Quando Portugal pisar Toronto para defrontar a Croácia no Mundial de 2026, a seleção nacional não estará a escrever uma página inédita na história da cidade. Há quase 50 anos, num cenário improvável e quase esquecido, um português vestiu as cores de um clube com “Croácia“ no nome e contribuiu para que este chegasse ao título mais importante da sua curta história. Chamava-se Eusébio, e a aventura aconteceu a milhares de quilómetros do Estádio da Luz, longe dos holofotes europeus, numa liga norte-americana que vivia entre o glamour e a bancarrota.
Corria o ano de 1975 e Eusébio, já com 33 anos e os joelhos a pedirem descanso, alinhava pelo Boston Minutemen, da North American Soccer League (NASL), um clube praticamente falido, com jogadores a correr para descontar os cheques antes que o dinheiro se esgotasse. Em paralelo, disputou dez jogos pelo Monterrey na liga mexicana, numa tentativa de manter o ritmo competitivo.
Foi nesse contexto de desespero financeiro que Eusébio teve uma ideia tão simples quanto eficaz: pediu ao guarda-redes Shep Messing que se fizesse passar por seu empresário e começasse a telefonar a outros clubes da NASL, à procura de uma saída. A chamada certa acabou por cair em Toronto, numa equipa com um nome pouco habitual para os padrões da NASL: o Metros-Croatia, fruto da fusão entre o Toronto Metros e o Toronto Croatia, um clube sustentado pela comunidade croata da cidade, mal visto pela própria liga por causa do nome “étnico“ e a viver, em boa parte, de coletas feitas à porta de uma igreja. Dirigentes da NASL chegaram a pressionar a televisão a referir-se ao clube apenas como “Toronto“ nas transmissões, e o presidente dos Cosmos, Clive Toye, propôs mesmo banir nomes ligados a etnias da competição.
“O Terrível“ e a “Pantera Negra”
A chegada de Eusébio a Toronto não foi isenta de atritos. O treinador Ivan Markovic, conhecido como “o Terrível“, chegou a deixá-lo no banco num jogo em casa frente aos Cosmos de Pelé, a 7 de julho de 1976. Os Metros-Croatia perderam 3-0 e a derrota precipitou a saída do técnico. Com Domagoj Kapetanovic ao leme e a braçadeira de capitão devolvida ao “Pantera Negra“, tudo mudou: o português, apesar das dores crónicas no joelho, terminou a época como líder de golos da equipa, arrastando um clube que ninguém via como candidato ao título.
A 28 de agosto de 1976, no Kingdome de Seattle, diante de 25.765 espectadores, Eusébio abriu o marcador com um livre direto que deixou o guarda-redes Geoff Barnett sem qualquer hipótese de resposta. Ivan Lukačević e o brasileiro Ivair Ferreira fecharam a contagem - o Toronto Metros-Croatia venceu o Minnesota Kicks por 3-0, conquistando o primeiro título norte-americano da história de uma equipa canadiana.
Em 2014, um cronista do “Toronto Star“ não hesita em chamar a esta passagem uma simples “nota de rodapé“ na carreira global de Eusébio. Mas é também ele quem reconhece que, apesar de já lesionado e longe do seu auge, Eusébio continuava a ser “o melhor atleta profissional de sempre“ a representar a cidade canadiana. Sublinhe-se que foi dele o golo inaugural que abriu caminho ao Toronto Metros-Croatia para o título da NASL, a única conquista relevante da história do clube.
Meio século depois, Toronto volta a juntar Portugal e o nome Croácia, desta vez não numa camisola partilhada, mas em lados opostos do relvado. A cidade que assistiu, sem grande alarido, ao epílogo improvável da carreira de um dos maiores jogadores da história do futebol português vai agora ser palco de um confronto direto entre as duas seleções. O historial favorece claramente Portugal: em 10 confrontos entre as duas seleções, os portugueses venceram sete, empataram dois e perderam apenas um. Vamos ver se a história voltará a seguir esse guião e será Portugal a escrever o capítulo feliz.
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