O Mundial é uma homenagem de Yan Diomande à irmã, a primeira pessoa a ver nele um Cristiano Ronaldo em sandálias
Joosep Martinson - FIFA
Fintar adversários foi a maneira que Yan Diomande encontrou para lidar com o luto. Um ano antes do Mundial, informaram-no que a irmã de 15 anos tinha morrido. O jogador do RB Leipzig leva um percurso de dor e sofrimento que começou na casa onde morava com 25 pessoas e dormia de chuteiras, passando por negas e tragédias. Aos 19 anos, é um dos jovens mais promissores do futebol internacional e é um dos principais perigos da seleção da Costa do Marfim
Quando a camisola falsa do Manchester United lhe foi entregue, Yan Diomande achou que a réplica ainda poderia ser retocada. Agarrou então numa caneta preta e escreveu o nome e o número de Cristiano Ronaldo nas costas. Feita a personalização, ninguém o podia acusar de não ter uma peça de coleção com muito valor. Valor emocional.
O desconcertante costa-marfinense faz parte de uma nova geração que cresceu a admirar Ronaldo e Messi, mas que começou a jogar futebol a sério quando Mbappé já tinha feito o suficiente para ser um ídolo credível. Diomande estreou-se na liga espanhola pelo Leganés, com 18 anos, em pleno Santiago Bernabéu, e foi recompensado com a camisola do avançado francês.
Estava feliz na posse de um artefacto fidedigno. Talvez mais radiante do que alguma vez tinha estado e do que alguma vez viria a estar. O telefone encheu-se de chamadas vindas do seu país. Roxane, a irmã de 15 anos, tinha morrido após ingerir uma bebida adulterada.
Antes do Mundial 2026, Yan Diomande dedicou-lhe uma carta publicada no “The Players' Tribune”, o confessionário dos jogadores. “Agora, não sinto nada. É como se não fosse humano. Desde que morreste, estou completamente vazio”, relatou um ano depois da trágica perda. “Escrevi, porque não consigo falar sobre isso.”
Na estreia no Mundial 2026, a Costa do Marfim venceu o Equador por 1-0
Ezra Shaw - FIFA
Por apreço familiar ou devido a uma boa capacidade de detetar talentos, Roxane viu no pirralho a chutar a bola de sandálias um jogador melhor do que Ronaldo, Mbappé ou qualquer outro que aparecesse na televisão da casa que albergava 25 pessoas. Uma delas dormia de chuteiras, a única maneira que tinha para fazer o sonho de ser futebolista parecer real.
Yan Diomande deixou a Costa do Marfim aos 15 anos. Foi estudar para os Estados Unidos e, quando falava com a irmã, entregava-lhe relatos de um mundo paralelo no qual os alunos cometiam o sacrilégio de discutirem com os professores e fumarem depois das aulas.
Ao mesmo tempo, tentava seduzir equipas com a engenhosa prática futebolística de que era portador. Não lhe chegaram as recomendações da irmã. Nem as equipas secundárias da MLS lhe reservaram alguma atenção. Na Europa, o diamante também não teve grande repercussão. Mostrou-se ao Bournemouth, ao Chelsea, ao Rangers, ao Olympiacos e ao Crystal Palace. Ninguém o achou conveniente e regressou à Costa do Marfim. Uma carreira que ainda não tinha começado, estava em vias de acabar.
No início de 2025/26, o RB Leipzig já teve que desembolsar €20 milhões para o contratar ao Leganés, clube que o admitiu na Europa. Ao longo da temporada, fez 36 jogos na equipa alemã e os 13 golos e nove assistências desfizeram as dúvidas. Agora, o emblema da Bundesliga exige um valor próximo dos €100 milhões para o vender aos tubarões.
Os tubarões já estão atentos a Yan Diomande, mas o RB Leipzig não vai facilitar nas negociações
Alexander Hassenstein
Apenas com 19 anos, é um dos jovens que o Mundial está a consagrar. Facilmente distinguível pela fita a ordenar as tranças, é irreverente também no estilo de jogo. Só nos dois primeiros encontros da Costa do Marfim no Mundial, completou oito dribles. Neste século, a coleção de estatísticas da Opta apenas encontra um pessoa que fez melhor. Lionel Messi, em 2006, efetuou dez fintas no mesmo número de aparições.
Apesar da juventude, os eléphants assoberbam-no com tarefas, responsabilidade que se traduz em vitórias. Diante do Equador, na estreia da Costa do Marfim no Mundial (1-0), Yan Diomande tornou-se no primeiro jogador desde 1966 com, simultaneamente, cinco ou mais oportunidades criadas, cinco ou mais desarmes, a ganhar dez ou mais duelos e a tocar dez ou mais vezes na bola enquanto pisava a grande área adversária.
São exibições com uma dedicatória especial. “Tudo o que faço no campo é por ti”, lê-se na carta à irmã. “É a minha oportunidade de mostrar a todo o mundo o que viste em mim. Sempre que marcar, vou-me certificar que toda a gente sabe o teu nome. Vou-me certificar de que não te esquecem.” Yan já não é o segredo de Roxane.