A merecida despedida de Guillermo Ochoa, herói de culto dos Mundiais
Guillerme Ochoa jogou os últimos 10 minutos do México-Chéquia para se despedir do futebol
Lars Baron
Com quase 41 anos, Guillermo Ochoa foi convocado para o seu sexto Mundial. Suplente de Raúl Rangel em 2026, teve a oportunidade de se despedir do futebol, em pleno Azteca, no palco do Campeonato do Mundo onde se tornou herói
Soa o apito final e Guillermo Ochoa caminha lentamente pela linha de baliza, aquela onde tantas vezes tornou “impossível” palavra obsoleta. Deu um beijo no poste direito, depois no esquerdo, antes de ser abraçado por colegas e ajoelhar-se no meio da área, a sua arena de jurisdição. Tinha de ser no Azteca o adeus de Memo, palco de tantos jogos pelo Club America e pela seleção mexicana, história dos Campeonatos do Mundo, de Pelé a Maradona.
E tinha de ser no Mundial, onde se tornou figura de culto quadrienal, herói para os que só têm tempo e disponibilidade para olhar para outros futebóis de quatro em quatro anos, que, diga-se, é a esmagadora maioria da população.
Guillermo Ochoa está naquela curta lista dos jogadores com mais convocatórias para Mundiais, seis, com Lionel Messi e Cristiano Ronaldo, embora não tenha jogado em 2006 e 2010, mas a sua aura vai para lá disso. É uma daquelas aves-raras do futebol, de jogadores que ordenham todo o leite do maior palco do futebol e depois parecem hibernar durante quatro anos. Se Memo não tivesse jogado em Portugal em 2024/25, no AVS SAD, é possível que a última vez que dele tivéssemos tido notícias tivesse sido depois de defender um penálti a Robert Lewandowski no Mundial do Catar, em 2022.
Guarda-redes ajoelha-se na área após o jogo
Hector Vivas - FIFA
O avançado polaco foi apenas mais uma vítima do agigantamento que Ochoa parecia guardar para os Mundiais nos seus anos áureos. Em 2014, tornou-se lenda, no seu primeiro Campeonato do Mundo como titular, ao emular a defesa do século de Gordon Banks a Pelé, em 1970, quando tirou o golo a Neymar depois de uma cabeçada aparentemente certeira do brasileiro. Quatro anos depois, na Rússia, o voo após livre direto de Toni Kroos foi meio caminho andado para a vitória do México frente à Alemanha. Pelo meio, muitas outras paradas impossíveis, carregadas dos reflexos mais afinados, dignas das mais impressionantes coletâneas de highlights.
Ao seu sexto Mundial, parte dele jogado em casa, Guillermo Ochoa continua com a aquela cara jovial apesar dos quase 41 anos, com o tamanho das mãos aparentemente desproporcional face ao corpo, não tão grande assim para guarda-redes. A gadelha invariavelmente encaracolada mantém-se. Não chegou a 2026 como titular, mas num México a voar suavemente na fase de grupos, houve tempo e espaço para lhe dar a sua merecida despedida, ele que já anunciou que deixará de jogar depois desta cimeira de 48 seleções.
Estava já o qualificado México a ganhar 2-0 à Chéquia, a 12 minutos do término do jogo, quando Ochoa se levantou do banco e entrou para o lugar de Raúl Rangel, guarda-redes do clube da terra que viu nascer Ochoa, Guadalajara. O público rejubilou. Memo ainda viu mais um golo do México.
“O meu primeiro jogo, Azteca. O meu último jogo, Azteca. Foi um bonito último capítulo da minha carreira. Obrigado a todos”, suspirou o guarda-redes, relembrando a estreia como profissional em 2004, pelo Club America.
Guarda-redes elevado pelos colegas
Jam Media
Em mais de 20 anos carreira, jogar por um dos maiores clubes do país e brilhar pela seleção tornou-o cara de outdoors publicitários, a sua cara viaja amiúde na parte de fora dos autocarros da Cidade do México. “Na Europa, não temos bem noção de quão estrelar é Ochoa no México. Ele não pode sair à rua”, confessou à Tribuna Expresso em 2022 o treinador de guarda-redes português Ricardo Pereira, que trabalhou com Ochoa no Standard Liège, falando então de um guarda-redes com características “muito particulares”.
“Fala-se e é unânime que é um dos guarda-redes mais rápidos na velocidade de reação”, explicou, apontando as qualidade de um guardião “muito coordenado e muito rápido na linha de baliza, o que lhe permite fazer paradas inacreditáveis.” Na altura, à Tribuna Expresso, Ricardo Pereira destacou ainda o domínio do “deslocamento, os passos laterais e cruzados” de um guarda-redes “moderno”, “equilibrado” e “extraordinariamente inteligente”.