A turma da Noruega vai continuar a visita de estudo e não, Brasil, o hexa não vem
O avançado chegou aos sete golos no torneio
Stephen Nadler/ISI Photos
Primeiro, realizou-se um festival de guarda-redes. Depois, decorreu o show de Haaland. O Brasil-Noruega, dos oitavos de final, foi um jorrar de oportunidades que tornou o jogo frenético. O monstruoso avançado foi letal a impor-se e, num ápice, bisou. Sem tempo para reagir ao abalo, para o qual Schjelderup também contribuiu, a canarinha teve de se contentar com a certeza de que vai continuar a usar apenas cinco estrelas junto ao símbolo (2-1)
Nem gente muito nova, nem gente muito velha. A amplitude de idades da convocatória da Noruega é reduzida, motivo que faz esta geração parecer uma turma em visita de estudo pelos Estados Unidos, apenas acompanhada por um professor que não consegue ter controlo sobre tamanha ânsia de liberdade. A familiaridade demonstrada confunde aqueles que tinham para eles expectativas ajustadas a um país que não ia a um Mundial há 28 anos, projeção essa que claramente foi superada.
No passeio lúdico, foi inscrito um aluno sobredotado. Chama-se Erling Haaland e age como uma fera. Quando há um problema matemático, ele resolve-o e partilha as respostas com os colegas. Não é ganancioso. São, acima de tudo, um grupo unido. Quanto mais se empenharem nas tarefas, mais dias de viagem com os amigos vão ter para usufruir. Por isso, o melhor é os vikings remarem todos para o mesmo lado.
O Brasil-Noruega, no MetLife Stadium, começou com uma falsa partida em toda a linha. Patrick Berg arredou Fredrik Aursnes para o banco de suplentes e marcou logo aos três minutos, mas a posição irregular de Alexander Sorloth cancelou os festejos que se iam iniciando. A canarinha respondeu à ameaça com uma chegada à grande área de Matheus Cunha. Kristoffer Ajer arriscou o mundo num carrinho que derrubou o jogador do Manchester United. Maior discernimento teve Orjan Nyland que defendeu o penálti de Bruno Guimarães.
Umas das várias defesas que Nyland foi obrigado a fazer
Elsa
O frenesim não deixava nenhuma zona do relvado em pousio. Os operadores de imagem devem ter passado uma tarde inquietante devido ao ping pong para o qual tinham que apontar as câmaras. Domínios foram por isso difíceis de estabelecer. Ambas as seleções foram muito concretas. O futebol desengordurado aproximou o jogo das balizas.
A Noruega usava Haaland como engodo. A luta que o avançado deu a Marquinhos e Gabriel Magalhães, quando solicitado por via direta, permitia que a mobilização de defesas no seu entorno afastasse os brasileiros da disputa de segundas bolas. Martin Odegaard surgiu a aproveitar o desgaste, em especial quando forçou Alisson a tombar para o seu lado esquerdo, onde a bola se preparava para entrar.
Stale Solbakken queria ameaçar a canarinha por outras vias. Andreas Schjelderup e Oscar Bobb foram lançados para ajudarem à troca de passes mais curtos. Segurança na circulação era uma necessidade reforçada após perdas em zonas de risco. Um roubo de Vinícius Júnior a Odegaard voltou fazer um apelo ao guarda-redes da Noruega.
Orjan Nyland não ficou com as luvas a ferver, porque defendeu com qualquer parte do corpo. Usou a presença abrangente para travar Rayan, de fora da área, e Bruno Guimarães, numa chance clamorosa negada pelo gigante.
As atenções voltadas para Vinícius Júnior dissiparam a vigilância de outros atacantes. O extremo do Real Madrid viu a desmarcação de Endrick e colocou-lhe a bola de trivela. A posição para finalizar era altamente vantajosa, mas o remate saiu tão mal que Nyland nem teve que lhe tocar. O jogo transformou-se numa batalha de guarda-redes. Alisson equiparava-se ao homólogo para azar de Schjelderup.
Desde o início de 2026, o extremo do Benfica atingiu um patamar de elite. A imprevisibilidade foi transportada para a seleção. Com o adiar do 0-0, tirou um cruzamento da cartola que acordou a besta. Haaland antecipou-se a Gabriel Magalhães e fez uso da amplitude de movimentos para sugar a bola e cabeceá-la para o golo.
Endrick desperdiçou uma das oportunidades mais flagrantes do Brasil
Catherine Ivill - AMA
As lesões de Raphinha e Lucas Paquetá limitaram o Brasil. Por força das ausências, Ancelotti viu num reduzido Neymar a opção mais conveniente para ir atrás do resultado. Como seria de prever, não correu bem.
A Noruega podia ter tentado segurar a vantagem, mas preferiu aumentá-la. Uma vez saído da modorra, o monstro foi letal e frio. A baliza nem parecia estar no campo de visão de Haaland só que ele consegue pressenti-la e encontrá-la sem que os olhos façam scan. O segundo golo no encontro, o sétimo no Mundial, foi um remate rasteiro e colocado com origem nesse sexto sentido. Nem festejou.
O Brasil ainda reduziu. Leo Ostigard deu uma cotovelada em Casemiro e o lapso proporcionou a Neymar um penálti marcado no adeus aos Mundiais.
O pouco convívio da seleção norueguesa com as grandes competições é o único aspeto capaz de criar o efeito surpresa na campanha que está a ter no Mundial. Analisando os jogadores um a um, não há razão nenhuma para os nórdicos serem irrelevantes internacionalmente. Ao mesmo tempo que progridem no torneio, demonstram traços culturais vincados que tornam a preponderância uma inevitabilidade no futuro.