No verão de 2008, um homem saiu de casa na aldeia de Al-Safra, no distrito de Hawija, no norte do Iraque, para comprar materiais de construção. Queria terminar a casa da família. Nunca voltou. Horas mais tarde, chegou um telefonema: o pai de Aymen Hussein, militar do exército iraquiano, tinha sido morto e o corpo estava no hospital. Foi alvejado no coração. “Não acreditámos ao princípio. Mas depois fomos ao hospital e encontrámos o corpo do meu pai ali deitado. Foi uma desgraça para todos nós“, recordou Hussein numa entrevista à Al Jazeera
Hawija é uma dessas geografias que marcam as pessoas para sempre: uma cidade de maioria árabe sunita, na província de Kirkuk, que passou, ao longo de duas décadas, pelo controlo da Al Qaeda - controlava Kirkuk e os territórios circundantes na época -, depois pelo controlo do Estado Islâmico (ISIS), igualmente responsável por violência extrema, e finalmente por operações militares do exército iraquiano e das forças curdas. Quem nasceu e cresceu ali carrega essa história no corpo, quer queira ou não.
Aymen pediu à família que abandonasse a aldeia, mas o irmão mais velho não só recusou como se alistou no exército iraquiano. Em vez de fugir, Hussein que já jogava num clube local, juntou-se à selecão juvenil iraquiana de futebol. Foi a sua saída, a única que encontrou.
Ao regressar de um estágio de treinos, na Turquia, alguns anos mais tarde, Hussein soube que o irmão tinha desaparecido, raptado durante o período em que o Estado Islâmico controlava a região. “Não temos tido qualquer notícia dele desde então“, disse na mesma entrevista.
Esteve quase a abandonar o futebol
A família ficou sem o pai, sem a casa que nunca chegou a ser terminada e Hussein começou a pensar em trabalhar para ajudar. O futebol parecia um luxo, uma distração que não combinava com a urgência de pôr comida na mesa. Foi a mãe que o travou. Disse‑lhe que continuasse, que não desistisse do único lugar onde parecia respirar sem medo.
Em 2012, um olheiro do Dohuk FC viu‑o jogar e fez‑lhe uma proposta. Hussein assinou por 18 milhões de dinares iraquianos (cerca de €12.600 na época) com um salário mensal de pouco mais de 900 dólares (€700 na altura). “Honestamente, estava disposto a jogar de graça”, disse mais tarde à Al Jazeera. Nos anos seguintes, percorreu a liga iraquiana, depois o Golfo Pérsico, a Tunísia, os Emirados Árabes Unidos. Tornou‑se um dos avançados mais valorizados do país, com um contrato avaliado em cerca de um milhão de dólares. Pela seleção, soma cerca de 90 jogos e mais de 30 golos. Tornou‑se goleador, capitão e símbolo. Mas nunca deixou de ser o miúdo que viu a família ser engolida por duas organizações terroristas diferentes.
Em março de 2026, em Monterrey, Aymen saltou mais alto do que a defesa boliviana e cabeceou para a baliza no play‑off intercontinental. O Iraque venceu. Garantiu o regresso ao Mundial pela primeira vez em 40 anos. Para Aymen, foi mais íntimo: era a prova de que a mãe tinha razão quando lhe disse para não desistir.
A qualificação foi construída golo a golo por ele: 12 tentos ao longo da campanha, mais do dobro de qualquer outro jogador iraquiano.
Sete horas detido no aeroporto em Chicago
A chegada aos EUA, para jogar o Mundial, foi mais um capítulo que lhe recordou de onde vem. Esteve sete horas detido no Aeroporto O’Hare, em Chicago. Os agentes da Alfândega e Proteção de Fronteiras detiveram-no e interrogaram-no sem explicações claras. O telemóvel foi vasculhado e o fotógrafo da equipa, Talal Salah, que esteve detido mais de dez horas, acabou mesmo por ser deportado. Hussein foi autorizado a entrar.
Dias depois, já em campo, Hussein fez o que sabe fazer melhor. No encontro de estreia do Iraque contra a Noruega, ao minuto 39, saltou acima da defesa norueguesa e cabeceou a bola para o interior da baliza, empatando momentaneamente o jogo. Foi o primeiro golo do Iraque num Mundial em 40 anos e apenas o segundo da história do país na competição, depois do de Ahmed Radhi, em 1986. O Iraque perdeu 4-1, mas o golo vai perdurar na memória dos iraquianos.
Hussein Saeed, antigo capitão iraquiano e recordista de golos pela selecção com 78 tentos, avaliou o papel do jogador: “A influência do Aymen é clara na equipa e em todos os jogadores. Como pessoa, tem uma personalidade adorável e humilde.” O guarda-redes e vice-capitão Jalal Hassan foi mais directo: “É um avançado de qualidade elevada. A equipa vai precisar dele e a sua presença vai fazer a diferença no Mundial.”
Para Hussein, o significado vai além do desporto. Cresceu numa aldeia onde as bombas nas condutas de petróleo eram rotina, onde o terrorismo levou o pai e apagou o rasto do irmão. Tornou-se o rosto de uma geração iraquiana que cresceu em guerra e que, pelo futebol, encontrou uma forma de existir no mundo.
O seu sonho de infância, confessou à FIFA, era simplesmente terminar a casa que o pai tinha começado a construir quando foi assassinado.