Casemiro festeja com Bruno Guimarães um dos dois golos do Brasil em Houston
Michael Regan - FIFA
Depois de uma 1ª parte em que o Japão juntou a disciplina à astúcia, colocando-se em vantagem, o Brasil reagiu após o intervalo, com dedo de Ancelotti, mudando a abordagem tática e encostando os nipónicos às cordas. A reviravolta chegou já nos descontos, mas foi um prémio para uma equipa que se soube reinventar e está, assim, nos oitavos de final do Mundial
Zico, lenda do Brasil e figura essencial no crescimento do futebol japonês dos anos 90 para cá, tinha uma queixa sobre os futebolistas que havia encontrado no Extremo Oriente. Rápidos, de grande técnica e disciplina, faltava aos nipónicos a “malícia” dizia ele, o jeitinho brasileiro, as pequenas manhas que também fazem o futebol, que permitem mais um drible, mais um lance individual polvilhado de magia, até o pequeno engano. Havia demasiado respeito, demasiada inocência - não se tira a cultura do corpo de um homem assim de repente.
Mas o Brasil, Zico e outros que se seguiram, deixaram um pouco da sua marca. O Japão continua a ser um padrão de disciplina, mas terminou a reverência - à sua maneira, o Japão criou a sua própria malícia. E enquanto ela durou, o Brasil viu o seu futuro em tons bem escuros neste Mundial. Foi preciso mão de banco, de Ancelotti, um gestor de homens mas também um estratega, para limpar a malícia recém-aprendida da cara do adversário.
O Brasil está nos oitavos de final do Mundial, com uma vitória (2-1) merecida pela reação na 2ª parte, após um primeiro tempo em que a canarinha se viu enredada pela teia defensiva do Japão, à qual juntou uma espécie de seppuku a meio-campo que valeu um primeiro golo cheio de astúcia à seleção asiática. À meia-hora de jogo, um passe lateral imaturo de um tão experiente Danilo foi adivinhado pela perspicácia de Kaishu Sano, que correu desde o meio-campo até à entrada da área antes de desferir um remate rasteiro e colocado, que entrou bem junto ao poste direito da baliza de Alisson. Amarelado, Casemiro, com uma terrível 1ª parte, não foi grande oposição para o médio do Mainz.
Kaishu Sano festeja após remate certeiro na baliza do Brasil
Molly Darlington
Até aí, e depois daí também, até ao final da 1ª parte, o Brasil tinha tentado, com pouco sucesso, desposicionar o bloco defensivo japonês. A seleção nipónica pode ter malícia, mas continua capaz dos mais masoquistas exercícios de disciplina: as duas primeiras linhas raramente deram espaços a Vinícius Jr. ou Rayan, amarrados entre camisolas hoje brancas do 5-4-1 japonês.
Pouco depois do golo do Japão, a frustração de Lucas Paquetá, a gesticular em desespero por não encontrar um espaço ou uma linha de passe retratavam bem as dificuldades do escrete. E seria a saída do médio do Flamengo um dos gatilhos para a cambalhota que o jogo teve na 2ª parte.
Paquetá, também com problemas físicos, ficou no balneário na 2ª parte, com Carlo Ancelotti a fazer a vontade ao povo brasileiro, lançando Endrick e terminando com vagas e vagas de memes criados para criticar a aparente falta de gosto do italiano pelo miúdo do Lyon. Endrick entrou bem, entre as linhas japonesas, mas não passaria só por ele a mudança: Vini Jr. e Rayan foram para terrenos mais exteriores e foi através de cruzamentos que o Brasil começou a empurrar o Japão para junto da sua baliza.
Por incrível que pareça, isto não deu golo de Vinicius Jr.
Molly Darlington
A malícia dava sinais de quebra, o Japão voltava a velhos hábitos. Terá respeitado em demasia a reação brasileira? Talvez. Mas a entrada na 2ª parte do Brasil foi também um martírio para o físico dos asiáticos, que foram perdendo a capacidade de se organizar.
O pote de ouro, descobriu rápido o Brasil, estava no segundo poste da baliza de Zion Suzuki. Bruno Guimarães testou uma primeira vez o guardião japonês, num cabeceamento que saiu pouco laterializado e, por isso, fácil de apanhar. Já o que se seguiu, dois minutos depois, foi matéria de milagre: Rayan cruzou para o segundo poste, Douglas Santos estava lá para um primeiro toque e a entrada com tudo de Casemiro esbarrou no corpo de Tomiyasu.
Poderia ser um sina, mas acabou por ser um prenúncio. Mais uns minutos e novo cruzamento para o segundo poste, agora de Gabriel Magalhães, foi ter a cabeça de Casemiro, lá bem no alto depois de uma impulsão em busca da estratosfera. Depois de uma primeira parte péssima, o golo esmorecia as críticas, ainda que não as limpe.
Casemiro salta mais alto que todos e marca ao Japão
Chris Brunskill/Fantasista
Estávamos ainda dentro dos 50 minutos e o Brasil vivia o seu período mais intenso no jogo. Vini Jr., a bailar na cara dos adversários mais junto à linha, esteve próximo de marcar o golo deste Mundial: recebeu, fez um túnel a Tomiyasu com um toque subtil, partindo depois para uma série de dribles antes de cutucar a bola com o pé direito para o poste mais afastado de Suzuki que, de forma heroica, evitou um prémio Puskas em curso.
Do Japão já se via apenas sobrevivência e pouco discernimento na hora de atacar, numa fase em que o jogo podia perfeitamente ter partido, tal o espaço que existia. Hajime Moriyasu, selecionador japonês, rejeitou a malícia, buscou agarrar o empate. As alterações serviram apenas para tentar refrescar a defesa e o destino não lhe perdoou o recuo.
Já com o relógio bem para lá dos 90’, e num lance que começou na pressão de Endrick, Bruno Guimarães teve ainda a lucidez de, na meia-lua, fugir do instinto de rematar à baliza, encontrando, ao invés, uma linha de passe curta para Gabriel Martinelli entre os centrais japoneses. O jogador do Arsenal recebeu com o esquerdo e rematou com o direito, consumando uma reviravolta que o Brasil fez por merecer. E evitando o prolongamento que já se adivinhava.
Tantas vezes apelidado apenas como um gestor de balneário, este triunfo brasileiro tem a cabeça e a paciência de Carlo Ancelotti gravado. O próximo adversário é a Noruega ou a Costa do Marfim.
Este Brasil não é uma máquina, mas sabe reinventar-se em pleno jogo. E foi recuperar a sua malícia que Zico deixou no Japão.