• Suécia
    18:0020 JUN
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    Grupo F
  • Mundial 2026

    A Costa do Marfim remou toda junta, mas a Noruega remou mais vezes para dentro da baliza

    Haaland depois do 2-1 que deu à Noruega a passagem aos oitavos de final do Mundial
    Haaland depois do 2-1 que deu à Noruega a passagem aos oitavos de final do Mundial
    Tullio Puglia - FIFA

    Coletivamente, o jogo foi dos marfinenses, mas o duelo com a Noruega acabaria definido por uns quantos momentos de inspiração individual, uma pequena traição ao espírito viking que anda a remar pela América do Norte. Em Dallas, os nórdicos venceram por 2-1 e seguem para os oitavos de final, onde vão jogar com o Brasil

    Daqui a muitos, muitos anos, quando formos chamados a recorrer às memórias sobre este Mundial 2026, recordaremos alguns jogos, o campeão, claro, várias estrelas, umas quantas exibições individuais. E, da mesma forma como nos lembramos ainda hoje da Jabulani, também nos vamos lembrar dos adeptos da Noruega e da sua remada simétrica, ritmada, nas bancadas, nas ruas, no metro, onde seja, é uma questão de imagem cultural.

    Este ritual viking tem uma certa conexão ao fenómeno dos desportos coletivos: todos a remar para o mesmo lado é metáfora que nasceu de algum lado e um barco anda mais rápido se o esforço for de todos. Em Dallas, a Noruega não traiu exatamente os seus antepassados, mas se houve equipa unida num esforço comum, essa equipa foi a Costa do Marfim. Ainda assim, a Noruega, conhecedora de como se leva um barco a bom porto, marcou mais que a equipa africana e está nos oitavos de final do Mundial, onde vai, agora, encontrar o Brasil.

    Não faltam exemplos que calem o verbo a Aleksander Čeferin, que se queixou que o alargamento a equipas de África e Ásia atulharia o Mundial de jogos “desinteressantes”. A Costa do Marfim enriqueceu, até ao fim, este Campeonato do Mundo, mais do que muitas seleções europeias. Não será o caso da Noruega, equipa com porte e talento, e um extraterrestre lá na frente. As duas equipas quiseram ter bola e o jogo foi quase sempre emotivo e interessante.

    As dificuldades de Haaland na área da Costa do Marfim
    MB Media

    Mas foi dos africanos a maior iniciativa coletiva, a pegarem no jogo depois de uma entrada forte da Noruega, que logo aos 3 minutos conseguiu colocar uma bola na cabeça de Haaland que, a partir daí, e até tarde no jogo, andou desaparecido, muito graças à qualidade do processo defensivo de Emerse Faé.

    Com Diomande e Pépé a fazerem funcionar as alas e o menino Christ Oulaï a rodar o meio-campo, a Costa do Marfim ia aparecendo com alguma facilidade em zonas de definição, ainda que sem perigo iminente. Konan, jogador do Gil Vicente, esteve lá perto, depois de uma combinação com Yan Diomande na esquerda, Pépé, do outro lado, também, num cruzamento que talvez fosse uma tentativa de remate.

    É claro que o futebol não é apenas um grupo de onze rapazes a remar em direção ao mesmo objetivo, uma das suas belezas são os rebeldes que confrontam as estatísticas, as probabilidades. E com muito pouco criado até então, a Noruega colocou-se na frente aos 39’, num lance individual de Antonio Nusa, a driblar Pépé antes de rematar em arco bem ao ângulo da baliza de Fofana. Um momento de inspiração extraordinário, que quase tinha continuidade nas jogadas seguintes, quando Haaland desviou para a baliza após serviço de Sorloth nas alturas, com Sangaré a cortar no momento oportuno.~

    Antonio Nusa festeja após um lance de inspiração frente à Costa do Marfim
    Michael Regan - FIFA

    Na 2ª parte, a Noruega uniu mais as suas linhas defensivas e recuou ainda mais, Haaland passou a ser um defensor de luxo nas bolas paradas, já que do outro lado a bola pouco lhe chegava - um futebolista deve sempre fazer-se útil.

    A entrada de Diallo deu uma nova dimensão ao ataque dos africanos, mas foi até na sua baliza que teve o primeiro momento decisivo no jogo, ao afastar da linha de golo um remate de Heggem. Minutos depois, teve também ele o seu momento individual, já que o coletivo estava com dificuldades em remar para o golo: combinou com Pépé na meia direita, fintou um adversário, puxou para dentro, num movimento que no basquetebol seria um euro step, e fez um empate que a Costa do Marfim fez por merecer.

    Num jogo em que ambas as equipas evitaram a especulação, procurando, essencialmente, ganhar, Stale Solbakken lançou Oscar Bobb e Schjelderup, mais dois homens-talento que tinha no banco. A Costa do Marfim recuava, mas o físico já dava de si, os sentidos não eram os mesmos, depois de tanto esforço para chegar ao empate.

    Diallo a fazer o empate em Dallas
    Julian Finney - FIFA

    Quando já se pensava em prolongamento, Bobb, que chegou a estar na formação do FC Porto, viu uma aberta, um raro pedaço de imobiliário entre os defesas marfinenses e foi nesse espaço que entrou um passe açucarado, em busca do inevitável. Berg estava lá para cruzar a bola para a pequena área, onde Haaland a esperava. O avançado do City nem sequer deu bem na bola, mas ela, de tão habituada, parecia até já saber o caminho. Diallo quase marcava nos descontos num livre direto desde a sua casa, mas a vitória seria mesmo para os nórdicos remadores.

    Não se pode dizer que a Noruega não mereça os oitavos depois de uma longa ausência, desde 1998. Mas o Mundial 2026 vai perder sem a Costa do Marfim, sem o seu jogo sem preconceitos, que quase travava a Alemanha e por pouco não tirava Haaland do torneio. Ficam as revelações Christ Oulaï e Yan Diomande, talvez uma nova vida para Nicolas Pépé. No final, até pode tudo ficar na mesma, mas Čeferin deve estar a engolir em seco.

    Tem alguma questão? Envie um email ao jornalista: lpgomes@expresso.impresa.pt