O treinador do Uruguai recusou-se a olhar para a câmara enquanto a FIFA captava os retratos oficiais do Mundial 2026
Michael Regan - FIFA
El Loco não é um fã da plasticidade do Mundial. Detesta as pausas para hidratação e não lhe peçam que sorria para uma fotografia onde não pediu para entrar. Só quer, com o seu temperamento ácido, levar o Uruguai mais além, o que implica fazer um bom resultado contra a Espanha para não ser surpreendido por Cabo Verde ou Arábia Saudita no Grupo H
A chegada à fase mais adiantada da vida é um portal para novos benefícios. Falar despreocupadamente é um deles. Não há muitas oportunidades para que os visados possam colocar em ação as represálias, por isso, é aproveitar para desatar o nó vocal e dizer-se, sem filtros, o que se pensa.
O proveito máximo desse momento está explanado em Marcelo Bielsa. Os ares do Mundial 2026 deixaram-lhe o sentido de humor engripado. O folclore de que a competição é feita não combina com o treinador que já tem 70 anos e se assemelha ao fundador de um partido político contra o futebol moderno.
Um desafio interessante para comprovar o desconforto para com o Mundial é pedirem-lhe que sorria. O fotógrafo da FIFA tentou, mas sem sucesso. Antes do torneio, todas as equipas participantes são escovadas por uma sessão de fotografias e vídeos oficiais. El Loco recusou colocar-se na montra e exibir-se. O máximo que as lentes conseguiram captar foi Bielsa de olhos no chão e mãos nos bolsos enquanto pensava isto nunca mais acaba?
Quando a imagem foi exibida no anúncio do onze inicial que o Uruguai utilizou no primeiro jogo do Mundial, contra a Arábia Saudita, a estranheza instalou-se. Marcelo Bielsa não deixou os curiosos sem resposta. “Não sou modelo.” Uma resposta ácida às “exigências sem fundamento” às quais o tentaram sujeitar. “Si uno usa lentes, porque usa lentes. Si mira a los ojos, porque mira a los ojos. Si mira para arriba o para abajo… ¿Tantas cosas hay que explicar?”
O Mundial 2026 é o inferno dos alérgicos a inovações. A sobrecarga de participantes, o número de jogos, os preços exorbitantes dos bilhetes, as novas regras, a cerimónia alternativa dos hinos. Para os céticos, é melhor trazer imediatamente a injeção de epinefrina.
Marcelo Bielsa teve particulares dificuldades em lidar com a vanguardista ideia das pausas para hidratação, algo que “não agrega nada e tira muito” ao futebol e divide os 90 minutos em quatro partes. A mudança “altera a conceção que culturalmente se havia construído para interpretar o futebol”. “Não se pensou no efeito que pode ter sobre o que fez com que o futebol seja um desporto que apaixona. Pensou-se noutras repercussões.”
Bielsa, como sempre, sentado na geleira
Michael Regan - FIFA
O treinador do Uruguai já tinha mostrado o desencanto com a capacidade organizativa dos Estados Unidos quando viajou até ao território onde se realiza o Mundial 2026 dois anos antes, para disputar a Copa América. Por Bielsa, os norte-americanos tinham chumbado no teste diagnóstico.
Nessa ocasião, o técnico argentino visou quem disse que o mau estado dos relvados era só “uma questão visual”, as mesmas pessoas que ameaçaram sancionar os críticos dos pisos. “Isso é uma vergonha”, queixou-se aproveitando para lembrar a atitude do país aquando do branqueamento de capitais relacionado com o torneio continental. “Quando sentiram que os seus interesses estavam a ser atacados, os Estados Unidos criaram o 'FIFA Gate' com o FBI. Fizeram o que fizeram, mas era só por interesse próprio.”
No Mundial, o argentino tem mantido a postura: uma posição que causa arrepios aos especialistas em ergonomia em cima da geladeira. E, claro, também a rabugice.
Não se espera nada muito diferente na última jornada do Grupo H, contra a Espanha. A dimensão do desafio é grande e o Uruguai terá que ser protagonista. Após os empates frente a Arábia Saudita (2 pontos) e Cabo Verde (2 pontos), evitar uma supresa requer um bom resultado diante dos campeões da Europa (4 pontos).
O frete não está a conquistar os jogadores e parte do balneário contestou a tática que o treinador pretende utilizar frente a La Roja. Revela a rádio El Espectador que um grupo de jogadores - Sergio Rochet, Manuel Ugarte, Rodrigo Bentancur e Federico Valverde - questionaram o plano. Na opinião dos futebolistas, a melhor maneira de superar a Espanha é jogar com um bloco baixo e contra-atacar. Perante a contestação, que incluiu queixas sobre os problemas físicos causados pela intensidade dos treinos, Bielsa deu um sermão de 48 minutos cujos efeitos estão por conhecer.