A condescendência da Alemanha deu vida ao pujante Equador
O antigo jogador do Sporting, Gonzalo Plata, marcou o golo decisivo
Mattia Ozbot
Pode não ser a equipa mais virtuosa e não ter os jogadores mais refinados, mas quem é dono de tamanha entrega merece ser recompensado. Assim aconteceu com o esforço do Equador, premiado com uma reviravolta contra a já apurada Alemanha (2-1) para a qual muito contribuíram as substituições despreocupadas de Julian Nagelsmann. Apesar de terminar no terceiro lugar do grupo E, com quatro pontos, a seleção sul-americana está em boa posição para seguir para a fase a eliminar
Se o Equador tivesse rodas, era um camião. Não pode ser uma equipa qualquer aquela que defende com Willian Pacho, Piero Hincapié (ambos finalistas da Liga dos Campeões) e Moisés Caicedo. Apesar de se transmitir por toda a seleção sul-americana um espírito gregário, há um desequilíbrio. O muro de betão contrasta com a menor fineza na zona onde, no fundo, tudo se decide. Quando driblam, a bola descola-se demasiado do pé dos jogadores da frente e não há um letal finalizador. Por mais peso que consiga carregar, escasseia a criatividade que permite a deslocação.
Sem ter recursos vistosos, o Equador encontrou forma para que o coração se sobrepusesse a tudo o resto. Há um lado apaixonante no modo como os jogadores correm desenfreados pelo campo, ansiosos por recuperarem a bola numa total dedicação à causa. Foi em tamanho sentimento que se ergueu a vitória contra a Alemanha (2-1). Apesar de ainda não estar confirmada a qualificação para a fase a eliminar, os festejos demonstraram convicção de que quatro pontos podem chegar para ficar entre os oitos melhores terceiros classificados.
O Mundial da Alemanha tem sido feito aos solavancos. Começou desde logo por dar uma benesse a Curaçau quando permitiu que os estreantes marcassem o primeiro golo de sempre na competição. Frente à Costa do Marfim, também começou a perder, mas acabou o jogo num patamar razoável.
Os germânicos estavam presos por cimento à qualificação e ao primeiro lugar do grupo E. Julian Nagelsmann não viu em tal vantagem razão para se empenhar menos no duelo com o Equador e fez apenas uma trocas forçadas. No lado esquerdo, David Raum rendeu Nathaniel Brown. Antonio Rüdiger também se juntou à defesa em prol de Nico Schlotterbeck, arredado do torneio por lesão. Seria uma postura que o técnico de 38 anos, o mais novo em prova, não manteria até ao final.
Enquanto a Alemanha perdeu força com as substituições, o Equador ganhou força com a entrada de Kevin Rodríguez
Justin Setterfield
A Alemanha até começou bem. O lançamento de David Raum foi efetuado junto do posto de observação de um polícia. O senhor agente nem se desviou para que o lateral pudesse apanhar mais balanço. Nas costas das autoridades, a Alemanha conseguiu marcar. Aleksandar Pavlovic talvez tenha cometido um pequeno delito ao levantar demasiado o pé antes de Leroy Sané marcar logo aos dois minutos. Se o vigilante estava de olho na bancada, a equipa de arbitragem não tinha desculpa para não ver a infração. Ainda assim, o lance escapou.
O lado mais espiritual da justiça ficou indignado com a incompetência de todos os que a deviam ter feito cumprir. Só assim se explica que o remate desconchavado de Nilson Angulo tenha tido sucesso logo no momento seguinte, passando entre as pernas de Pavlovic. O gesto parecia não passar de uma fezada precedida de um duplo molhar de lábios.
O diabólico início de jogo foi travado pela organização que a Alemanha assumiu a partir daí, tentando aproveitar o sentido de urgência do Equador. Manuel Neur não mais foi incomodado, mas as transições não surtiram grande efeito.
Embora não fosse notório nas escolhas iniciais, a condescendência de Julian Nagelsmann face ao destino traçado da Alemanha manifestou-se nas substituições. O primeiro a entrar foi Angelo Stiller, que se estreou no Mundial. Aconteceu o mesmo com Malick Thiaw, Maximilian Beier e Pascal Gross, todos a somarem os primeiros minutos no torneio.
Sebastián Beccacece dirigiu-se ao público para festejar
Marc Atkins
Enquanto a Alemanha secundarizava o resultado em prol da distribuição de oportunidades, o Equador usou o banco para acrescentar. Kevin Rodríguez revitalizou por completo a equipa treinada por Sebastián Beccacece. A frescura na pressão levou a um equívoco entre Manuel Neur e Jonathan Tah que ia custando caro aos germânicos.
O jogo regressou a um registo agitado com as mexidas. Leroy Sané teve a oportunidade de marcar, mas foi pouco ágil no remate. No vaivém instalado, o Equador encontrou o antídoto para o lado mais rudimentar da sua atuação. De canto, Kevin Rodríguez desviou ao primeiro poste e Gonzalo Plata intrometeu-se nos restos do lance. A proatividade permitiu ao Equador chegar à vantagem a 13 minutos do final.
Do Curaçau-Costa do Marfim (0-2), sobreposto no tempo do Equador-Alemanha, não vinham notícias que permitissem sacudir a equipa africana do segundo lugar. Ainda assim, o terceiro lugar parece um posto seguro.