Marrocos atravessou um Saara de ideias para logo depois brindar o Canadá com uma chuva de golos
Ounahi marcou dois dos três golos de Marrocos
Kevin C. Cox
A estratégia do Canadá impôs-se durante a maior parte do jogo que inaugurou os oitavos de final do Mundial. Só que Marrocos encontrou um golo nos escombros da inspiração e a equipa de Jesse Marsch não teve capacidade para reagir. Em Houston, o encontro descaracterizou-se e os anfitriões acabaram por ir para casa com um valente empurrão (3-0)
Marrocos é uma potência consagrada. Talvez para adquirir o prefixo super seja necessário uma série de resultados e exibições consistentes em palcos internacionais, condição que, diga-se, está a cumprir. Até naquilo que de menos bom há nas seleções mandonas, como resultados que maquilham desempenhos de aparência duvidosa, já é capaz de as seguir.
Concentrar 48 países na mesma área geográfica facilita as comparações. É uma permanente dedicação ao passatempo em que, perante duas imagens, se faz uma roda em torno do que as torna diferentes. Para além de outros aspetos, o cocktail cultural expressa-se na maneira como a nacionalidade afeta a forma de estar perante um jogo.
Em condições normais, não convidem os adeptos canadianos para um buffet de taticismo ou então o encontro será possivelmente falhado. O que os leva ao delírio é uma boa dividida, um jogador com bola que come metros a conduzi-la, um teste aos limites da força física. Até costumam assobiar os momentos em que os adversários se põem a trocar passes inconsequentes. Querem ação e não exigem necessariamente futebol com serifa para entrarem num bruaá (nada de grandes composições musicais como os argentinos).
O que Jesse Marsch tinha planeado era um pouco distinto. Afinal, estas não eram condições normais, era a primeira vez que o Canadá estava nos oitavos de final de um Mundial. O Canadá teve que ser cerebral e montou uma teia em 4X4X2 que capturou a magia de Marrocos.
A clareza de Brahim Díaz na definição foi preponderante para Marrocos fechar o jogo
NurPhoto
Os primeiros 15 minutos foram frenéticos. No fundo, serviram para o Canadá se dar ao respeito frente aos quartos classificados da última edição. O massacre foi tão grande que Tani Oluwaseyi se deslumbrou e desperdiçou a oportunidade de marcar frente a Yassine Bono, o guarda-redes de Marrocos que nasceu em Montréal. Podia só ter passado ao lado, para Jonathan David, e multiplicaria as hipóteses de sucesso.
As incertezas de Marrocos agravaram-se quando Ismael Saibari se lesionou. Mohamed Ouahbi viu recolher ao banco, logo aos 22 minutos, três dos golos marcados pelos Leões do Atlas no Mundial. Um duro golpe num início trepidante.
Os marroquinos atravessavam um Saara de ideias. A bola circulava sem rumo enquanto o Canadá espremia linhas zonalmente, confiando na velocidades dos defesas para compensarem qualquer lapso. Os anfitriões estavam no pleno controlo dos acontecimentos.
As certezas da equipa de Jesse Marsch esvaíram-se num instante mísero, mas decisivo. Achraf Hakimi dispôs de um livre lateral. O Canadá preparava-se para defender um cruzamento que o jogador do Paris Saint-Germain transformou num passe atrasado. Embalado, Azzedine Ounahi penalizou a distração com o golo. Era a gota de água no deserto que tanto procurava.
A reação não foi impetuosa. O Canadá até reforçou a presença na grande área com Cyle Larin e Promise David, mas o máximo que conseguiu foi obrigar Bono a interromper um remate esperançoso de Tajon Buchanan.
Com Estados Unidos e México ainda em prova, o Canadá tornou-se no primeiro anfitrião do Mundial 2026 a ser eliminado
Omar Vega
Em função da desmobilização defensiva canadiana, Marrocos sentenciou um jogo que se transformou. Brahim Díaz foi lançado em contra-ataque e contou com o discernimento necessário para esperar por companhia. Vindo de trás para a frente de novo, Ounahi inclinou a eliminatória.
Tão bem estava a ser servido o médio do Girona, saído da casca em 2022, que resolveu retribuir. Em novo lance de transição, cruzou para o cabeceamento de Soufiane Rahimi à barra. O avançado haveria de fazer esquecer Saibari. Brahim Díaz facilitou-lhe a chegada ao momento em que a 2ª parte ficou conhecida como uma chuva de golos.
A brandura que o Canadá impôs permitiu domar os Leões do Atlas durante a maior parte do tempo. O maior sacrifício foi mudar de velocidade. Quando quis regressar à postura eletrizante que o caracterizou no Mundial, foi incapaz. O conflito identitário valeu simplesmente o título de primeiro anfitrião a ir para casa.