A Alemanha já nem nos penáltis é Alemanha e, pelo terceiro Mundial seguido, vai para casa envolta em desilusão
O festejo do Paraguai
Michael Reaves
Surpresa em Boston: o Paraguai eliminou os tetracampeões, vencendo nos penáltis após uma igualdade a um golo. Os alemães perderam no desempate por castigos máximos pela primeira vez na história de uma competição em que, recentemente, somam fracassos. A estratégia defensiva dos sul-americanos sai premiada
O futebol eram 11 contra 11 e no fim ganhava a Alemanha. Já não. Últimos 10 jogos realizados em Mundiais, apenas quatro vitórias. Desde que ergueu o título no Maracanã, em 2014, não mais voltou a pisar os oitavos de final.
O futebol eram 11 contra 11 e, se a Alemanha não ganhava no fim dos 90 minutos e do prolongamento, ganhava nos penáltis. Até hoje, quatro desempates disputados em Mundiais, quatro vencidos. Até hoje, sim.
Na imensidão de um desafio eterno no Massachusetts, um duelo que principiou com sol a cobrir todo o campo e se fechou com o relvado todo à sombra, os alemães saíram, pelo terceiro Mundial consecutivo, de cabeça baixa do cenário onde já foram campeões quatro vezes, ficaram em segundo quatro vezes, fecharam o pódio quatro vezes. Fase de grupos em 2018, fase de grupos em 2022, 16 avos de final em 2026.
A eliminação, depois do 1-1 dos 120 minutos, deu-se nos penáltis. Havertz e Woltemade remataram para defesas de Orlando Gill, novo herói paraguaio. Os sul-americanos tiveram dois match points. Falharam ambos, Sanabria sem pontaria, Balbuena com Neuer a fazer a (última?) defesa pela equipa que representou em 128 compromissos. O Paraguai deu vida à Alemanha, sim. E a Alemanha não aproveitou, não cheirou o sangue. Não foi Alemanha.
Porque já não é Alemanha. Ou não é Alemanha. Regressará, que o futebol tem respeitinho pelos estatutos. Mas não vive como Alemanha. Tah tremeu. Penálti para as nuvens. O peso de um dos remates mais importantes da história do futebol do seu país em José Canale, um central pouco amigo da bola. Não vacilou. Este confronto cozinhado em lume brando a explodir na festa dos protagonistas de uma grande surpresa nos Estados Unidos.
A desilusão alemã
Megan Briggs
Julian Nagelsmann, que chegou a treinador principal na Bundesliga antes de ter três décadas de existência, sempre teve uma aura de menino prodígio dos bancos, de sobredotado, como aquela criança de oito anos que sabe as capitais, as moedas e os regimes políticos de todos os países de África. Agora, aos 38, Nagelsmann ganhou um aspeto diferente, um ar de ginásio, está inchado, como um tech bro de Silicon Valley que acorda às cinco da manhã e escreve no Linkedin sobre como o desconforto pode levar ao êxito.
Ora, Nagelsmann chega a este momento como um animal rodeado de possíveis predadores, de adversários prontos a morderem-no. A imprensa questiona-o; os adeptos duvidam; Jürgen Klopp, detrás do sorriso e das boas vibes que transporta para este Mundial enquanto comentador de televisão, assume-se como uma sombra a pairar sobre o trabalho do atual selecionador. Será difícil sair desta.
Apesar da juventude do timoneiro germânico, este não deixa de ser um Mundial de alto protagonismo por parte de veteranos. Este desafio traduziu essa tendência, expressa no eixo recuado alemão, com os 103 anos que Neuer, Tah e Rüdiger somam entre si, ou nos 10 titulares trintões que entraram em campo no conjunto de ambas as seleções.
O Paraguai veio para este torneio apostado em recuperar a fórmula que, historicamente, deu mais êxito a este conjunto: defender, aguentar, resistir, virtudes que levaram a que lhes chamassem a Itália da América do Sul, nos tempos em que isso era um elogio. Os homens de Gustavo Alfaro fizeram uma exibição que consistia em levar os alemães a transformarem o muito em pouco e os paraguaios o pouco em muito: muita posse, pouco perigo, pouca posse, perigo suficiente. Aguardam pela Suécia ou pela França na seguinte ronda.
Soccrates Images
Soccrates Images
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Junior Alonso, na sequência de um canto, até teve a primeira oportunidade de golo da tarde de sol de Boston, mas depressa se viu o plano dos menos favoritos. Tirar ritmo à contenda, criar disrupção, aumentar as dúvidas do gigante em crise. Deu resultado. Ao intervalo, a mannschaft não contava qualquer oportunidade de golo, o seu jogo cheio de bola (apenas 25% para os sul-americanos) e nulo em chances para o 1-0.
Os tetracampeões batiam uma e outra vez no muro. Gustavo Gómez e José Canale formam uma dupla de centrais vinda dos anos 80, que quer ter pouco a bola e bater muito nos avançados e iam desfrutando da insistência sem prémio dos europeus. Num desempate por penáltis com cinco remates que não foram convertidos em golo, nenhum dos dois desperdiçou.
O Paraguai até chegou aos quartos de final do Mundial 2010, mas jamais apontara um golo numa fase a eliminar da prova. Sem os alemães conseguirem alterar a sua velocidade de cruzeiro, o momento histórico chegaria aos 42', um golo de sorriso irónico, maléfico. Almirón tricotou a jogada, Galarza cruzou atrasado e Julián Enciso, o mais baixo em campo (1,73 metros) cabeceou. A segunda parte chegaria com a certeza de que, para evitar a surpresa, os favoritos teriam de fazer bem mais e melhor.
Além do bloco defensivo, as esperanças paraguaias residiam em Almirón e Enciso, os talentosos disponíveis. No recomeço, Enciso esteve quase a dar nova machadada nas esperanças do opositor, mas, na sequência de erro de Kimmich, não logrou superar Neuer.
Nagelsmann lançou Goretzka para assumir a nobre e clássica função de Marouane Fellaini, o médio que não joga como médio e serve para carregar a área. Foi beneficiando dessa nova presença perto da zona de penálti que chegou o 1-1. Wirtz cruzou e Kai Havertz, exímio de cabeça, penteou a bola, tirando-a do alcance de Gill para a igualdade. Apesar do domínio, era, aos 54', o primeiro remate da mannschaft à baliza. Faria apenas seis, na sequência de mais de duas horas de futebol.
Enciso aponta o 1-0
Darrian Traynor
Enciso aponta o 1-0
Darrian Traynor
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O pedido popular para colocar Deniz Undav a titular foi correspondido por Nagelsmann. Só que o atacante, autor de três golos e duas assistências nas duas primeiras jornadas da fase de grupos comosuplente, não correspondeu à aposta. Musiala, que rendeu o homem do Estugarda aos 63', não fez muito melhor, os efeitos daquela maldita lesão ainda sentindo-se, um corpo já não tão ágil, as pernas não correspondendo ao que o cérebro pedia, como se vindo do filme “Space Jam”, os seus poderes fugindo de si. Veria um amarelo, frustrado com a agressividade alheia.
Outra figura intrigante aqui é Leroy Sané. Longe dos tempos áureos, vai mantendo a titularidade, apesar de jogar como se espera que joga uma antiga estrela da Premier League que já rumou à via turca. Tentou sete dribles, teve êxito em zero. Fez oito cruzamentos, zero encontraram um companheiro. Disputou nove duelos, venceu um.
O 1-1 não alterou a aposta do Paraguai. O golo não embalou a Alemanha. A tarde ia avançando em Boston, surgiam algumas sombras, o mundo avançava, a partida não. Chegou o primeiro prolongamento do Mundial.
Sem Almirón, sem Enciso e com cansaço, a equipa de Alfaro deixou, praticamente, de sair da toca. Do outro lado a aposta residia, em grande parte, na força aérea, juntando Havertz, Tah, Rüdiger, Woltemade, Anton e Goretzka, todos com 1,89 metros para cima. Foi assim que, aos 103', Tah apontou o que seria o 2-1, antes de o VAR entrar em ação e descobrir uma alegada falta de Anton sobre o guarda-redes.
O prolongamento não modificou o marcador. Quando o árbitro apitou para dar fim ao tempo extrar e abrir lugar aos penáltis, o banco do Paraguai festejou, como se a missão estivesse cumprida. Ouvia-se Guns N Roses em Foxborough, perto de Boston, a terra dos Aerosmith. Seria o Paraguai a entrar na sua Paradise City. A Alemanha acentua uma crise de resultados, de jogo, psicológica, de identidade.