LOS ANGELES — Durante meses, a seleção nacional do Irão enfrentou obstáculos e dificuldades, mas no domingo à noite, em Los Angeles, os iranianos alcançaram um dos resultados mais importantes da história da sua seleção no Mundial, ao empatarem a zero com a Bélgica, favorita do seu grupo. E antes de saírem do balneário, deixaram uma mensagem para os seus adeptos, para Los Angeles e para o resto do mundo, rabiscada num bloco de post-its.
“Desde a antiga Pérsia, há milhares de anos, até ao Irão civilizado de hoje, o espírito do Irão permanece vivo e inabalável”, diziam as palavras escritas à mão com tinta azul num lado de uma comum folha de papel branco: “Viemos para Los Angeles com orgulho, competimos com honra e partimos com dignidade.”
Um dia antes, o treinador da equipa, Amir Ghalenoei, voltou a lamentar o que considerou ter sido um tratamento injusto infligido à sua equipa, que tem vivido uma espécie de exílio com sede no México e à qual só é permitido entrar nos Estados Unidos por cerca de 48 horas para disputar os seus jogos. Segundo ele, essas condições impediram a sua equipa de concluir os preparativos para o jogo de domingo no SoFi Stadium.
O Irão disputou os seus dois primeiros jogos do Mundial em Los Angeles, onde se encontra o que é considerado o maior grupo da diáspora iraniana nos Estados Unidos.A cidade é um foco de apoio à equipa e de oposição ao governo de Teerão. Contra a Bélgica, tal como aconteceu no primeiro jogo contra a Nova Zelândia, esses dois aspetos estiveram em pleno vigor.
Houve protestos no exterior do estádio e ouviram-se vaias enquanto tocava o hino nacional do Irão, mas assim que a bola começou a rolar, parecia um jogo em casa para o Irão. Cada remate belga defendido pelo guarda-redes Alireza Beiranvand foi aplaudido como se o próprio troféu do Mundial estivesse em jogo e, após o encontro, a equipa foi aclamada pelos quatro lados do estádio enquanto dava uma volta de honra para agradecer esse apoio.
“Obrigado, Los Angeles, pela vossa hospitalidade”, continuava a mensagem. “E obrigado a todos os iranianos que dedicaram o seu coração, a sua voz e a sua alma ao Irão ao longo destes 180 minutos.”
A seleção do Irão, a primeira participante num Campeonato do Mundo a entrar em conflito com um país anfitrião do torneio nos 96 anos de história da competição, queixou-se das condições com que se tem deparado desde que os Estados Unidos e Israel atacaram conjuntamente o país no final de fevereiro.
Até pouco antes do início do evento, mantinha-se a incerteza quanto à concessão de vistos aos jogadores iranianos, tendo vários responsáveis de alto nível e membros da comitiva visto os seus pedidos rejeitados.
O anúncio de um acordo de paz poderá marcar o início de uma mudança. O treinador do Irão afirmou que a equipa tinha sido informada de que provavelmente seria autorizada a entrar nos Estados Unidos mais cedo para o seu último jogo da fase de grupos, que se realiza na sexta-feira, em Seattle.
A nota da equipa também registou o impacto da guerra no país. A tinta vermelha, o número 168 e o nome Minab estavam escritos nos espaços entre as linhas do texto. Esse número corresponde às crianças mortas quando a sua escola, na cidade de Minab, foi atingida por um míssil no início da guerra.
“Que a paz, o respeito e a amizade prevaleçam entre todas as nações”, concluía a nota.
Ainda invicto, o Irão poderá chegar à fase eliminatória do Mundial se conseguir um resultado positivo contra o Egito. E continua a existir a possibilidade de um encontro com os Estados Unidos, caso as equipas continuem a avançar na competição. Tal encontro teria como pano de fundo uma frustração contínua, apesar dos progressos no sentido da paz.
O secretário da Segurança Interna, Markwayne Mullin, afirmou no domingo que o presidente da federação iraniana de futebol, um dos responsáveis a quem foi proibida a entrada nos Estados Unidos, tentou embarcar no avião que transportava os jogadores para o jogo contra a Bélgica.
As autoridades iranianas contestaram a sua declaração. O responsável, Mehdi Taj, é um antigo comandante da Guarda Revolucionária do Irão, um grupo designado pelos Estados Unidos como organização terrorista estrangeira.
O Departamento de Segurança Interna não forneceu mais detalhes. Taj e cerca de uma dúzia de outros responsáveis ficaram em Tijuana, no México, onde a equipa está alojada quando disputa os seus jogos do Mundial.
“É lamentável que um alto responsável norte-americano tenha recorrido à divulgação de declarações falsas e desinformação para justificar as restrições impostas aos membros da delegação da seleção nacional iraniana”, afirmou a federação iraniana de futebol num comunicado.
“Quando é feita uma alegação ‘específica, verificável e dirigida individualmente’ e essa alegação é fundamentalmente falsa, isso põe naturalmente em causa também a credibilidade das restantes acusações”, aponta ainda a reação.
© 2026 The New York Times Company