Esmir Bajraktarević: o talento nascido nos EUA que carrega na camisola a história dos familiares que perdeu no Massacre de Srebrenica
Esmir Bajraktarević nasceu nos EUA mas sempre quis representar a Bosnia-Herzegovina
NurPhoto
A Bósnia e Herzegovina defronta o Catar no último jogo da fase de grupos do Mundial 2026 e conta no meio-campo com um jovem de 21 anos, nascido nos EUA e apelidado de “Milwaukee Messi”, que desde criança sonhou representar o país de nascimento dos pais, que fugiram do genocídio de Srebrenica como refugiados
Cresceu a ouvir falar de uma cidade que não conhecia, Srebrenica, e de nomes que nunca chegou a encontrar. Esmir Bajraktarević nasceu em 10 de março de 2005, em Appleton, Wisconsin (EUA), mas a história dele começa antes, nos anos 90, nos Balcãs. Os pais são bósnios, muçulmanos, fugiram da guerra e do genocídio. Parte da família ficou para trás e não sobreviveu. Entre os mortos estão familiares diretos, vítimas de um massacre que matou milhares de homens e rapazes bósnios. Ele é, literalmente, um filho de sobreviventes que escolheram e conseguiram fugir.
A família passou pela Suíça antes de chegar aos EUA, em 2001. Instalaram‑se no Midwest, primeiro em Appleton, depois na área de Milwaukee. Esmir nasceu em solo americano, mas a parte da história da família que não viveu colou-se-lhe à pele. “A guerra foi mesmo grave. Os meus pais perderam muitos membros da família. É muito trágico. É algo que nunca vou esquecer. Srebrenica, nunca vou esquecer. Faz parte de mim e de quem sou. Está no meu sangue”, reconheceumais do que uma vez em entrevistas.
Em casa falava‑se bósnio, na rua inglês, e o futebol era a ligação mais simples entre as duas vidas. Em Milwaukee, Esmir cresceu entre campos de relva e pavilhões de futsal, jogou em equipas locais e em torneios da comunidade bósnia. Foi aí que ganhou o toque curto, a condução apertada, a facilidade em driblar em espaços pequenos que hoje o distinguem.
O rótulo apareceu cedo: “Milwaukee Messi”. Um miúdo pequeno, canhoto, com a bola colada ao pé, a partir adversários em campos onde quase toda a gente se conhecia. Dos clubes locais passou para o SC Wave e depois para a academia do Chicago Fire. Em 2021, ainda adolescente, assinou pelo New England Revolution. “Sair da minha família foi provavelmente um dos períodos mais difíceis da minha vida. Sou muito próximo deles. Mas sabia que, se não fosse agora, não sabia o que poderia acontecer. O meu pai sempre me disse que eu tinha talento e capacidades, e não queria ver-me desperdiçá-los“, acabou por confessar.
Esmir Bajraktarević fez praticamente toda a formação nos New England Revolution, nos EUA
Andrew Katsampes/ISI Photos
Estreou‑se pela equipa principal na MLS com 17 anos, foi ganhando minutos, marcando golos e assistências, fez exibições de destaque na CONCACAF Champions Cup e tornou-se num dos jovens mais observados do campeonato.
O salto seguinte foi para a Europa. Em 2025, o PSV Eindhoven contratou‑o. Na primeira época nos Países Baixos, Bajraktarević integrou um plantel que lutou pelo título e acabou campeão. Jogou sobretudo como extremo ou médio ofensivo, partindo da direita para dentro com o pé esquerdo, ou como nº 10.
Por ter nascido nos EUA e lá ter feito toda a formação, Esmir começou por vestir a camisola norte‑americana. Jogou pelas seleções jovens, foi chamado aos sub‑19, sub‑23 e chegou a integrar um estágio da seleção olímpica dos EUA. Em 2024, fez mesmo um jogo pela seleção principal norte‑americana, num contexto em que ainda podia, pelas regras da FIFA, mudar de federação mais tarde.
É possível ser intrinsecamente de um país onde não se nasceu
Mas a ligação à Bósnia nunca foi apenas um detalhe biográfico. Quando surgiu a possibilidade de escolher, pediu a mudança de federação e, ainda em 2024, a FIFA aprovou o pedido para representar a Bósnia e Herzegovina. Pouco depois, estreou‑se pela seleção bósnia em jogos oficiais.
“Sinto orgulho sempre que jogo pela Bósnia Herzegovina. É um sentimento diferente. Os meus pais são da Bósnia e sempre me senti bósnio. Mesmo sendo um país pequeno, sentimo-nos como uma grande família. Quando era pequeno, tinha uma camisola do Edin Džeko. É algo com que a minha família e eu sempre sonhámos. Tinha de jogar pela Bósnia: em casa, comemos comida bósnia, ouvimos a nossa música, falamos bósnio. Sinto-me simplesmente bósnio“, disse à ESPN.
O momento que o colocou definitivamente no mapa foi o play-off de qualificação para o Mundial de 2026. A Bósnia enfrentou a Itália num jogo decisivo. Bajraktarević marcou o penálti que garantiu a vitória e o apuramento. Um jogador nascido nos EUA, formado no sistema norte‑americano, a marcar o golo que leva a Bósnia ao segundo Mundial da sua história, nos Estados Unidos. Para uma diáspora construída sobre o trauma da guerra há um simbolismo evidente: o filho de refugiados a colocar o país dos pais num palco global.
Jogador do PSV Eindhoven desde 2024/25, Esmir Bajraktarević (à direita) tem contrato com o clube dos Países Baixos até 2029
ANP
No Mundial de 2026, disputado nas Américas, Esmir Bajraktarević chega como uma das figuras da Bósnia e Herzegovina, que regressa a este palco 12 anos depois da sua estreia. O jovem de 21 anos vem de uma época de afirmação no PSV (tem contrato até 2029), é importante na seleção e é visto como o jogador capaz de ligar meio-campo e ataque, de criar desequilíbrios e de decidir jogos em detalhes. O último jogo da fase de grupos, na quarta‑feira contra o Catar, é mais um capítulo da história deste jogador que podia ter seguido uma carreira com a camisola dos EUA, mas escolheu carregar o peso e a memória de Srebrenica com a camisola da Bósnia.
Como o Mundial de 2026 apura os dois primeiros de cada grupo e também os oito melhores terceiros classificados, a Bósnia ainda mantém hipóteses de seguir em frente se vencer o Catar. Nesse caso, chegaria aos 4 pontos no Grupo B e poderia qualificar-se, mesmo que terminasse em 3º lugar. Já um empate deixá-la-ia com apenas 2 pontos, tornando o apuramento muito improvável. Se perder frente ao Catar, ficará eliminada da competição.