Um golo que nunca foi só um golo: depois da dor da perda dos pais, Stephen Eustáquio tornou-se herói do Canadá
Stephen Eustáquio festeja a vitória sobre a África do Sul, com um golo seu
Robert Gauthier
O Canadá está nos oitavos de final do Mundial pela primeira vez na sua história, com um golo marcado por Stephen Eustáquio, que em fevereiro deste ano foi emprestado pelo FC Porto aos Los Angeles FC. Aos 29 anos e com uma história de vida sinuosa, já com muitas perdas, o luso-canadiano tornou-se figura principal do feito inédito do país onde nasceu
Quando a bola saiu do pé direito de Stephen Eustáquio, já para lá dos 90 minutos, o Canadá encontrou os oitavos de final do Mundial pela primeira vez na sua história. Mas aquele remate seco e certeiro transportava muito mais do que uma equipa para a fase seguinte. Parecia carregar consigo dois anos de dor, de silêncio e de uma luta travada longe dos relvados.
A prova disso é que, no final do jogo, ainda com a respiração presa ao esforço, Eustáquio não falou apenas de futebol. “Tudo o que faço é pela minha família, pelos meus pais, pela minha namorada, pela minha filha. Pelos meus amigos lá em casa. Por toda a gente”, disse, ainda no relvado, depois de ser eleito o melhor em campo. Era impossível não perceber que aquele golo tinha destinatários muito concretos.
Entre abril de 2023 e maio de 2024, quando representava o FC Porto, Stephen Eustáquio perdeu a mãe e o pai. Duas perdas devastadoras, demasiado próximas uma da outra. Durante meses, continuou a jogar quase como quem funciona em piloto automático. “Nem tive tempo de chorar a minha mãe”, confessou num documentário do canal canadiano TSN. O futebol não parava, os jogos sucediam-se e o luto era constantemente adiado. Mais tarde, recordaria também que, quando a mãe foi diagnosticada com cancro, chegou a questionar o sentido de continuar a jogar futebol, precisamente quando sentia que devia estar ao lado dela.
Filho de emigrantes portugueses, Stephen nasceu em Leamington, Ontario, no Canadá, mas cresceu em Portugal a partir dos 7 anos, depois do regresso da família à Nazaré. É nesse território de transição, entre países, línguas e identidades, que se forma o jogador e a pessoa.
A mãe no centro de tudo
No referido documentário dedicado ao médio canadiano, há um retrato repetido da vida doméstica como estrutura do percurso. Esmeralda e Armando Eustáquio surgem como pilares discretos: ela, na logística diária, nos treinos, nas esperas dentro do carro; ele, no trabalho no mar, na ideia de esforço como condição permanente. O futebol, nesse contexto, nunca foi projeto individual, foi sempre uma construção partilhada. Também o irmão mais velho, Mauro, fez esse caminho, primeiro como jogador e depois como treinador no Canadá.
“Era a minha mãe que estava sempre a assistir aos jogos, a levar-me aos treinos, a mim e ao meu irmão. Ela apoiava-me imenso. Não percebia de futebol, mas estava sempre presente. Muito apaixonada. Muito compreensiva. Muito solidária. E simplesmente… uma verdadeira amiga. Acho que a minha mãe nem sequer fazia uma refeição em casa. Era sempre: ‘Pronto, vamos viajar para aqui, vamos viajar para ali’“, revelou o capitão da seleção canadiana.
Stephen Eustáquio festeja o golo que marcou e que colocou o Canadá nos oitavos de final do Mundila 2026
Fran Santiago
Em Portugal, Eustáquio percorreu o trajeto típico de quem não entra pela porta principal. Passou pela formação, incluindo uma passagem pelo Sporting, e depois pelo futebol sénior onde nada é garantido: Leixões, Torreense, Desportivo de Chaves. Foi em Chaves que começou a afirmar-se de forma mais consistente, ganhando visibilidade e maturidade competitiva.
Em 2018 foi contratado pelo Cruz Azul, do México, e chegou às seleções jovens de Portugal, representando os sub-21, mas a seleção principal nunca se concretizou. Ao serviço dos “Los cementeros” fez apenas dois jogos: no segundo, uma rotura do ligamento cruzado anterior do joelho esquerdo interrompeu-lhe a carreira. Foi uma pausa forçada num tempo em que tudo apontava para aceleração. O impacto foi brutal, não apenas físico, mas existencial.
A recuperação foi longa, lenta, cheia de dúvidas. Eustáquio contou que, naquela altura, sentiu que a carreira podia ter ficado ali mesmo, naquele relvado, naquele instante. O joelho não respondia, o corpo parecia ter envelhecido de repente e a cabeça lutava contra a ideia de que o futebol podia não lhe devolver o que lhe tinha tirado. Acabou por regressar ao campeonato português, primeiro no Paços de Ferreira, depois saltou para o FC Porto.
Após os oito meses de recuperação, Stephen viu-se perante uma grande decisão. “Recebi uma chamada do John Herdman [então selecionador canadiano] a dizer: ‘Sabes, queremos-te aqui connosco. Podes esperar por uma oportunidade que talvez nunca surja com Portugal, ou podes abraçar esta experiência na seleção do Canadá e chegar mesmo ao Mundial’.” A decisão foi tomada em família. “Sinto que os 7 anos que vivi no Canadá foram muito bons, e a única forma de retribuir ao Canadá era jogando por eles”, assumiu à TSN, lembrando as palavras da mãe: “Não olhes para trás, vai, e nós estaremos sempre aqui para ti.”
Dois anos escuros com uma luz pelo meio
Quando em agosto de 2022, já então jogador do FC Porto, soube que a mãe sofria de cancro no cérebro, sentiu o chão a fugir-lhe debaixo dos pés. Preparava-se para disputar o Mundial do Catar, competição que Esmeralda também ansiava, para finalmente poder ver o filho a jogar pela seleção do Canadá. Nunca aconteceu. “A minha mãe era a pessoa mais especial. Se as pessoas me conhecem, conhecem-na a ela, porque sou um espelho. Ela era a melhor mãe, para ser sincero”.
Um ano após a devastadora perda, Stephen recebeu uma nova luz na sua vida ao ser pai, em abril de 2024, de Benedita, que segundo o próprio, tem muitas semelhanças com Esmeralda. Mas, um mês depois, o destino voltou a meter-lhe a cabeça debaixo de água. Um ataque cardíaco levou-lhe o pai, assim, de repente.
Só Stephen sabe a que lugar foi buscar as forças que nunca o abandonaram nos momentos mais duros da sua vida. O futebol, pelo meio, foi-lhe dando algumas alegrias e quem sabe também alguma da força que sempre evidenciou. Nos anos que jogou no FC Porto, ajudou o clube a vencer dois campeonatos nacionais e seis taças, em 4 anos.
No início de 2026 foi emprestado aos norte-americanos do LAFC e afirmou sem rodeios: “Não tive amargura de não acabar a época porque o meu tempo com o FC Porto foi espetacular. Estive lá quatro anos, cinco épocas. Este foi o meu oitavo título conquistado, tive oportunidade de ganhar as taças todas, de ganhar o campeonato, jogar Champions, jogar Liga Europa. Chegou o momento em que disse que se a minha carreira no FC Porto terminasse ali, saía feliz. E tinha de olhar para mim, com o Mundial a chegar”.
O Mundial chegou e o nº 7 e capitão dos canadianos mostrou mais uma vez de que massa é feito. O golo que colocou o Canadá nos oitavos de final vale mais do que uma qualificação histórica. Mudou, por segundos, o peso com que Stephen Eustáquio carrega a própria história e reencontrou um instante de felicidade. As palavras do selecionador canadiano Jesse Marsch no final do jogo com a África do Sul, são mais uma prova disso: “Não consigo pensar em ninguém mais merecedor num grupo de pessoas incríveis. Talvez o Steph seja quem mais merece viver um momento como aquele. Por isso, estou muito feliz por ele, e acho que, de algum lugar, os pais dele estão a olhar para baixo e viram isso.”
Com mais uma época de ligação contratual ao FC Porto, o futuro de Stephen Eustáquio, de 29 anos, continua em aberto.