A Inglaterra parecia sem rumo, mas depois atravessou o canal do Panamá
Só aos 61 minutos Jude Bellingham inaugurou o marcador
ANP
Flutuando de um lado para o outro, não estava a ser fácil para a Inglaterra quebrar a convicção defensiva do Panamá. A bola parada ajudou a desbloquear uma vitória (2-0) que valeu o primeiro lugar do grupo L
Dar a volta ao continente em que se disputa o Mundial era, até 1914, uma complicação. O Atlântico e o Pacífico, apesar de se verem um ao outro pelos lados opostos de uma mesma janela, não tinham contacto. Para fazer um favor aos navios, rasgou-se a América ao meio e criou-se o Canal do Panamá.
Apesar dos zero pontos, nos dois primeiros jogos do Mundial, os adversários tiveram dificuldade para chegarem à baliza dos panamenhos. A seleção concedeu apenas quatro remates enquadrados, dois ao Gana e dois à Croácia, dos quais resultaram dois golos sofridos.
A Inglaterra foi intermitente. Por vezes, passou pelas mesmas dificuldades que as embarcações tinham antes de se fazer o atalho. No entanto, acabou a demonstrar uma fluidez na travessia para a fase a eliminar mais consentânea com o momento em que a história mudou.
Nico O'Reilly esteve irrequieto e ocupou várias zonas do terreno
Eddie Keogh - The FA
Furar o 5x4x1 exigia uma minúcia de cirurgião que a equipa de Thomas Tuchel não procurou ter. Apostou mais em combinações exteriores que abrissem espaço para cruzamentos, mas mesmo quando a inquietação de Bukayo Saka conquistava a linha de fundo, as intenções eram bloqueadas. Marcus Rashford e Elliot Anderson tentaram acrescentar os remates de fora da grande área ao lote de soluções. Por enquanto, havia uma paralisação causada pelo veneno defensivo.
Thomas Christiansen é o espanhol nascido na Dinamarca que treina o Panamá. Enquanto antigo pupilo de Johan Cruyff e colega de Pep Guardiola, seria contranatura não tentar algo mais. Alguns dos momentos de acutilância tiveram que ser anulados por Jordan Pickford, sem escrúpulos, com pontapés para a bancada. Puma Rodríguez levou da passagem pelo Famalicão até ao Mundial a necessidade de ser respeitado.
Sem que a Inglaterra estivesse a jogar de maneira oleada, os adeptos não levaram à paciência a pausa para hidratação num dia de chuva. O que queriam ver era mais permutas como as de Nico O’Reilly e menos interrupções.
O Panamá parecia uma secretária onde foram espalhados os papéis que anteriormente estavam empilhados. A organização perdeu-se por completo na segunda parte. Assim, Harry Kane tentou espicaçar uma subida de nível e tornou-se um real incómodo para os defesas.
Harry Kane surgiu com mais ênfase na segunda parte
James Gill - Danehouse
A sequência de entradas na grande área fez aumentar o número de bolas paradas. Mesmo sem o batedor dos cantos, Declan Rice, em risco de suspensão caso visse amarelo, a Inglaterra teve uma sensação de alívio num desses momentos. Jude Bellingham, de braço dado com um defesa, estava apoiado no chão quando inaugurou o marcador. Os esquemas táticos eram um perigo que Thomas Christiansen disse conhecer, mas para o qual não encontrou remendo.
A desenvoltura que a equipa dos Três Leões passou a exibir manifestou-se na propagação de mais carrosséis. Jude Bellingham, cinco minutos depois, apareceu onde não era suposto, passando por espaços que nunca tinha pisado antes. Sem bola, movimentou-se pelas entranhas da linha defensiva e conquistou espaço para servir Harry Kane.
Ismael Díaz ainda teve oportunidade de marcar o primeiro golo do Panamá nesta edição do torneio, só que não aproveitou. Sem golos e sem pontos, o país terminou no polo oposto da Inglaterra, líder com sete pontos. Do grupo L, também Croácia (seis pontos) e Gana (quatro pontos) escorreram para os 16 avos de final.
A estreia frente à Croácia deu uma ideia errada do que a Inglaterra veio fazer ao Mundial. O futebol floral desse jogo foi uma exceção. Ainda assim, soube desenvencilhar-se dos desafios que se seguiram, embora não da maneira mais consistente.