• Suécia
    18:0020 JUN
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    Grupo F
  • Mundial 2026

    Portugal continuou no Mundial com uma cara bonita. Não deslumbrante, mas bonita

    Gonçalo Ramos engolido pelos restantes jogadores portugueses durante os festejos do seu golo, que pôs Portugal nos oitavos de final do Mundial
    Gonçalo Ramos engolido pelos restantes jogadores portugueses durante os festejos do seu golo, que pôs Portugal nos oitavos de final do Mundial
    Patrick Smith - FIFA

    A seleção começou agressiva a atacar e a pressionar, encostando a Croácia lá atrás. Só que a segunda parte fez Portugal voltar aos seus vícios e sofrer (bastante) com os ajustes dos balcânicos, que marcaram primeiro e podiam ter marcado mais vezes enquanto Roberto Martínez, vendo os portugueses desordenados, não corrigiu. Quando o fez, apareceu o golo que valeu a vitória (2-1) e os oitavos de final do Campeonato do Mundo. Veio da cabeça de Gonçalo Ramos, já nos descontos, quando Ronaldo já não estava em campo. A próxima adversária é a Espanha

    Portugal continuou no Mundial com uma cara bonita. Não deslumbrante, mas bonita

    Diogo Pombo

    em Toronto, no Mundial 2026

    Não foi hoje, foi ontem, a seleção pousou em Toronto e um maralhal de gente doida, empanturrada em emoção, encafuou uma auto-estrada e barrou faixas com os carros para acenar ao autocarro. Tanto cismam as pessoas com o futebol que depois dá nisso, mas cismam com muita coisa. Calhou Portugal aterrar cá no Dia do Canadá e pela noite, tradição do feriado, houve um fogo-de-artifício sobre o Lago Ontario, aonde a romagem de povo se dirigiu. Apinhada a beira-água, foi um exercício útil, apesar de contra-intuitivo, virar costas ao céu e olhar para as caras: estavam maravilhavadas com o espetáculo.

    Também colado ao lago, seria um elogio à seleção nacional se dentro do estádio de Toronto construído só para futebol, com as suas bancadas empinadas sobre o relvado, durante o jogo com a Croácia houvesse queixos caídos, pupilas bem abertas, deslumbramento nas feições de quem estivesse cá a ver. Esgares houve de tal no arranque, quando Nuno Mendes rasgou com um passe o espaço entre Josip Stanišić e o central mais perto, puxando da corrida de Rafael Leão. O seu cruzamento rasteiro, rematado na passada por Bruno Fernandes, sacou de Dominik Livaković uma senhora defesa a abrir.

    Um par de minutos tardou para os mesmos tipos recriarem a tentativa. Leão cruzou, desta feita por alto, a sua bola quase aterrou na cabeça de Bruno, repetente de um sinal: as chegadas ao quintal da Croácia, com jogadores vindos de trás, agressivos a entrar na área em vez de lá estarem já à espera da bola, eram o truque para incomodar. Vivaços, com o sol ainda a iluminá-los, os portugueses apareciam agressivos no jogo, não moles nem passivos ou expectantes. Mostraram querer, quiseram mais, foram 15 minutos a ferrar o pé.

    A Croácia defendeu-se na sua metade, encolhida, e Portugal começava a defender no meio-campo dos croatas, com referências ao homem para limitar a influência de Luka Modrić e Mateo Kovačić, as bússolas dos balcânicos em qualquer jogada. O desconforto na partida era deles, presos em poucos metros de relva, abafada a sua equipa pela reação forte da seleção nacional quando perdia a bola. Num canto, livre de vigilância, Renato Veiga cabeceou o que foi uma perdida flagrante, da qual ainda se vesgastava durante a pausa de hidratação, fazendo gestos com a cabeça. Até aí o jogo de Portugal não ia ao ponto de deslumbrar, mas era bom de se ver.

    A vontade em ser protagonista, com incisão, sempre o é.

    João Cancelo a vigiar Luka Modrić de perto
    MIGUEL A. LOPES

    Refeita da interrupção, a Croácia ainda rondou a baliza de Diogo Costa, tentou pela esquerda, o cruzamento porém um nada. O seu jogo manteve a rotina de os centrais, quase sempre Marin Pongračić, procurarem Ante Budimir e os seus 1,90 metros com passes diretos, para tentar segurar a bola e os restantes ganharem metros. Nada lucrou além de um cartão amarelo mostrado a Rúben Dias, por uma cotovelada excessiva. Os jogadores sem o xadrez vermelho e branco da sua bandeira, vestidos de azul desta vez, tão pouco tinham a bola que gostam de mastigar para manter o jogo a um ritmo de meditação.

    A sua primeira saída de trás com sucesso, a ligar passes curtos pelos três quartos do campo - desbloqueada por uma condução de bola na própria área, arriscada, de Pongračić -, aconteceu já para lá dos 40 minutos. A pressão portuguesa resultava. O seu uso da bola, contudo, afrouxou no dealbar do tempo. A adição ao controlo aparente, afugentada mas não fugida de vez, crepitou aos poucos na manobra ofensiva da seleção, um animal de hábitos tal qual os jogadores que a preenchem.

    Portugal chegou ao intervalo lento de passes, órfão de gente a dar contra-movimentos a quem tinha a bola, já sem um corpo a aproximar-se e outro a ir embora, desaparecidos esses atos de chegar ao lugar e não simplesmente estar lá, imóvel, a aguardar. Assim não houve ameaça. A seleção descansar sob o manto do falso conforto, com cinco ou seis jogadores atrás da linha da bola no início das jogadas e os extremos, Leão e Neto, a receberem solicitações apenas fora do bloco croata. Aqueles 15 minutos tinham sido mesmo só um quarto de hora. Aqui no estádio, nas caras de quem torcia em redor, viam-se poucas rugas de entusiasmo.

    Depois, à primeira tentativa, logo na bola de saída no regresso, o embalado Nuno Mendes tabelou com Bruno Fernandes, a troca feita com precisão, lançando o lateral área dentro onde a outro vício cedeu: tentou pôr um passe em Cristiano, marcado por dois adversários, em vez de rematar apenas com o guardião Livaković por diante. Por pouco a Croácia não castigou os portugueses pelas suas manias quando Kovačić, vindo de trás, aproveitando-se já da presença de Igor Matanović, que lhe deixou a bola, furou até às barbas de Diogo Costa. Só o pé do guarda-redes salvou a seleção.

    Rúben Dias a disputar com Ante Budimir o lance que lhe valeu cedo um cartão amarelo
    Patrick Smith - FIFA

    Entrado durante o descanso, esse outro matulão de avançado (1,95m), um que engana, surgiu mais longe dos centrais, a espreitar nas costas dos médios portugueses. Serviu de ouro para a Croácia. Tegressada mais espevitada, agressiva com a bola, com os seus a mexerem-se sem ela para baralhar as marcações enquanto atraíam Portugal à esquerda, no início da construção, na marosca de quererem terminar a jogada na direita - onde não estava Rafael Leão.

    Estava Nuno Mendes, sozinho e descompensado de cobertura, passivo à espera da chegada do pachorrento extremo enquanto Vlašić, com tempo para observar a skyline de Toronto, cruzou a bola que acabou em Ivan Perišić, nas costas de Cancelo. O golo (53’) da Croácia foi areia movediça, prendeu os portugueses numa toada desesperante. Lançaram-se em ataques rápidos com pouco tino, partindo o jogo em transições que só perigavam quando era a vez dos balcânicos. As caras nas bancadas eram de preocupação em quem torcia por Portugal, por mais que Cristiano, anulado um golo seu por fora-de-jogo, esbracejasse para que fizessem barulho.

    Muito se escutou só depois, quando Roberto Martínez, tão ávido em abanar o jogo tanto quanto descontrolado estava esse jogo, trocou quatro peças de uma assentada: saíram Bruno, Vitinha, Neto e Cancelo, foi Bernardo Silva pegar na bola, Gonçalo Ramos fazer companhia a Ronaldo e Nélson Semedo correr para o mesmo lado de Francisco Conceição. Era o risco, finalmente, mas parido por uma necessidade que se atenuou bastante durante essa paragem que serviu para as substituições. Os jogadores portugueses refilaram com o árbitro por uma agarrão na área a Renato Veiga, ele foi inspecionar ao ecrã do VAR, deu penálti.

    O golo de Cristiano (68’), cheio de clímax, um explosão que pôs o estádio aos berros, estranhamente encontrou um Portugal acabado de ser moldado a inclinar-se para a frente, a ir com tudo, a carregar, porque os sinais vindos do banco, com as mexidas feitas, eram esses. Só que afinal não. Regressada a um empate, a partida já não pedia isso tudo. A seleção tinha de se a ver com o que havia, agora desforme, sem os meios que a relva pedia, a ter que pedir a Gonçalo Ramos que fosse um médio sem a bola e um caçador de Luka Modrić, logo dele. Eis que então se viram mais faces de arrelia.

    Cristiano Ronaldo a celebrar o primeiro golo da carreira em fases a eliminar do Mundial
    Patrick Smith - FIFA

    Regalada ficou a Croácia com a sua equipa de roupagem intacta, dobrada na mesma, os mesmos vincos, a aproveitar os desequilíbrios evidentes de Portugal. No meio da barafunda, a levar com o caos, Diogo Costa chegou-se à frente: negou três chances claras aos balcânicos, barrando a bola de Matanović com o peito, uma de Kovačić com a mão e a outra, rematada pelo mesmo médio, ficou a agradecer ao poste direito. Só depois de um golo anulado aos croatas, feitos 15 minutos de sofrimento, de um ai-jesus autêntico a compensar as velinhas acesas de quem estivesse a ver para evitar o pior, Roberto Martínez corrigiu o inevitável.

    Retirou um avançado para depositar Rúben Neves perto de Bernardo, feito capitão pela raríssima saída de Cristiano Ronaldo durante uma ocasião destas, posto de cara feia, desiludido por se ir sentar. Mas a seleção nacional, o que realmente importa, melhorou de imediato.

    Já com um pajem a livrá-lo de se prepocupar com mais do que um adversário, Bernardo Silva teve batuta no pé esquerdo. Acalmou o frenesim, deu a pausa pela qual Portugal esfaminto se via. Refeito de uma base para atacar, Portugal tentou lançar as suas setas, o já cansado Leão e o fresco Conceição, agora procurando-os com lançamentos mais diretos. Não se livrou de um susto, o problema à esquerda da defesa não se resolveu, de lá saiu o cruzamento que Mario Pašalić, nas costas do outro lateral, emendou com perigo. Seria a singela ocasião que mascarou as feições portuguesas de inquietação.

    Sem dominar, longe de controlar o jogo com rédea curta, ainda mais distante de ter aquele tipo de bola inconsequente, insonso por falta de condimentos que a tornem ameaçadora mas que é a falácia de parecer estar tudo estável, Portugal continuou a alcançar a área da Croácia. Não foi por isso que se apequenou. Foi tendo cantos, cruzamentos também, e um do pé direito de Rafael Leão, o que já tinha rematado à barra, encontrou a cabeça decisiva, a que descontrolou todas as caras, entornou as estribeiras de tanta gente no estádio. Gonçalo Ramos saltou e desviou o golo (90'+4) perto da quina da pequena área.

    Saiu de lá descontrolado de entusiasmo em direção à bandeirola, atrás dele todos os outros, incluindo Cristiano, louco como os restantes ao abraçar quem desta vez decidiu. Bonito de se ver.

    Cristiano a abraçar Gonçalo Ramos após o golo do avançado, que deu a vitória a Portugal
    Patrick Smith - FIFA

    Mas tarde e a más horas, no décimo segundo minuto dos descontos, muitos feitos à boleia do coração da Croácia que despejava cruzamentos na área portuguesa, um desses despejos foi desviado, Pašalić apareceu na pequena área e o ressalto da sua tentativa foi emendado por Joško Gvardiol. Gritaram golo os croatas, jogadores e adeptos, os que pouco depois se revoltaram com o fora-de-jogo assinalado, arremessando garrafas e garrafas para o campo. Durou esse faroeste, dentro da balbúrdio veio o choque de uma dualidade de feições: a dos portugueses nas bancadas, impávidas, sem saberem o que viria dali, com as enfurecidas dos balcânicos.

    Pouco demorou até serem de tristeza também: seria o quarto golo anulado do jogo. Pode ter sido o último jogo da cintilante carreira de Luka Modrić, um dos maiores requintes de centrocampista deste século.

    A cara dos jogadores portugueses acabou só com sorrisos e festa pelos oitavos de final do Mundial garantidos, numa comunhão bonita com os adeptos pelo significado da vitória e do simbolismo: dados os abraços no relvado, Cristiano vestiu uma camisola 21, da cor principal, a de Diogo Jota, hoje emprestada ao amigo Rúben Neves. Um gesto bonito de presenciar como o da fotografia em conjunto tirada pela seleção com número que era de quem ainda está em cada jogo, mostrado nos ecrã sempre no final do hino nacional, mas que deixou de estar faz nesta sexta-feira um ano. Porque já era 3 de julho em Portugal. Ganhou a seleção, importou isso, embora não sem preocupações.

    O estádio de Toronto despediu-se cheio de dentições portuguesas à mostra, trejeitos felizes, mas sem apagarem, só a atenuarem, o pouco que houve para motivar deslumbramento. Futebolisticamente a seleção reapareceu passiva na transição defensiva, porosa quando a sua reação à perda da bola não resultou - nunca resultou após o intervalo -, deixando os seus laterais expostos em inúmeras situações. Em ataque posicional, com os jogadores todos estanques nos seus lugares, pouco criou. Teve hoje o resto, o que muito ajuda quando os pontapés na bola atravancam uns nos outros: superação e reação, também risco quando Martínez forçou a face de desaprovação de Cristiano. E acabou feliz.

    Não maravilhou como o fogo de artifício, mas foi bonito ver como Portugal suplantou a adversidade vinda do sofrimento. Essa cara também é bonita. Vemo-nos em Dallas, a 6 de julho.

    Tem alguma questão? Envie um email ao jornalista: dpombo@expresso.impresa.pt