Numa conferência interrompida por Dua Lipa, Roberto Martínez diz que será importante “controlar as emoções” frente à Colômbia
Martínez falou antes do encontro com a Colômbia, que fecha a fase de grupos para Portugal
Carmen Mandato - FIFA
Antes do encontro com a Colômbia (sábado para domingo, às 0h30) em Miami, Roberto Martínez lembrou a importância da vitória frente ao Usbequistão para a “união do grupo“ e lembrou que o jogo com a Colômbia obrigará a ajustes táticos, frente a uma das “melhores equipas do Mundial na transição“
Às tantas, a meio da conferência de imprensa de Roberto Martínez no Hard Rock Stadium, agora Miami Stadium para efeitos de não incomodar os patrocinadores da FIFA, começa-se a ouvir, em decibeis exageradíssimos, uma canção de Dua Lipa. Interrompem-se as perguntas, porque é impossível ouvir algo mais que não seja a cantora britânica, ou o som da cantora britânica vindo dos potentes altifalantes do estádio. Não é hard rock, mas faz barulho.
Martínez eleva e baixa os ombros, abana ligeiramente a cabeça, como um dançarino tímido encostado a um canto numa discoteca cheia de gente. Sorri com a inesperada suspensão e ainda pergunta se não há “Sara Correia ou Marisa”, algo mais calmo e adequado a Portugal e daí talvez não, dizem-nos as notícias do dia que a intérprete de origem kosovar, que nas suas redes sociais fomenta um clube de leitura bem catita, juntou-se à Livraria Lello, no Porto para criar a Biblioteca Manifesto, espaço dedicado a obras proibidas ou alvo de censura, alguns delas quem sabe na lista negra do próprio estado da Flórida, onde nas escolas não se pode ler certos livros de Margaret Atwood ou Toni Morrison. Idiossincrasias da maior democracia do mundo, dizem eles.
O som arrasta-se por alguns minutos. Quando termina, Roberto Martínez garante que “Dua Lipa está a torcer por Portugal” e se calhar está mesmo, por Portugal e contra certo obscurantismo, pelo que não deixa de ser irónico, comicamente irónico, que esteja ali, na Flórida, a servir de comic relief numa conferência de imprensa de um torneio da FIFA.
Martínez durante a conferência de imprensa, no Hard Rock Stadium, de Miami
Carmen Mandato - FIFA
Não terá sido apenas a aparição de Dua Lipa a causar estranheza no evento, também a ausência específica de perguntas sobre Cristiano Ronaldo. Quantas vezes terá isso acontecido desde que Roberto Martínez é selecionador nacional? Muito poucas, seguramente, mas isso é bom sinal: depois do 5-0 ao Usbequistão, talvez o grupo se tenha tornado mais importante do que um homem só.
Roberto Martínez assume que sim, que o segundo jogo foi “importante ao nível da união do grupo, do aspeto psicológico”, além de ter sido um encontro “taticamente bem conseguido”. Mas frente à Colômbia, os desafios são outros e o selecionador nacional sabe-o bem.
“O foco amanhã [sábado] é respeitar a Colômbia, é um desafio diferente a nível tático face ao jogos que tivemos”, sublinhou Martínez. Depois de no primeiro jogo ter vacilado em vantagem, Portugal “continuou a controlar o jogo” depois de marcar frente ao Usbequistão, algo essencial numa competição como esta. “É muito importante o aspeto psicológico de gerir um jogo no Mundial e nós controlámos as emoções muito bem. Amanhã precisamos de fazer isso, provavelmente é o primeiro jogo neste Mundial em que jogamos fora de casa, porque aqui em Miami há muitos adeptos da Colômbia e isso é um bom desafio”, continuou, reforçando a necessidade de “controlar as emoções” no jogo que fecha a fase de grupos para Portugal.
Mas haverá mais do que muitos adeptos colombianos nas bancadas, os mesmos que obrigaram Martínez a comprar bilhetes para o jogo para a família “logo em novembro“, tal era a procura - Portugal foi a primeira seleção a esgotar bilhetes no Mundial e este encontro com a Colômbia foi particularmente concorrido. Os primeiros jogos dos cafeteros apresentaram uma equipa incessante, veloz, eletrica, perigosa nos ataques rápidos. Que vai pedir ajustes táticos a Portugal para a conter. Martínez lembra que a seleção colombiana “acredita muito no que faz”, que há “trabalho de continuidade do treinador”, o argentino Néstor Lorenzo, e “clareza nas ideias”. E sobre a possível ausência de Luis Suárez na frente, recorda o catalão que na Colômbia o forte “não é tanto quem joga, é mais a ideia de jogo”.
“Tem uma boa posse de bola, com jogadores como James e Quintero, conseguem utilizar as zonas centrais, é uma das melhores equipas do Mundial na transição, com o Suárez e o Luis Díaz”. Falar de Colômbia, reforça, “é falar de uma ideia, de uma estrutura tática e não tanto se joga o Luis Suárez ou não”, aponta, deixando no ar que está a contar com um adversário com várias alterações no onze, até porque a Colômbia já está qualificada para a próxima fase. Já Portugal precisa de ganhar para chegar ao 1º lugar do Grupo K, enquanto ainda aguarda que resultados alheios confirmem uma já quase certa passagem aos 16 avos de final.
Jogo preparado há meses
O tempo é de humores naquela parte do Mundo, onde as tempestades aparecem danadas para se irem embora da mesma forma repentina como vieram. É questionado Martínez se Portugal não está arrependido de ter instalado as trouxas em Miami, onde as trovoadas e chuvas já impediram alguns treinos, mas o selecionador nacional garante que a lógica é precisamente a contrária: Portugal escolheu Miami por causa deste jogo com a Colômbia, o primeiro que vai disputar num estádio vulnerável ao clima, depois de dois encontros no recinto coberto e de temperaturas controladas de Houston.
Selecionador nacional durante o encontro com o Usbequistão
DeFodi Images
“Começámos a preparação deste jogo em março, com o que fizemos quando estivemos no México. Já tivemos 13 treinos em Miami para nos adaptarmos e o nosso plano era ficar em Miami para preparar o jogo contra a Colômbia”, explicou, sublinhando que “os jogadores estão preparados para o desafio físico” e para “a relva diferente” da que encontram na Europa. “Se há jogo que tivemos tempo para preparar foi este, não o começámos a preparar só depois do segundo encontro.”
Roberto Martínez diz que acredita que a seleção nacional já está num nível de preparação que lhe permite “fazer duas ou três substituições ao intervalo” e a equipa “continuar com o mesmo nível tático e de qualidade técnica” e que essa é uma “força” do balneário. “A palavra substituto não existe” no grupo, lança, frase que não soa a alguém que vá fazer muitas alterações nos titulares face ao encontro com o Usbequistão.
Ainda assim, Martínez aponta que, frente à Colômbia, há “aspetos táticos a ajustar”, mas “mais importante” é manter “a personalidade para continuar a ser Portugal, num ambiente diferente do dos primeiros jogos”. E um ambiente que será essencial para “avaliar o nível” da equipa, diz, olhando já para o que chamou “o segundo Mundial”, ou seja, a fase a eliminar.