Dembélé festeja um dos três golos do hat-trick marcado ainda na 1ª parte
Maddie Meyer - FIFA
Toda a gente esperava um duelo Mbappé-Haaland no França-Noruega que ia encontrar o 1º classificado do Grupo I, mas Solbakken concedeu ainda antes do jogo começar: deixou todos os titulares no banco, ao contrário dos gauleses, que brilharam no ataque, com um hat-trick de Dembélé, mas que ainda procuram um nível pelo menos parecido na defesa. A França venceu por 4-1 e ainda espera adversário para os 16 avos
Ver o quarteto ofensivo de França é como assistir a uma conferência da Mensa, sociedade que junta seres humanos com QI anormalmente alto. Mais animada e mexida, por certo, cheia de gente sobredotada passeando-se em relvados de estádios espampanantes e não em chatas salas de hotéis genéricos.
É um futebol tão suave quanto eficaz, feito de sociedades, repentismo e de um cruel sentido de objetivo, neste caso, o golo. Uma máquina coletivista constituída por tipos incrivelmente talentosos, capazes de colocar um bonito arabesco numa bola vinda da linha de montagem. É o futebol ambidestro de França, do pé direito tão bom quanto o esquerdo de Ousmane Dembélé, do pé esquerdo quase tão bom quanto o destro de Michael Olise, de Mbappé como pivô, uns dias irresistivelmente atraído pela baliza, outros mais a pensar no bem comum. Parece, às vezes, um futebol simplesmente imparável.
Mas para um yin há o seu yang, forças opostas que Deschamps terá de tornar complementares. Se o ataque maravilha, a defesa faz torcer o nariz. Para um Dembélé há um emperrado Theo Hernandez, para um Olise há um Upamecano duro de movimentos. A vitória dos gauleses por 4-1, que lhes ofertou o 1º lugar no Grupo I, diz-nos que esta noite, nos arredores de Boston, venceu o yin. Mas do outro lado estava uma equipa que entrou em campo já a pensar em outras empreitadas.
Mbappé e Haaland: o duelo que não existiu
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No Mundial das individualidades, Stale Solbakken, selecionador norueguês, pensou no coletivo. Enquanto, à distância, Deschamps (ausente do banco devido à morte da mãe) fez alterações cirúrgicas, Solbakken mudou praticamente toda a equipa, privando o mundo do duelo Haaland-Mbappé. Queiramos ou não, o futebol continua a ser um jogo quantitativo e não um mero entretém do povo. Haaland, depois de confirmada a qualificação norueguesa, disse com a maior candura possível que não esperava vencer França, até porque França provavelmente ia bater toda a gente, e Solbakken terá concordado: os melhores voltarão para os 16 avos de final.
França bateu-se assim com uma espécie de Noruega B, o que também ajudou ao arraial ofensivo da 1ª parte. Mbappé rematou à barra na primeira jogada do encontro, a romper pela direita, prenunciando o que aí vinha. Aos 7’, Dembélé, precisamente daquele sítio, recebeu um passe de primeira do capitão e com demasiado espaço teve autorização para partir com balanço para cima de dois adversários, musicando a jogada com a pornográfica proficiência dos seus dois pés: fintou com o esquerdo, rematou para o golo com o direito.
Marcaria mais duas vezes o avançado do PSG, no primeiro hat-trick de 1ª parte deste Mundial. Aos 20’ recebeu novo passe a abrir de Mbappé para um desguarnecido lado direito e desta vez fletiu para dentro, para rematar com o pé esquerdo. Aos 32’, a jogada do terceiro golo só não foi tirada a papel químico porque desta vez a assistência não foi de Mbappé e Dembélé cometeu a proeza de, num espaço ainda mais reduzido, voltar a acertar um remate cruzado com o pé esquerdo.
Um dos três golos de Ousmane Dembélé
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Com tantas partes do corpo a funcionarem em harmonia e cérebros tão ligados, o que se viu parece mesmo outro futebol.
Acontece que, nos intervalos da genialidade ambidestra de Dembélé, uma Noruega sem Haaland, Sorloth, Berge ou Odegaard ia criando as suas ocasiões, empurrando a defesa francesa para a sua área, atazanando laterais - Theo Hernandez vai ter pesadelos com Oskar Bobb esta noite.
Com 1-0 no marcador para França, Strand Larsen desperdiçou em cima de Lacroix um primeiro lance de perigo para os nórdicos, numa noite em que não foi feliz. Na 2ª parte falharia um penálti, deixando para sempre no ar a questão: e se Haaland tivesse jogado?
É possível que o 4-1 fosse outra coisa qualquer, talvez com vitória francesa mas com números mais ameaçadores. Sem a sua artilharia pesada, a Noruega marcou apenas uma vez, ainda na 1ª parte, na bola de saída logo após o segundo golo de Dembélé, num lance de sonambulismo absoluto de França, que permitiu que o adversário avançasse sem oposição, com Thelo Aasgaard, à entrada da área, a tirar Upamecano da jogada com uma simples finta de corpo, abrindo espaço para visar a baliza de Mike Maignan. Talvez França tivesse apenas ainda inebriada com que tinha acabado de acontecer do outro lado do campo, talvez estas falhas de concentração sejam sintomas de um problema maior. Talvez.
Na 2ª parte, Solbakken continuaria a sua incessante vontade de gerir os 26 jogadores que tem à disposição - Haaland e Odegaard não sairiam do banco - e França também cedo começou a retirar as suas estrelas. Ambas as equipas pareciam satisfeitas com os objetivos que traziam para o jogo. O ritmo baixou para níveis pelada de final de tarde e a realização não teve outro remédio senão tentar encontrar qualquer tipo de animação nas bancadas, apanhando até um casal recém-casado entre as centenas de vikings remadores vestidos de vermelho.
Aasgaard, marcador do golo da Noruega, a avançar com a bola
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O quarto golo de França surgiu assim já meio por acaso, com ambas as equipas a jogar a passo. Nos descontos, uma ligação conhecida entre Barcola e Doué, com o último a cabecear para a baliza, resultou no avolumar do resultado. França é primeira do grupo porque quis. A Noruega não se importou nada em ser segunda.
A equipa nórdica jogará com a Costa do Marfim nos 16 avos, seguramente já com os melhores em campo. França ainda espera adversário, alguém que provavelmente ainda não lhe fará mossa. Mas a ambivalência do potencial da equipa, entre um ataque brilhante e uma defesa que não o acompanha, pode ser problemática lá mais para a frente.