o contrário.”
No jargão futebolístico e também no já ouvido em Roberto Martínez, voltou a ouvir-se do selecionador de que “não há jogos fáceis, há jogos que se tornam fáceis”, mas sobre o mais que tudo de Portugal pouco se escutou, por uma rara vez a sala não inquiriu em força quanto a Cristiano Ronaldo e os seus 41 anos, de novo colocados em causa após um resultado indesejado. “É um exemplo no balneário, é um capitão: reage como um capitão, com muita experiência que todos podemos utilizar. Estamos a falar de alguém que está a defender a seleção há 21 épocas. Ele tem uma fome incrível de continuar a melhorar e a ajudar o grupo”, respondeu, com uma resposta que já ligou bastantes vezes.
Nem João Cancelo se livrou. “Tanto o Neymar como o Cristiano“, disse, pois a requisição veio com sotaque do Brasil: “Não têm de provar nada a ninguém. Sabem aquilo que são, o que representam para o seu país”. São solicitações que já contam como ruído de presença nestes momentos da seleção nacional. O outro barulho, o mau, ao qual os jogadores tentam fazer ouvidos moucos, será para evitar que piore esta terça-feira, contra o Usbequistão.