• Suécia
    18:0020 JUN
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    Grupo F
  • Mundial 2026

    O Brasil limpou a malícia da cara do Japão

    Casemiro festeja com Bruno Guimarães um dos dois golos do Brasil em Houston
    Casemiro festeja com Bruno Guimarães um dos dois golos do Brasil em Houston
    Michael Regan - FIFA

    Depois de uma 1ª parte em que o Japão juntou a disciplina à astúcia, colocando-se em vantagem, o Brasil reagiu após o intervalo, com dedo de Ancelotti, mudando a abordagem tática e encostando os nipónicos às cordas. A reviravolta chegou já nos descontos, mas foi um prémio para uma equipa que se soube reinventar e está, assim, nos oitavos de final do Mundial

    Zico, lenda do Brasil e figura essencial no crescimento do futebol japonês dos anos 90 para cá, tinha uma queixa sobre os futebolistas que havia encontrado no Extremo Oriente. Rápidos, de grande técnica e disciplina, faltava aos nipónicos a “malícia” dizia ele, o jeitinho brasileiro, as pequenas manhas que também fazem o futebol, que permitem mais um drible, mais um lance individual polvilhado de magia, até o pequeno engano. Havia demasiado respeito, demasiada inocência - não se tira a cultura do corpo de um homem assim de repente.

    Mas o Brasil, Zico e outros que se seguiram, deixaram um pouco da sua marca. O Japão continua a ser um padrão de disciplina, mas terminou a reverência - à sua maneira, o Japão criou a sua própria malícia. E enquanto ela durou, o Brasil viu o seu futuro em tons bem escuros neste Mundial. Foi preciso mão de banco, de Ancelotti, um gestor de homens mas também um estratega, para limpar a malícia recém-aprendida da cara do adversário.

    O Brasil está nos oitavos de final do Mundial, com uma vitória (2-1) merecida pela reação na 2ª parte, após um primeiro tempo em que a canarinha se viu enredada pela teia defensiva do Japão, à qual juntou uma espécie de seppuku a meio-campo que valeu um primeiro golo cheio de astúcia à seleção asiática. À meia-hora de jogo, um passe lateral imaturo de um tão experiente Danilo foi adivinhado pela perspicácia de Kaishu Sano, que correu desde o meio-campo até à entrada da área antes de desferir um remate rasteiro e colocado, que entrou bem junto ao poste direito da baliza de Alisson. Amarelado, Casemiro, com uma terrível 1ª parte, não foi grande oposição para o médio do Mainz.

    Kaishu Sano festeja após remate certeiro na baliza do Brasil
    Molly Darlington

    Até aí, e depois daí também, até ao final da 1ª parte, o Brasil tinha tentado, com pouco sucesso, desposicionar o bloco defensivo japonês. A seleção nipónica pode ter malícia, mas continua capaz dos mais masoquistas exercícios de disciplina: as duas primeiras linhas raramente deram espaços a Vinícius Jr. ou Rayan, amarrados entre camisolas hoje brancas do 5-4-1 japonês.

    Pouco depois do golo do Japão, a frustração de Lucas Paquetá, a gesticular em desespero por não encontrar um espaço ou uma linha de passe retratavam bem as dificuldades do escrete. E seria a saída do médio do Flamengo um dos gatilhos para a cambalhota que o jogo teve na 2ª parte.

    Paquetá, também com problemas físicos, ficou no balneário na 2ª parte, com Carlo Ancelotti a fazer a vontade ao povo brasileiro, lançando Endrick e terminando com vagas e vagas de memes criados para criticar a aparente falta de gosto do italiano pelo miúdo do Lyon. Endrick entrou bem, entre as linhas japonesas, mas não passaria só por ele a mudança: Vini Jr. e Rayan foram para terrenos mais exteriores e foi através de cruzamentos que o Brasil começou a empurrar o Japão para junto da sua baliza.

    Por incrível que pareça, isto não deu golo de Vinicius Jr.
    Molly Darlington

    A malícia dava sinais de quebra, o Japão voltava a velhos hábitos. Terá respeitado em demasia a reação brasileira? Talvez. Mas a entrada na 2ª parte do Brasil foi também um martírio para o físico dos asiáticos, que foram perdendo a capacidade de se organizar.

    O pote de ouro, descobriu rápido o Brasil, estava no segundo poste da baliza de Zion Suzuki. Bruno Guimarães testou uma primeira vez o guardião japonês, num cabeceamento que saiu pouco laterializado e, por isso, fácil de apanhar. Já o que se seguiu, dois minutos depois, foi matéria de milagre: Rayan cruzou para o segundo poste, Douglas Santos estava lá para um primeiro toque e a entrada com tudo de Casemiro esbarrou no corpo de Tomiyasu.

    Poderia ser um sina, mas acabou por ser um prenúncio. Mais uns minutos e novo cruzamento para o segundo poste, agora de Gabriel Magalhães, foi ter a cabeça de Casemiro, lá bem no alto depois de uma impulsão em busca da estratosfera. Depois de uma primeira parte péssima, o golo esmorecia as críticas, ainda que não as limpe.

    Casemiro salta mais alto que todos e marca ao Japão
    Chris Brunskill/Fantasista

    Estávamos ainda dentro dos 50 minutos e o Brasil vivia o seu período mais intenso no jogo. Vini Jr., a bailar na cara dos adversários mais junto à linha, esteve próximo de marcar o golo deste Mundial: recebeu, fez um túnel a Tomiyasu com um toque subtil, partindo depois para uma série de dribles antes de cutucar a bola com o pé direito para o poste mais afastado de Suzuki que, de forma heroica, evitou um prémio Puskas em curso.

    Do Japão já se via apenas sobrevivência e pouco discernimento na hora de atacar, numa fase em que o jogo podia perfeitamente ter partido, tal o espaço que existia. Hajime Moriyasu, selecionador japonês, rejeitou a malícia, buscou agarrar o empate. As alterações serviram apenas para tentar refrescar a defesa e o destino não lhe perdoou o recuo.

    Já com o relógio bem para lá dos 90’, e num lance que começou na pressão de Endrick, Bruno Guimarães teve ainda a lucidez de, na meia-lua, fugir do instinto de rematar à baliza, encontrando, ao invés, uma linha de passe curta para Gabriel Martinelli entre os centrais japoneses. O jogador do Arsenal recebeu com o esquerdo e rematou com o direito, consumando uma reviravolta que o Brasil fez por merecer. E evitando o prolongamento que já se adivinhava.

    Tantas vezes apelidado apenas como um gestor de balneário, este triunfo brasileiro tem a cabeça e a paciência de Carlo Ancelotti gravado. O próximo adversário é a Noruega ou a Costa do Marfim.

    Este Brasil não é uma máquina, mas sabe reinventar-se em pleno jogo. E foi recuperar a sua malícia que Zico deixou no Japão.

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