“Shiu!”, gritou Ronaldo no Mundial, onde Portugal mandou calar as cigarras
O festejo dos jogadores portugueses com Cristiano Ronaldo após o capitão marcar o seu segundo golo no jogo
Jam Media
Com dois golos ainda na primeira parte, de Cristiano, que se tornou o primeiro jogador na história a marcar em seis Campeonatos do Mundo, a seleção nacional desfez (5-0) o frágil Usbequistão, respondendo às dúvidas que deixara na estreia e às críticas que se seguiram. Com períodos de fulgor no ataque e outra dinâmica a usar a bola, Portugal melhorou em várias coisas, incluindo no aproveitamento que fez do seu capitão. O apuramento para os dezasseis avos de final ficou quase garantido
Em Houston há o Eleanor Tinsley Park, por lá passa o Buffalo Bayou, um rio de dois nomes que levou o homem a construir uma ponte e debaixo dela, aproveitando as frechas, fixou-se uma colónia de morcegos. São centenas de milhar. A cada cair de noite as pessoas lá rumam, o dedo no gatilho do telemóvel para filmarem o momento em que eles desatam a voar dali para fora. Quase em sintonia, no lusco-fusco despertam as cigarras aos milhares, talvez milhões, e, de repente, o parque vira uma alegoria para os últimos dias da seleção antes de voltar a jogar nesta cidade do Texas.
Ali, durante uns minutos, a berraria estridente dos insetos parece a cacofonia histérica com que as redes sociais cercaram os jogadores de Portugal nos últimos dias, claro que sobre Ronaldo, sabe-se lá porquê contra Bruno, Vitinha, Bernardo, João Neves e afins. Tanto o barulho que às tantas nada se entende e os morcegos, aparentemente desgovernados, não cegos como é comum crer-se, no seu turbilhão voador sem nunca chocarem, coordenados pelo sonar que têm para se entenderem e a coisa rolar. É uma espécie de sexto sentido, como se desejava ver nos portugueses: uma seleção harmónica, a jogar bem por natureza, sem esforço, em que as coisas fluem.
E sem atritos, com um ritmo fluído, começou a seleção, liberta do rame-rame da estreia no Mundial, a passar a bola com intento e rapidez. O Usbequistão foi encostado à sua baliza desde o primeiro segundo. Com Vitinha na batuta, sem a redundância dos outros médios perto dele para tocarem na bola só por tocar, Portugal atacou os espaços entre os centrais de fora e os alas na linha de cinco defesas adversária, querendo por ali combinar em vez de forçar o drible. Bruno Fernandes cedíssimo rematou na área, Cristiano cedo não acertou na bola cruzada com açúcar por Nuno Mendes, mas não demorou a redimir-se.
Servido por João Cancelo, solto na área, o golo soltou o capitão, ele correu esbaforido rumo ao banco de suplentes, um quarentão feito criança a ir abraçar Diogo Dalot para se engolido nos abraços dos restantes, uma comunhão que o soltou, os soltou, para o resto do jogo. Só depois festejar com todos celebrou com a ânsia dos restantes, executou o seu festejo que é imagem de marca, o estádio rejubilou. Aos 6’, cedo como na estreia, Portugal já vencia e a estrela, por instantes, a desviar-se do seu hábito: desde o Europeu de 2021 que não marcava um golo em jogo corrido.
Nuno Mendes a bater o livre direto com que marcou o segundo golo da seleção nacional contra o Usbequistão
Francois Nel
Pouco demorou Ronaldo a destoar outro pedaço de si próprio quando, derrubado Pedro Neto à beira do limite da área usbeque, quieta a bola para um livre direto que as bancadas, convulsivas nos gritos, vociferavam por o ver bater, ficou também ele quieto. Foi Nuno Mendes quem rematou uma bala tensa e bruta, a vantagem de Portugal era engordada pelo inesperado, na baliza acabou uma prova de que há proveitos por colher na distribuição do protagonismo.
Os santos da seleção batiam com os da partida. Havia calma quanto baste na bola, não em demasia, os passes para a frente eram os cerntos, tinha algum jogo interior - ajudou ter João Félix em campo, partindo da esquerda. Via-se a sincronia que faltara dias antes, mas faltava uma das pausas para beber água, das que têm dado safanões nos jogos do Mundial.
Dela o Usbequistão regressou sem vontade de permanecer encolhido, na expetativa. Seguiram-se uns 10 minutos de tremeliques. A pressionarem uns metros mais longe da sua área, com outra agressividade a disputarem as sobras das bolas longas para Eldor Shomurodov, os usbeques também deixaram de procurar o seu avançado ao primeiro, ou segundo passe. Quiseram atrair os portugueses, afastá-los entre eles, o engodo teve alguns efeitos, o jogo teve espaços novos. Portugal sofreu um golo que seria a anulado, houve falta sobre Cancelo na demora do lateral em lidar com a pressão de Abbosbek Fayzullaev.
O pequeno susto perturbou os pulsos sonoros da seleção, a sincronia conheceu soluços, por momentos empurrou-a para a velha queda de atacar pelas alas e cruzar à mínima vantagem ganha por fora, mas não durou o retorno ao vício. Ao maior risco a que o Usbequistão se viu obrigado Portugal foi buscar outra festa, mais uma explosão de extâse. Recuperada a bola no seu meio-campo, a seleção pôs Bruno Fernandes ao vontade do contra-ataque, este lançou Ronaldo e, a dois toques, o capitão voltou a enloquecer o estádio.
O momento do remate de Ronaldo para o terceiro golo de Portugal
Maja Hitij - FIFA
Já antes, no golo inaugural, se tornara o primeiro futebolista a marcar em seis Mundiais, mais um recorde para emoldurar, quantas paredes terá cheias em casa, nelas cabe o coro envaidecido que berrou o “siuuu” sintonizado com o pulo, a meia-volta, a aterragem de braços hirtos e esticados da coreografia de Cristiano, então sim feita antes de tudo. Soou a “shiuuu” no efeito de eco monumental dentro do recinto coberto de Houston. O mais novo e também o mais velho de sempre a deixar golos em Mundiais com Portugal calava, no campo, a estridência das cigarras das críticas. Antes do intervalo ainda foi servido, tentando picar a bola sobre Abduvohid Nematov, guarda-redes que se saiu aos seus pés.
Mas não foram os golos, o seu utensílio preferido para calar bocas e deixar pessoas boquiabertas, ou não só os golos, que consubstanciaram Cristiano neste jogo. Menos atreito a fugir da área para sentir a bola sem efeitos práticos, mais simples - e frequente - nos seus movimentos úteis em apoio, o capitão tentou ser uma parede para os outros jogarem. Devolveu a bola de primeira, fez tabelas, teve toques espertos para combinar com João Félix, mais uma vez uma ajuda neste capítulo por com ele jogar na Arábia. Mais do que decisivo, Ronaldo foi útil.
Como no que provocou o quarto golo, surgido num canto esperto da direito em que a seleção vagou a zona do primeiro poste, lá entrou uma bola rasteira e, na confusão de um quase desvio de calcanhar de Félix, o guarda-redes Abduvohid Nematov desviou-a para a própria baliza. Esse canto surgiu após Portugal, matreiro na bola parada, teve Ronaldo em pose de perna aberta, a encher o peito de ar, noutra imagem icónica a sua, com todo o ar de que iria tentar marcar de livre direto, a passar a correr pela bola, como se nada fosse. Deixou-a para Bruno Fernandes a picar, suavemente, sobre a barreira para o capitão quase marcar.
Os frágeis usbeques, fragilizados mais ainda por se terem de projetar com maior afinco no ataque, eram dóceis a defenderem com os jogadores distantes. As suas transições rápidas para a frente, porém, destapavam as arrelias que Portugal já mostrara contra a República Democrática do Congo quando jogo lhe pediu uma reação pronta à perda de bola. Otabek Shukurov, à entrada da área, testou as mãos de Diogo Costa. Haverá ajustes por limar na forma de a seleção se precaver, quando ainda está em posse, ao momento em que deixa de estar.
Os dois Joões, Neves e Félix, a festejarem o quarto golo de Portugal contra o Usbequistão
Alex Pantling - FIFA
Porque um Mundial, na liturgia de Roberto Martínez, implicar analisar e corrigir, preocupação provada nas coisas em que Portugal melhorou.
Sobretudo quando o Usbequistão, fora do resultado, largou o seu bloco baixo, não se viu uma equipa unidimensional a forçar cruzamentos para a área, nem a procurar só atrair o adversário a um lado para lançar um extremo do outro, forçando uma situação de um para um. Soube manipular os espaços, envolveu mais Bruno Fernandes pelo centro do campo, usou Ronaldo como pivô e este usou-se no jogo com tal.
Quando Francisco Trincão já em campo estava com Bernardo Silva, em versão médio, por momentos coabitando ambos com Vitinha e Bruno, houve o vislumbre de uma seleção feita banda capaz de vários estilos musicias: controlo e pausa se necessário, vertigem por fora para acelerar, combinações por dentro, um jogador sempre com duas, três opções de passe a oferecerem-se. Com pausa e rapidez, Portugal teve períodos de fulgor, os jogadores a parecerem morcegos, sintonizados entre si, a entenderem-se com ultrassons perceptíveis só aos seus ouvidos enquanto desmontavam os usbeques num enredo de jogo dinâmico.
E Cristiano ainda rematou três vezes, teve o hat-trick perto, mas foi Rafael Leão, na área, a fazer o quinto golo após uma triangulação de passes que libertou Nélson Semedo pela direita.
Sibilantes no final foi a reação do público quando, nos dois ecrãs gigantescos do estádio, surgiu a repetição do festejo de Ronaldo, outra vez o “siu“ a soar a “shiu“, aqui pela América a FIFA tem medidores de décibeis do recinto e, antes do jogo começar, quando os altifalantes pediram para os adeptos se manifestarem por Portugal, a contagem chegou aos cento e poucos. É nessa escala que os morcegos comunicam em ultrassons impercetíveis para o ouvido humano. É assim no parque que fica a uns 10 quilómetros desta arena onde a seleção não jogará mais, mas onde desta vez jogou de uma forma para recordar, e manter, e melhorar.
Segue para Miami para decidir com a Colômbia quem acaba a liderar o grupo. Será uma viagem sem o barulho das cigarras.