O tempo não fez bem a Portugal: apenas sofreu e resistiu antes de começar o segundo Mundial
Uma das seis defesas feitas por Diogo Costa, esta com o pé e dentro da pequena área, no Portugal-Colômbia
Craig Williamson - SNS Group
Roberto Martínez dissera que o jogo contra a Colômbia estava a ser preparado desde março, mas não se notou. A seleção defendeu encolhida, pouco intensa foi a pressionar, deixou James Rodríguez jogar à vontade e usou a bola sem rasgo, nem chama. O empate (0-0) em Miami foi um elogio a Portugal, que resistiu mais do que existiu contra os sul-americanos que acabaram na liderança do grupo. Diogo Costa foi o melhor em campo. Portugal jogará os 16 avos de final em Toronto, no Canadá, frente à Croácia na madrugada de 3 julho
Hoje fez calor em Miami, húmido e com um sol torrante, ontem houve nuvens no céu, das cinzentas, mais sopros de ventania. Isto não é falar “do tempo”. Cá na Flórida, na véspera do jogo, a televisão local fatiou o noticiário da manhã com segmentos de meteorologia, tinha um “stormtracker” a cada dez minutos para vigiar “tempestades de trovoada isoladas”, riscos de chuva, rajadas de ventania. Havia sempre uma pessoa a apontar para mapas e a falar do clima que para os portugueses é um binómio: ou está bom tempo, ou está mau tempo, mas isso não é o tempo.
O tempo a sério segue adiantado em Miami, onde há autómatos com rodas, uma pessoa caminha em downtown, pára na passadeira, aguarda pelo sinal e arrisca-se a ter a companhia de um robô que faz entregas, ou a ver um robotaxi passar sem condutor. Aqui o tempo é futurista, o tempo a sério, o que Roberto Martínez falou quando disse que Portugal andava a preparar este encontro deste março. E o tempo que a Colômbia não perdeu a atirar a primeira bola longa, na sua primeira jogada, para cair nas costas de João Cancelo.
Algo atarantado, o português nem saltou. A bola caiu em quem mais era de evitar que caísse, Luis Díaz bailou na sua frente, rematou, o lateral desviou e a sobra foi à cabeça de Jhon Córdoba para um susto na espinha de Diogo Costa e um bramido dos colombianos nas bancadas. O estádio era amarelo, há que tempos se calculava, igual se sabia que os sul-americanos seriam de poucos burilados, ainda menos rodriguinhos, quando fosse a sua vez de atacar.
Sofreu Portugal com os ataques-relâmpago da Colômbia, lesta a dar o primeiro passe logo para a frente mal reavia a bola. Procurava Jhon Córdoba, armário de avançado posto sempre no raio de ação de Renato Veiga, não um franganote, o português tem corpanzil, mas por ser o mais débil dos centrais portugueses na marcação. Os colombianos procuravam-no com pressa quando não encontravam a sua preferência - o pé esquerdo de James Rodríguez, lançador-mor de ataques - para ser o matulão, depois, a lançar um dos extremos. Ou ser ele a impor-se, sozinho.
Bruno Fernandes a rematar a melhor oportunidade de Portugal na primeira parte
Robert Cianflone
Com um espirro de encosto fez tombar Bruno Fernandes, seu vigilante após um livre ofensivo português, entrou na área e só a palmada instintiva de Diogo Costa salvou. Depois, no canto, as duas mãos do guarda-redes agarraram na bola inofensiva que Jhon Arias pontapeou, mais tarde nada puderam contra outra, essa rasteira e quase letal, do mesmo jogador: Rúben Neves cortou a tentativa quase em cima da linha, ganhando tempo a Portugal.
Tinha sido uma jogada rápida e para a frente da Colômbia, mais uma com o número preciso de passes, os seus extremos a largarem a linha, espreitando mais ao centro para desorientarem os de Portugal, perdidos entre ir ou ficar. Inferior nos choques físicos, com a chapa dos jogadores amolgada nos duelos, nas disputas, nas perseguições aos adversários, as posses de bola da seleção eram estéreis, sem nervo no jogo interior. Nada produziu por dentro, o pouco que produziu de perigoso veio por fora.
Pela direita, um cruzamento de Cancelo só conheceu o raspão no pé de Jhon Lucumi, a bola sobrou para Bruno Fernandes que, quase na área pequena, estourou sem levantar o olhar, sem tentar um passe ao golo. O instinto de Camilo Vargas bloqueou, depois os olhos do guardião colombiano viram a recarga de Rúben Neves ir além do poste esquerdo. Um instante demorou até Nuno Mendes, matreiro num lançamento lateral, arremessar num ápice a bola, João Félix recebê-la de peito e a matreirice rematada, já na área, sobrevooar o travessão por um palmo.
Em nada mais se espevitou a seleção. Morosa de processos, a pedir autorização a uma perna para mover a outra, com Rúben Neves inconsequente nos ataques, com movimentos de entrada na área para nada, e afundado a defender, como Vitinha, para dentro da portuguesa quando a Colômbia invadia o meio-campo. Neste tempo, na aceção que em Portugal se faz do tempo, os jogadores pareciam sofrer com os 30 graus, a relva seca, condições asseveradas pela pujança dos colombianos a fazer o que fosse. Pedro Neto e Félix eram superados em qualquer faísca com Deiver Machado e Santiago Arias. E quem menos podia ser deixado à vontade, com tempo a sério, era quem o tinha.
Cristiano Ronaldo a gesticular enquanto James Rodríguez tinha espaço, e tempo, para pensar o que fazer à bola
CRISTOBAL HERRERA-ULASHKEVICH
James tricotava os ataques dos sul-americanos, diziam-no gasto, pesado da idade, e ele mais limado, mais leve por usufruir de segundos para rodar com a bola, ver o campo e meter o passe. Ou rematar, com potência e arco, a curva que Diogo Costa se lançou para impedir mesmo antes do intervalo. Aí o tempo ajudou Portugal. Puderam os jogadores ter descanso, recolher ao balneário com os cinturões de gelo que na pausa de hidratação usaram como colares ao pescoço. Ronaldo bem precisou, único de manga comprida em campo.
O reinício aparentou um ligeiro auspício, João Neves entrou, os médios portugueses avançaram uns metros, por momentos o tempo do jogo, se dito em inglês, abrandou. João Félix mostrou ter sprints dentro, desfez a organização defensiva do adversário com um pique, noutra iniciativa recebeu um passe para dentro e rematou. Foram breves despertadores para os ouvidos dos colombianos.
Ambos com vontade de experimentar o remate à distância, Jefferson Lerma deu um efeito à bola que dificultou a reação a Diogo Costa e o de Jhon Arias, mais manso, proporcionou um abraço do guardião à bola. Regressava o colete de forças da Colômbia, que não tardou a trocar de avançado (entrou Luis Suárez) e de maratonista da pressão (Richard Ríos) para reanimar a sua postura no jogo - e o seu manipulador do tempo.
Daqueles jogadores que parece andar a caminhar a ritmo de passeio, fingidor de que está ali sossegado, logo controlável, James Rodríguez continou a espreitar no lado cego dos pouco intensos, ainda menos agressivos jogadores portugueses. Permitido a estar tranquilo quando a bola lhe chegava, a Colômbia jogava ao ritmo do sua batuta. Ele rasgou o campo com um passe para Jhon Arias, na direita, cruzar rasteiro e Ríos, quase posto num penálti em andamento, não acertar na baliza. James tocava, rodoiava, passava, cruzava, era o metrónomo enquanto a seleção nacional assistia, e permitia, a desenvoltura colombiana.
Os jogadores portugueses a refrescarem-se contra o calor e humidade de Miami durante uma das pausas para hidratação
CRISTOBAL HERRERA-ULASHKEVICH
Nunca Portugal provocou um laivo de perigo na segunda parte. Obrigado a agrupar-se perto da sua área por força da magra capacidade de pressão, com vários jogadores nus de intensidade sem a bola (Cristiano, Bruno, Rúben Neves, Félix e depois Rafael Leão), a seleção jogou encolhida, a resistir mais do que a existir. Paupérrima a sua presença na metade colombiana, a sua posse foi lenta, passou a bola como no andebol, de um lado ao outro. Se a recuperava em posições recuadas, o único recurso que tinha era pôr Pedro Neto a correr pela direita, sem companhia, cheio de pressa. Sozinho contra o tempo.
Era uma questão de aguentar enquanto a Colômbia fazia questão de insistir. Carregou, foi atrás de ser protagonista. Saiu James como se nada fosse pois quem o supriu chama-se Juan Fernando Quintero, ou ‘Juanfer’ nas vozes dos milhares de colombianos que já gritavam por ele. Os cafeteros trocaram um orquestrador de ataques por outro, semelhantes nas qualidades, quase reflexos em certas valias, à maior os passes feitos relógio dos ataques. Foi o 10, veio o 20. O mais novo dos maestros lançou Díaz, desatou a jogada que terminou com Daniel Muñoz a rematar, e cruzou a bola venenosa, perto da quina da área, direita à cabeça de Davinson Sánchez para, perto do poste distante, Colômbia marcar. O estádio foi erupção de barulho, só calado pelas unhas de um pé do defesa central.
Por um triz de míseros centímetros a modernice do VAR detecou o fora de jogo, um pormenor, uma pequena variante de que tanto falam os treinadores. Os detalhes decidem as partidas. Esse que tirou um festejo aos sul-americanos podia, pouco depois, ter dado um aos portugueses: nos descontos, Rafael Leão explodiu na esquerda, arrancou na sua passada, Muñoz ficou a vê-lo e o seu rematou junto à relva rasou a base do poste esquerdo. Podia Portugal ter saído aí de Miami com a vitória que lhe recompensaria com a liderança do grupo e uma viagem ao cheiro a churrasco de Kansas City. Teria sido um prémio postiço.
Mais acentuado do que diante da República Democrática do Congo, à seleção nacional custou lidar com transições rápidas e, desta vez, também sofreu a defender-se contra posses demoradas. Defendeu encolhida, pressionou passiva, atacou desinspirada, contra-atacou só com um jogador de cada vez. A uma Colômbia líder do grupo fez de Diogo Costa o melhor em campo e quis mesmo acabar a liderar, isso viu-se até atrás das janelas de vidro da sala em vácuo onde o estádio mantém os jornalistas em cativeiro. Se a seleção preparou este jogo desde março, o tempo a mais não lhe faz bem.
O tempo a sério e o tempo a que se chama bom e mau em Portugal: os jogadores terminaram ensopados, com as camisolas fundidas aos corpos. Encharcaram-se mais um suor do que em qualidade de futebol jogado.
A cabeçada de Davinson Sánchez que desviou a bola para dentro da baliza de Portugal: o golo seria anulado por fora de jogo
Craig Williamson - SNS Group
Aqui em Miami os carros conduzem-se sozinhos, a comida é entregada por robôs, a televisão escamoteia bastante o clima que não é tempo e nela surgem bastantes anúncios a medicamentos, esses duram bastante, são quase telefilmes, neles as contra-indicações têm de constar, ditas devagar, sem fast-forward para as tornar só ruído nos ouvidos. Cá têm de ser bem escutadas.
Roberto Martínez disse que “não há vantagem em ser primeiro” do grupo. Fosse o jogo de hoje um reclame, teria avisado no fim: ficar em primeiro lugar interessava nem que fosse por uma questão de tempo. Agora a seleção jogará a 2 de julho em Toronto, no Canadá, contra a Croácia, em vez defrontar o Gana em Kansas City, no dia seguinte. Seria mais um de descanso.
O selecionador também já dissera que agora começa “um segundo Mundial“. Até esse arrancar, sobrará tempo para dúvidas e desconfianças ressuscitarem em redor da seleção nacional.