Bono: o guarda-redes que nasceu no Canadá e se fez homem em Marrocos, volta a defrontar a seleção que em tempos recusou
Yassine Bounou foi o herói de Marrocos ao vencerem os Países Baixos por 3-2 no desempate por penáltis, nos dezasseis avos de final do Mundial
David Ramos
Yassine Bono tornou‑se uma das figuras decisivas da seleção marroquina, protagonista da campanha que levou o país à histórica meia‑final do Mundial de 2022.Entre clubes espanhóis e noites europeias, construiu uma carreira marcada por penáltis defendidos e jogos que mudaram eliminatórias.Agora volta a estar no centro de um duelo que o reencontra com o país onde nasceu, num Mundial que cruza passado e presente
Canadá contra Marrocos. Para a maior parte do mundo, é apenas mais um cruzamento do quadro eliminatório. Mas em campo estará um homem para quem este jogo é outra coisa: o lugar onde nasceu vai defrontar o lugar que o fez homem.
Chama-se Yassine Bounou, mas todos lhe chamam Bono, e a sua história começa a 5 de abril de 1991, em Montreal, bem longe de Marrocos, no silêncio branco do inverno canadiano do Quebec. Nunca chegou a aprender a ser de lá. Aos 3 anos, a família, que tinha emigrado para o Canadá em busca de uma vida melhor, fez o caminho inverso da esperança e voltou a Casablanca, onde o pai, engenheiro, passou a trabalhar para o Estado e a dar aulas na Escola Hassania de Obras Públicas.
Foi ali, nas ruas da cidade dos progenitores, que Bounou descobriu o futebol. Aos 8 anos, entrou para as camadas jovens do Wydad Athletic Club Casablanca (WAC). Filho de uma família de classe média-alta, distinguia-se dos colegas por chegar aos treinos de táxi , uma imagem que ficaria colada à sua infância, a do miúdo bem-comportado que ainda sonhava marcar golos, não defendê-los. Porque Bono não nasceu guarda-redes, tornou-se guarda-redes. Preferia jogar com os pés, mas a estatura levou um treinador a sugerir-lhe a baliza, e o desafio foi aceite.
No início, os pais olhavam com reservas para o tempo que o filho dedicava à bola, tornando-se mais apoiantes à medida que o talento se impunha. O próprio pai chegou a avisá-lo: “Não quero que dediques tanto tempo ao futebol”, insistindo para que se concentrasse nos estudos.
Aos 17 anos, um olheiro do Nice reparou nele. A transferência esbarrou em problemas burocráticos, mas foi suficiente para convencer a família de que o sonho podia ser real. Bounou regressou ao Wydad, subiu ao plantel principal e, aos 20 anos, perante 80 mil adeptos, estreou-se na final da Liga dos Campeões Africana, frente ao Espérance de Tunes.
Podia ter escolhido representar o país onde nasceu, uma vez que foi contactado pelo então selecionador canadiano, Benito Floro, mas nunca se concretizou. Cresceu em Marrocos e era essa a seleção que sonhava vestir. Escolheu-a ainda nos escalões jovens, passando pelo torneio de Toulon de 2012 e pelos Jogos Olímpicos de Londres como suplente, e estreou-se pela seleção principal a 14 de agosto de 2013, frente ao Burkina Faso, numa derrota por 2-1 em Tânger, em que jogou toda a segunda parte.
O sotaque argentino nascido em Madrid
Ainda em 2012 começou o percurso europeu, no Atlético de Madrid. Não foi fácil: durante dois anos jogou apenas na equipa B, e em Marrocos ninguém entendia por que preferira uma filial espanhola a renovar com um grande clube do país. Bono recordaria mais tarde que pensou várias vezes em desistir da aposta espanhola, mas que o clube sempre o apoiou.
Foi em Madrid que ganhou uma curiosidade linguística que o acompanha até hoje. Contou à TyC Sports, televisão argentina: “Sou mais marroquino do que qualquer outra coisa. O que acontece é que, quando cheguei a Espanha, aprendi espanhol com os argentinos e acabei por ficar com o sotaque.”O ídolo confesso é Ariel Ortega, o "Burrito" do River Plate e, segundo a mesma entrevista, é em homenagem ao antigo internacional argentino que o guarda-redes batizou o seu cão de Ariel.
Bounou a defender o terceiro penalti da Espanha, durante o jogo dos Mundiais do Qatar 2022
Jam Media
De Saragoça, passou por Girona e, finalmente, chegou a Sevilha, onde se tornaria um dos melhores guarda-redes da Europa. Venceu o Troféu Zamora na época 2021-22, sendo o primeiro guarda-redes de um clube fora do trio Real Madrid-Barcelona-Atlético a consegui-lo desde 2006-07. Marcou também um golo memorável, aos 93 minutos, frente ao Valladolid, depois de o treinador lhe dar autorização para subir à área adversária. “É uma jogada pela qual me apaixonei e estou grato pela oportunidade que me deu. A verdade é que é uma sensação incrível, difícil de descrever, nem sabia como festejar”, confessou no final do jogo.
Catar 2022: o dia em que se tornou herói
É preciso recuar ao Catar, em dezembro de 2022, para perceber que este Canadá-Marrocos não é o primeiro encontro entre Bono e o país onde nasceu. Nessa fase de grupos, defrontou o Canadá e venceu. Os marroquinos sofreram para vencer o Canadá por 2-1, resultado que os confirmou como líderes do grupo, mais de 36 anos depois de qualquer seleção árabe ou africana ter conseguido avançar dessa forma numa fase de grupos. Foi nesse Mundial que Bono se tornou, definitivamente, herói nacional.
Nos oitavos de final, frente a Espanha, defendeu dois penáltis e ajudou o país a seguir em frente, dizendo depois: “Os penáltis são sempre intuição e um pouco de sorte. A equipa fez um trabalho incrível durante 120 minutos. Sempre concentrados e sem erros contra uma equipa que gosta de ter a bola.” Nos quartos de final, manteve a baliza a zeros diante de Portugal, no jogo que fez de Marrocos a primeira seleção africana a alcançar uma meia-final mundialista. No final, resumiu a ambição coletiva à BBC: “Estamos aqui para mudar a mentalidade e acabar com a inferioridade. Marrocos está disposto a enfrentar qualquer um no mundo, além das meias-finais e qualquer outra coisa.”
Houve também, nesse Mundial, um episódio insólito: contra a Bélgica, Bono entrou em campo, cantou o hino, cumprimentou a arbitragem e saiu antes do apito inicial, substituído por Munir Mohamedi. Só no final do jogo explicou a razão: “Lesionei-me contra a Croácia e fiz o máximo para poder jogar. Fiz de tudo para estar em campo, mas fiquei tonto e senti-me mal. O árbitro disse-me que podia sair depois do hino e que não ia contar como uma substituição.”
Bono também é conhecido por não abdicar da sua identidade fora do relvado. Na CAN de 2021, recusou falar com a imprensa em francês ou inglês, exigindo respeito pela língua árabe, num protesto contra a organização da prova, que não tinha contratado um único tradutor de árabe. A revolta de um homem nascido no Canadá e criado em Casablanca, que nunca deixou dúvidas sobre a casa a que pertence.
Sevilha, Al-Hilal e a maturidade
Em maio de 2023, voltou a ser decisivo: foi eleito o melhor em campo na final da Liga Europa contra a Roma, onde defendeu dois penáltis no desempate por grandes penalidades, no triunfo por 4-1 que deu ao Sevilha o seu sétimo título na competição. Meses depois e após quatro anos no Sevilha, mudou-se para o Al-Hilal, na Arábia Saudita, e explicou porquê: “Não estava bem, não era eu. No ano passado tive problemas familiares e tive de recorrer à minha força e experiência, mas não consegui porque não podia continuar ali emocionalmente. Precisava de uma mudança para a minha saúde mental.” A verdade é que continuou a colecionar momentos decisivos. No Mundial de Clubes de 2025, defendeu um penálti a Federico Valverde para segurar o empate frente ao Real Madrid e, nos oitavos de final, fez 10 defesas na eliminatória diante do Manchester City.
Yassine num momento de descontração com o filho após a vitória de Marrocos sobre Portugal, no Mundial do Qatar 2022
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Fora dos relvados, Bono guarda a vida privada com cuidado. É casado desde 2016 com Imane Khallad, entusiasta de moda, influenciadora e personalidade das redes sociais que raramente partilha detalhes da relação em público. Têm um filho, Isaac, nascido em 2020, que já apareceu nos braços do pai em festejos de vitórias importantes, incluindo depois do triunfo sobre Portugal, no Catar, em 2022.
No início de 2026, já depois de Marrocos ter perdido a final da CAN frente ao Senegal, Bono foi eleito o melhor guarda-redes do torneio, prova de que, aos 35 anos, continua a ser o mesmo homem que sorri quando defende um penálti decisivo.
Desta vez é diferente: é eliminatória, é em solo norte-americano, é um Canadá anfitrião que fez história ao ultrapassar, pela primeira vez, a fase de grupos. Não regressa como filho pródigo, mas como adversário. Não é todos os dias que um jogador defronta o país onde nasceu num Mundial. Bono já o fez uma vez. Fá-lo-á de novo, desta vez em casa dele por nascimento, longe da casa que escolheu como destino.