Há 23 anos que “tentam, e tentam, e tentam ‘matar‘“ Ronaldo. Tenham calma, diz ele: “É waste of time“
Ronaldo durante a conferência de imprensa antes do Portugal-Espanha, a apontar para um jornalista, pedindo que fosse ele a fazer a próxima pergunta
MIGUEL A. LOPES
Antes do Portugal-Espanha de segunda-feira (20h00, RTP1), dos oitavos de final do Mundial, o capitão da seleção nacional fez a antevisão ao jogo. Falando bastante sobre si próprio, porque as perguntas assim o exigiam, Cristiano Ronaldo abordou também as críticas de que tem sido alvo. "Não sou cego, tenho visto os ataques que fazem à minha pessoa", afirmou. Dirigiu-se ainda aos adeptos portugueses: "Esses são fiéis, não falham, estão sempre do nosso lado, sempre do meu lado. Tudo o resto é garbage, não conta para nada." No final da conferência de imprensa, ouviram-se aplausos na sala
Costuma ser uma raridade. Neste Mundial nem tanto, onde Ronaldo tem falado por uma boa obrigação: aconteceu em Houston, ao ser considerado o melhor em campo frente ao Usbequistão, facto repetido em Toronto, reeleito pela FIFA com essa distinção após a vitória da seleção contra a Croácia. Fora dessas diligências, Cristiano estava por aparecer em conferência de imprensa até este domingo, ressaca do Dia da América, tornado o primeiro dia, ao 25º dia do torneio, em que o capitão surgiu nestes preparos. Ser na véspera da partida com a Espanha, país onde jogou durante nove épocas no Real Madrid, não foi um acaso.
Acostumado ao castelhano, confortável com o inglês, um Ronaldo poliglota foi respondendo às questões de uma sala apinhada de jornalistas. “Bora, ‘tás perto, não é preciso microfone”, apressou um deles, antes da primeira pergunta. “Tem sido uma experiência bonita, estamos a melhorar jogo a jogo, sabemos que é impossível jogar bem todos os jogos, não está fácil para ninguém”, começou, depois de dar uns goles da garrafa de água posta à sua frente. “Vejo a equipa tranquila, treinámos bem, amanhã vamos encarar uma equipa super difícil, vamos estar preparados.”
Menos tranquilamente lhe saíram outras palavras quando as perguntas individualizaram em Cristiano a experiência de estar no Mundial. O sexto, no seu caso, um exemplo de longevidade: tem 41 anos, é o único a marcar golos em meia-dúzia de edições, a estreia aconteceu lá bem atrás, em 2006. “Não sou cego“, garantiu, “tenho visto o ataque que fazem à minha pessoa“. O capitão da seleção nacional, falando bastante sobre si por as questões o convidaram a tal, elaborou: “Depois dos 40 aprendi isso: de onde vêm as grandes críticas é quando crescemos mais como pessoas. Por isso agradeço-vos, assim cresço e melhoro cada vez mais.“
Cristiano a aquecer no relvado antes do Portugal-Croácia, em Toronto, onde a seleção nacional garantiu a passagem aos oitavos de final do Campeonato do Mundo
Mattia Ozbot
Autor de 11 golos nas 26 partidas que tem em Campeonatos do Mundo, o capitão da seleção, às tantas, insistiu para que o microfone a passear entre os jornalistas, conforme o próximo a ter direito a uma pergunta, fosse para um em concreto - “dá àquele rapaz, não gosta de mim, quero ver se faz uma pergunta boa.”
Vinda em português do Brasil, a questão sondou-o acerca do que é mais difícil de lidar durante uma competição longa como esta, de várias semanas, quando os jogadores estão concentrados em estágio. “A coisa mais difícil? Falar com vocês, alguns de vocês, principalmente os que não gostam. Tu és um deles, que eu sei. Eu fixo a cara das pessoas. Jogar com 41 anos tem sido uma experiência, para chegar a este nível tens de abdicar de muitas coisas”, desabafou, defendendo-se e contra-atacando. “Na minha carreira tenho-me adaptado às nuances da idade, mas tenho claro que nada mudou, continuo a fazer golos. Espero fazer amanhã, se não fizer, espero que outro colega faça e que possamos passar”, acrescentou.
Ninguém foi ouvido na sala a dizer que não gostava do capitão da seleção nacional, mas Ronaldo, ao ser abordado sobre a sua titularidade, tocou também nesse assunto. “Há 23 anos que vocês tentam-me ‘matar’, mas isso já perceberam que não vale a pena”, disse ainda em português, usando pelo meio uma expressão em inglês: “É waste of time, tentam, tentam, tentam, tentam, não vale a pena. Estou completamente acostumado, há uns que gostam mais, outros menos, faz parte, também tenho as minhas preferências.”
Os adeptos? “Esses são fiéis”
Em 10 jogos que tem pela seleção contra a Espanha, Ronaldo venceu dois, empatou seis e perdeu outros dois
MIGUEL A. LOPES
As suas palavras não se dirigiram aos adeptos portugueses, a quem agradeceu quando lhe foi requerido que mensagem tinha para lhes deixar antes da partida com a Espanha, a 11ª que terá pela seleção contra o vizinho ibérico. “Esses são fiéis, não falham, estão sempre do nosso lado, estão sempre do meu lado, tudo o resto é garbage, não conta para nada”, referiu, de novo usando uma palavra inglesa para reforçar o seu ponto. “Este Mundial tem sido muito marcado por essa paixão das pessoas. O que guarda e vou levar para casa é o afeto que as pessoas têm tido com a seleção e comigo, especialmente.”
Quis aprofundar esse aspeto, falando sobre “a malta da Venezuela e da Colômbia” com quem se tem cruzado nos hotéis por onde passa a seleção nacional, vendo-lhes “os olhos em lágrimas por contarem as experiências de vida”. Essa tem sido “uma experiência espetacular” e base, defendeu Cristiano, para se “refletir sobre o futebol”, sobretudo as marcas que deixa: “Vai mais além do que jogar dentro de campo, vai à união das pessoas, é isso que me fica guardado. Este será o Mundial que mais recordarei pela paixão das pessoas, o aspeto emocional tem sido o melhor, tenho desfrutado bastante.“
Quase totalista no Mundial, substituído apenas no último jogo, frente à Croácia, aos 81 minutos - soma 351 no torneio -, o capitão português, lembrando que se tem “adaptado às nuances da idade“, garantiu estar “sempre de corpo e alma“ na seleção nacional. “Jogando ou não jogando, terei sempre um papel importante.”Rindo-se amiúde, até ao corrigir um jornalista que, na pergunta, mencionou ser esta a derradeira edição do torneio para Ronaldo - “último?“ -, foi reforçando a sua postura: “Terminarei, como disse há uns anos, quando eu quiser, não quando vocês quiserem, acho que é uma perda de tempo vocês fazerem sempre a mesma pergunta.“
Cristiano a correr durante o treino da manhã de domingo no calor de Dallas, no Texas
Stacy Revere
E a Espanha
Sobre o jogo em si e o duelo frente a uma das favoritas à conquista do Campeonato do Mundo por, como enquadrou Ronaldo, já ter vencido a prova em 2010, na África do Sul, aquando do seu auge futebolístico com Iniesta, Xavi, Busquets, David Silva e por aí fora, traçou “a única maneira” de Portugal encarar o embate: “Temos que ter muita fé, correr e ter coragem. Vai ser uma batalha dura. Vejo sempre a Espanha como uma seleção de muito talento, sem individualizar ninguém. São muito bons, desde que cá estou têm sempre gerações candidatas a ganhar o que seja.”
A equipa de Luis de la Fuente vem de três vitórias desde o empate a abrir com Cabo Verde, jogo inaugural onde não usufruiu de Lamine Yamal, então ainda a recuperar de uma teimosa pubalgia. Tê-lo-á apto contra Portugal. Cristiano não quis individualizar a sua análise, até porque não viu um encontro inteiro de Espanha neste Mundial. “É um jogador com muito futuro. Está a fazer muito bem as coisas. Mas, para mim, a Espanha é sempre um todo, jogam muito bem“, opinou, de forma sucinta, engordando mais as frases quando outra pergunta regressou ao extremo de 18 anos, prestes a fazer 19, para o inquirir sobre conselhos a dar ao espanhol sobre como lidar com a pressão e as críticas.
“Quanto mais preparado estiveres, melhor sobreviverás a uma carreira longa no futebol, se for a tua inteção“, começou por explicar. “Se ligas à crítica estás perdido“, disse Ronaldo, que pouco antes, em castelhano, se defendeu também perante os jornalistas de Espanha - “Vocês têm muitas ganas de que não venha mais, não é? Já chegará o dia.“ Não será na segunda-feira. “Creio que, ao contrário do que vocês pensam, não estou assim tão mal, acho eu. Marquei três golos. Há que seguir, a ver se amanhã ganhamos e marco um golito.”
Ronaldo a ir para a bola no penálti que deu a Portugal o empate contra a Croácia, na segunda parte do jogo dos dezasseis avos de final do Mundial
Voltando às críticas que tanto abordou, visando os jornalistas em particular, Cristiano terminou a conferência de imprensa a a classificá-las com um “é normal, é o vosso trabalho, entendo perfeitamente“. Tem algum conhecimento de causa: é, desde 2023, acionista do Grupo Cofina que detém, entre outros, o Correio da Manhã, a CMTV, o Record e o Jornal de Negócios; já este ano, em maio, também se tornou sócio da LiveMode, empresa que comprou os direitos televisivos deste Mundial e tem transmitido os jogos no YouTube. “Há críticas construtivas e outras para tentar ‘matar’, faz parte, afinal de contas entendo-vos, faz parte da maneira como a imprensa vende as notícias“, concluiu.
Em Toronto, onde a seleção foi engolida por uma multidão de apoio antes, durante e após a vitória contra a Croácia, o capitão português teve “um feeling”, já em dia de jogo, de que iria marcar. Não soube dizer nesta véspera se sentiu algo profetizador em relação à partida com a Espanha. “Só amanhã é que sinto, só no dia de jogo, chega lá de cima, aí dá aquela tremedeira, aquela suada, ainda não senti, amanhã sim. Estou a falar a sério, é normalmente no dia de jogo que tenho esse pressentimento.” Este jogo dos oitavos de final será “muito duro”, disse em inglês que estará “fingers crossed” para Portugal sair a sorrir. “É desfrutar o máximo possível com este meu último Mundial, oxalá amanhã não seja o meu último jogo.“
Garantiu estar a “ser sincero“ quando disse que “independentemente do que acontecer amanhã, o Cristiano sairá daqui com a consciência tranquila a 1000%“, pois sempre deu “tudo o que tinha“ e “jogar estes anos todos nunca foi por necessidade, é pela paixão“. Cristiano Ronaldo está leve - “Deus foi generoso comigo, não me falta nada nesta vida” -, focado em “desfrutar”.
No final, ao levantar-se da cadeira para sair da sala e dar lugar a Roberto Martínez, ouviram-se alguns aplausos vindos de pessoas a quem o capitão, no geral e em particular, dirigira críticas. Pouco antes de ir embora, também deixara uma garantia:“Eu faço aquilo que o mister me pede, aqui na seleção estou mais próximo da área, para agarrar os centrais e eles ficarem comigo. Já sabem que se a bola chegar lá eu meto-a lá dentro.”