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  • Mundial 2026

    No estádio e lá longe, os adeptos de Cabo Verde abraçam o possível

    Adeptos cabo-verdianos festejam após o empate com a Arábia Saudita, que valeu o apuramento para os 16 avos de final
    Adeptos cabo-verdianos festejam após o empate com a Arábia Saudita, que valeu o apuramento para os 16 avos de final
    DESIREE RIOS

    Em Houston, no estádio, e em New Bedford, no Massachusetts, onde se concentra boa parte da diáspora cabo-verdiana nos Estados Unidos, os adeptos de Cabo Verde festejaram o que parecia impensável: a qualificação para a fase a eliminar. Agora vem a Argentina nos 16 avos de final

    Mitch Smith e Madaleine Rubin/The New York Times

    Os cabo-verdianos nos Estados Unidos estão habituados a dar aulas improvisadas de geografia a estranhos.

    A sua terra natal, dizem eles a quem lhes faz perguntas de boa vontade, é uma nação insular ao largo da costa da África Ocidental. Tem cerca de meio milhão de habitantes. Conquistou a sua independência de Portugal em 1975.

    Essas explicações estão, de repente, a tornar-se menos necessárias. Ao participar pela primeira vez no Campeonato do Mundo, Cabo Verde conquistou a atenção e a simpatia do mundo inteiro este mês, ao empatar com Espanha e Uruguai, duas potências do torneio, nos seus dois primeiros jogos.

    Cabo Verde entrou no jogo de sexta-feira contra a Arábia Saudita com grandes hipóteses de passar à fase a eliminar — e com uma nova projeção internacional que encantou e surpreendeu os membros da diáspora do país.

    “Disse às minhas irmãs que esta seria a última vez que teriam de dizer ‘sou da costa ocidental de África’”, afirmou Tony De Barros, um californiano de ascendência cabo-verdiana que se deslocou a Houston para assistir ao jogo de sexta-feira.

    “É quase como se não fossem só os EUA, mas o mundo inteiro, a saber, de certa forma, quem tu és e onde estás.”

    Adeptos de Cabo Verde chegaram a Houston aos milhares. Por toda a cidade, lá estavam eles — a tomar café vestidos com as suas camisolas em East Downtown, a conviver com adeptos de outros países no festival oficial da FIFA, a seguir pela Old Spanish Trail em direção ao estádio com bandeiras a cobrir-lhes os ombros.

    Eles sabiam o que estava em jogo, que a sua equipa estava à beira do que parecia impensável antes do torneio. Se Cabo Verde vencesse, passaria à fase eliminatória. Se empatassem com os sauditas e a Espanha derrotasse o Uruguai, ainda assim passariam à fase seguinte.

    Mário Fernandes, que se mudou de Cabo Verde para os Estados Unidos ainda adolescente, disse que tinha comprado os bilhetes para o jogo em Houston há muito tempo, “assim que ficaram disponíveis.” Mas será que ele pensava, naquela altura, que viria a torcer por uma equipa com hipóteses reais de passar à fase seguinte?

    “Realisticamente, não”, assume Fernandes enquanto comia uma sanduíche de frango sob um calor de 34 graus, no exterior do estádio, onde já estava na fila muito antes de os portões abrirem. “Mas sou um homem de fé. Eu acreditava.”

    Fernandes, um assistente médico, estava entre os muitos adeptos cabo-verdianos que tinham viajado do Massachusetts, o coração da diáspora nos Estados Unidos, até ao Texas.

    Na Nova Inglaterra, na sexta-feira, viam-se bandeiras de Cabo Verde com as cores vermelho, branco e azul penduradas nas varandas das casas e adeptos com bandeiras penduradas nos ombros passeavam pelas ruas de New Bedford, no Massachusetts.

    Penny Santos, de 91, a cima, a festejar o sucesso de Cabo Verde em New Bedford
    Veasey Conway/The New York Times

    No interior de um salão de veteranos cabo-verdianos em New Bedford, as pessoas vestiam camisolas dos Boston Red Sox adornadas com a bandeira de Cabo Verde e saboreavam linguiça, um prato habitualmente servido nas ilhas, enquanto assistiam ao jogo num ecrã de projeção na parte de trás do bar.

    Penny Santos, de 91 anos, cujos pais emigraram de Cabo Verde, levantou-se de um salto da sua cadeira num determinado momento, quando o guarda-redes da sua equipa fez uma defesa.

    “O orgulho é algo que não se pode comprar”, diz Santos. “É algo que só se consegue sentir, e é preciso que alguém faça isto para despertar esse orgulho em ti.”

    A comunidade cabo-verdiana em Massachusetts remonta ao século XIX, quando baleeiros das ilhas começaram a estabelecer-se em New Bedford, uma cidade portuária a sul de Boston. Massachusetts acolhe atualmente dezenas de milhares de pessoas de ascendência cabo-verdiana. O governador do estado recebeu o presidente de Cabo Verde em Boston este mês.

    Muitos cabo-verdianos afirmam que a qualificação para o Mundial, especialmente por se tratar de um dos países mais pequenos de sempre a conseguir tal feito, foi, por si só, uma vitória. E o orgulho que sentiam pela equipa não iria diminuir, mesmo que o jogo de sexta-feira não corresse como esperavam. Mas, sobretudo depois de a sua seleção ter empatado com a Espanha, uma das seleções mais fortes do mundo, no jogo de estreia, os adeptos de Cabo Verde começaram a sonhar com algo mais do que a simples participação no Mundial.

    Fora do estádio, em Houston, os cabo-verdianos eram pequenas celebridades. Posaram para fotos com desconhecidos. Entoaram cânticos e cantavam enquanto pessoas com camisolas de outras equipas filmavam com os seus telemóveis. Cumprimentaram outras pessoas que usavam chapéus com a forma de tubarão, numa referência à alcunha da equipa, os Tubarões Azuis.

    No interior do estádio, os cabo-verdianos deram o seu melhor para incentivar a sua equipa a marcar. Sempre que um jogador de azul rematava, a multidão explodia em aplausos. Sempre que a bola não entrava na baliza, eles suspiravam de frustração.

    Quando o jogo terminou num empate sem golos, uma energia de nervosismo percorreu o estádio. Esse nervosismo transformou-se em júbilo momentos depois, quando chegou a notícia da vitória da Espanha sobre o Uruguai, garantindo a passagem de Cabo Verde à fase seguinte.

    Os adeptos dançavam nos seus lugares. Os jogadores abraçaram-se em campo. A bandeira de uma pequena nação insular tremulava nos ecrãs de televisão de todo o mundo, incluindo naquele salão de veteranos, lá no Massachusetts.

    “Ver alguém alcançar os seus objetivos é algo maravilhoso”, afirmou Santos em New Bedford, enquanto as toalhas rodopiavam no ar e as pessoas erguiam as mãos para o céu. “É isso que estão a ver aqui hoje.”

    Este artigo foi publicado originalmente no The New York Times.

    © 2026 The New York Times Company

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