• Suécia
    18:0020 JUN
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    Grupo F
  • Mundial 2026

    A Espanha acabou com o “mau Mundial“ de Portugal. Oxalá haja risco, e lições aprendidas, no próximo

    Bernardo Silva, deitado na relva, a lamentar-se pelo seu remate de cabeça que não acertou na baliza na derradeira jogada da partida, nos descontos
    Bernardo Silva, deitado na relva, a lamentar-se pelo seu remate de cabeça que não acertou na baliza na derradeira jogada da partida, nos descontos
    JEFFREY MCWHORTER

    Num jogo em que o protagonismo, a fome em controlar e o ímpeto para arriscar pertenceram, por inteiro, aos espanhóis, a um golo já nos descontos, de Mikel Merino, selou a derrota (0-1) da seleção nacional, caindo nos oitavos de final do Campeonato do Mundo onde Pedro Proença definiu que tudo o que não fosse chegar às ‘meias‘ seria “mau”. Foi mais um jogo em que o melhor de Portugal ficou por ver, outra amostra de como esta geração de jogadores, a transbordar em talento, não conheceu uma maneira de jogar que lhe correspondesse. O responsável, Roberto Martínez, anunciou a saída no final da partida

    A Espanha acabou com o “mau Mundial“ de Portugal. Oxalá haja risco, e lições aprendidas, no próximo

    Diogo Pombo

    em Dallas, no Mundial 2026

    Uma pessoa aterrou em Dallas, quis de facto chegar a Dallas, meteu-se no Dallas Area Rapid Transit e ouviu, no comboio até ao centro, que o serviço seria reforçado “durante o maior evento desportivo do mundo”. Não se dizia qual, nem do que se tratava, importava era que era o maior, e podia ser este Portugal-Espanha. Um espetáculo com o seu microcosmos próprio, todas as bocas o venderam como tal: Roberto Martínez pré-aplaudiu o “adversário espetacular”, com “respeito” Luis de La Fuente disse ter “o melhor meio-campo do mundo”, o quarentão Ronaldo falou dos seus “feelings”, o adolescente Lamine Yamal acariciou em elogios o duelo com Nuno Mendes.

    Distribuídas as platitudes, dentro da colossal arena dos Dallas Cowboys, auto-proclamados “campeões do mundo”, mas do outro futebol, o jogo cozinhou o início a lume brando. Absorvido pela exibição de cautelas, o suposto espetacúlo foi arrastado para os zelos dos centrocampistas. Receosos em arriscar um coche mais no passe quando se via uma desmarcação, todos queriam a bola, poucos ousavam pensar mais nos benefícios do que nas consequências de arriscar, ousar um pouco, ver muitas pernas e tentar na mesma o passe pirata que desamarrasse os encaixes.

    Presos uns nos outros, aos espanhóis Rodri e Pedri, abreviados de nome, superlativos no futebol, colaram-se João Neves e Bruno Fernandes como lapas, este último ligado à corrente na perseguição ao seu homem. Sem os impedirem que gozassem da bola, tentaram limitar-lhes o leque de opções dentro da metade portuguesa, não na base das jogadas, aí é sabido, a seleção nacional há muito que não tem todos disponíveis para pressionar. Mas tem a Espanha, chata ao melgar os centrais, com Dani Olmo e Mikel Ozarzabal minuciosos nos ângulos com que se aproximavam de Rúben Dias e Renato Veiga para os forçar a jogarem por onde os espanhóis pretendiam.

    Era uma partida morna, sem esticões ou fisgas disparadas durante posses longas, pedia mais atenção aos detalhes. Pedri a filtrar passes diagonais no cirúrgico Olmo, a esconder-se no lado cego de quem o vigiava. Os passes rasteiros, não cruzamentos, com que os espanhóis buscavam gente na área. As receções de Rodri, a abrir o corpo para a entrega da bola sair limpa ao segundo toque. A esperteza de Bruno Fernandes, mais pela esquerda, a simplificar tabelas, a aflorar combinações para Portugal fugir à pressão, mesmo que estéreis. Os passinhos curtos de Nuno Mendes com Lamine e a bola por diante, pronto a arrancar, lesto a reagir às manigâncias do fenómeno a quem por vezes dá na cabeça usar uma bandolete com “Ego Yamal” escrito.

    E os voos de Diogo Costa.

    O salto espetacular de Diogo Costa para negar o remate de Álex Baena
    MIGUEL A. LOPES

    Porque os pormenores a desfrutar eram bastantes mais na Espanha dentro da nave espacial de Dallas, com aspeto de pronta a descolar rumo ao Espaço. O estádio convulsionou com a estirada do guardião português, ele a pairar na gravidade para ir à palmada evitar a curvatura do grande remate de Álex Baena, ajeitador de pé direito da recarga ao remate que Yamal, com o seu esquerdo, curvara antes - já houvera uma primeira defesa do protetor das redes de Portugal. Outro testemunho de como tem sido, e acabaria por mesmo por ser, o melhor deste Mundial. Só ele evitou a vantagem de Espanha na primeira parte, rápida e incisiva ao roubar a bola, aí sim incisiva a pôr gente a correr no ataque ao espaço mal a recuperava.

    Também num canto tocado de forma curta, mastigado para o lado oposto, os espanhóis tiveram Pedri a cruzar para o contrapé, também aí apenas valendo a atenção de Diogo Costa, impecável a sua saída com a chuteira à bola, na pequena área, para evitar que Olmo a recebesse. Aquando da repetição das suas defesas nos gigantescos ecrãs, mastodontes pendurados sobre o relvado, ainda se ouviu o bruaá de espanto dos adeptos ao verem a parada de outras perspetivas.

    Siameses da bola, tocando-a mais, os ataques longos dos campeões europeus até eram, em certo ponto, amestrados com critério pelo bloco português. Constrito, mas impossível de ser controlado, Yamal sofreu na vigilância de Nuno Mendes até ao intervalo. Mas nunca o protagonismo foi de Portugal, montado de forma a que dificilmente pudesse ser - a defender retraído, com as linhas recuadas, traía-se a si próprio, porque nunca teve opções para contra-atacar. Era abafado pela pressão espanhola após se ver se a bola.

    Os problemas surgiam muito quando os espanhóis, letais a aproveitarem os desequilíbrios, desatavam a correr quando conseguiam ser ladrões. Portugal apenas os imitou uma vez, Bruno provocou o raro, abocanhou a bola de Pedri, lançou Cristiano na corrida e o capitão, no duelo com Aymeric Laporte, desviou para o pé forte. O remate conheceu a luva de Unai Simón, como a cabeçada de João Félix foi às mãos do espanhol, que ainda agarraram a tímida recarga de Ronaldo.

    Pobre a criar em ataque organizado, sem libertar Vitinha nas posses ou de lhe dar jogadores nas redondezas para combinar, Portugal criava pouco. A sua melhor feitura surgiu com a bola a começar parada: João Félix e Nuno Mendes combinarem em canto curto, o primeiro enganou, passou ao segundo, a sua bujarda fez ricochete numa testa e esbarrou contra o travessão. Foi na cabeça de Pedro Porro, rijo na disputa com Félix, os seus duelos a darem as únicas faíscas ao pouco jogo da seleção nacional.

    Yamal a consolar Nuno Mendes quando o lateral português se sentou na relva a pedir a substituição
    NurPhoto

    Farto de não emanar fogo, a sua chama branda, Lamine Yamal regressou à relva de peito feito. Ávido de protagonismo, com as labaredas de talento que traz de Rocafunda, seu bairro de vida dura na Catalunha, com tudo encarou mais vezes Nuno Mendes. Única fonte na Espanha de fintas, de acelerações, de chamar a si a causa de resolver um jogo, foi para cima do português com o seu ziguezague de travões e mudanças de direção. Sempre o lateral o conteve, impávido ou derramando gotas de suor, neles deveras um espetáculo dentro do que se esperava que fosse este jogo. Mas quebrado foi, aos 56’, traído Nuno Mendes por uma lesão. Entrou Nélson Semedo para arcar com o prodígio.

    A segunda parte teve mais Espanha, bem mais a partir daí, levada uma fatia generosa da capacidade de Portugal sair para o ataque. Ficou a bola mais nos pés espanhóis, com mais dúvidas criadas na última linha de Portugal. Obrigada a defender-se ainda mais em baixo, o bloco da seleção nacional afundou de vez contra a sua área. Os jogadores correram, compensaram-se, trincavam os calcanhares dos adversários no segundo em que o pretendido já lá não estava. Guiados pelas chuteiras de Rodri e Pedri, bússolas humanas, os espanhóis jogavam, tocavam passes curtos, fingiam que iam por aqui para irem acolá. Os portugueses atrasavam-se e viam.

    Até à pausa para hidratação, faturação, televisão, é a rima que se quiser, a seleção apenas saiu do aperto com um sprint de Pedro Neto, pela direita, veículo preferido das transições rápidas ao alcance de Portugal ao ser espremido lá atrás pelos ataques prolongados do adversário, já assim fora com a Colômbia. Roberto Martínez reagiu com Diogo Dalot no lugar de Cancelo, mas sobretudo ao depositar Rafael Leão em campo, na esquerda, para ter uma seta nas costas de Yamal a desafiar o desamparo de Porro. Houve um remate de Bruno Fernandes mal as substituições pousaram, respondeu Luis de la Fuente com Ferran Torres por Baena. Um velocista por um médio.

    Os vizinhos na geografia tinham já rapidez à qual recorrer, em ambas as faixas. A velocidade serviu melhor aos espanhóis, dominantes no jogo, ocupantes do meio-campo português mesmo com uso restrito do seu defesa central de pé mais fino. Foi a única influência notada em Ronaldo na segunda parte: cobrir o passe para Laporte, limitar a sua influência na base das jogadas. Mas a Espanha, engatada noutra mudança, teve Pedri, Olmo, Yamal e Ferran com remates no alpendre da área esbarrados nos pronto-socorros de Renato Veiga e Rúben Dias, últimas salvações na proteção da baliza. Quando foram atraídos pelas diagonais curtas, entre central e lateral, de um jogador vindo de trás, valeu a Portugal nenhum espanhol aparecer no espaço onde entraram os passes rasteiros na área.

    O momento do remate de Mikel Merino que deu o único golo do encontro
    Hannah Peters - FIFA

    O maior dano oriundo de Espanha, mais do que as tropelias de Yamal, eram esses contra-movimentos quando Oyarzabal se escapulia do radar dos centrais e um jogador entrava no buraco enquanto a bola era trocada em passes curtos. A partida era controlada e dominada pelos espanhóis.

    Como dias antes, na batalha vencida com a Croácia, saiu Neto por outro acelerador, Francisco Conceição, e Martínez confiou de novo em Bernardo Silva nas vezes de Vitinha, talvez confiante de que só por ter a super-cola da sua canhota a seleção reavisse alguma iniciativa de jogo, oxalá contivesse a avalanche espanhola de passes, afastasse o adversário para a sua metade. Mas nada, nem um beliscão, apenas o golpe final da equipa que realmente tentou, e tentou, e tentou e não parou de tentar até matar a contenda.

    Tarde foi, o relógio já conhecia a compensação. Numa falta banal já a poucos metros da área, os jogadores portugueses ainda refilavam com o árbitro, olhavam em volta, aprontavam-se para um eventual livre, quando a Espanha não foi de modas. Apressada, tocou logo a bola, mastigou-a ali mesmo com toques curtos, engodo para a atenção dos portugueses enquanto Oyarzabal, cromo repetido na partida, se afastou dos centrais para a equipa acelerar uma combinação e Mikel Merino furou o buraco deixado pelo movimento do avançado. João Neves não compensou, nem Dalot ou Renato Veiga encurtaram os seus posicionamentos. O passe entrou no médio, vindo de trás, que na área passou à baliza (90+1), flanqueando a mancha de Diogo Costa.

    Depois mais tarde era, e menos meios havia, para a seleção nacional reagir mais do que as investidas que ainda desencantou do seu desespero. Roberto Martínez esgotara as substituições, nos descontos viu-se Gonçalo Ramos cabisbaixo, em passo lento, a ir sentar-se no banco onde habituado está a ser guardado em cativeiro. De lá viu o instinto da seleção nacional a impeli-la contra os espanhóis, a encostá-los à baliza na meia-dúzia de minutos que teve para tentar algo, algum golpe de asa tardio, alguma graça caída do céu porque dos ares foi como tentou, multiplicada em cruzamentos atrás de cruzamentos, não o plano A, nem B, ou C, mas o plano costumeiro de Portugal para inflingir a área adversária. Neste jogo apenas surgiu na aflição.

    Bernardo Silva estendido no relvado após a última jogada da partida e o seu remate de cabeça que rasou a barra da baliza espanhola
    Molly Darlington

    Num deles, um dos mais vetados a papel secundário neste torneio, tentacular na núcleo do Manchester City de Guardiola mas sem quem arranjasse forma de o sintonizar no volante do jogo da seleção, curiosamente também o menos apto a cabecear uma bola, quase resgatou o prolongamento: em suspensão no ar, Bernardo Silva desviou a solicitação de Conceição. Rasou a barra por pouco. Assim terminou a angústia de Portugal.

    Caíram então joelhos à relva, mãos cobriram cabeças, o desalento puxou queixos para baixo nos jogadores portugueses, eliminados de um “mau Mundial“, avaliação pré-definida por Pedro Proença antes da prova para uma prestação que findasse aquém das meias-finais. Uma apreciação resultadista, qualquer uma o é - depois sobram as qualitativas.

    Entre Houston, Miami, Toronto e esta Dallas, onde o recinto da prova definitiva do ténue fio de jogo da seleção dista 30 quilómetros da cidade, este Portugal nas mãos e orientações de Roberto Martínez jamais encantou perante adversários de valia real. A terraplanagem do Usbequistão serviu de alegria, mas sobretudo de poeira soprada para o olhar da desconfiança.

    Preso a estatutos, a memórias e a gratidões, Portugal caiu encolhido durante a maioria do jogo perante uma Espanha esfaimada em ser protagonista, querendo a bola, usurpando-a, clamando por estar no controlo das coisas, pondo os seus jogadores a atuarem conforme a valia que têm. Jogaram como os portugueses têm condições para jogar.

    Do outro lado, incapaz de encetar uma pressão coletiva eficaz com 11 futebolistas, a seleção foi decaindo, lentamente e aos poucos. Numa partida em que podia, como frente à Colômbia, nos instantes derradeiros do assomo que também sofreu perante a sede dos sul-americanos em darem nas vistas, ter ainda resgatado outro resultado mesmo a acabar, no esforço final, no vai-com-tudo. Isso teria sido a sorte de que Roberto Martínez lamentou faltar a Portugal. Se faltou, foi apenas aí, na correria final. Eliminada do Mundial esta geração transbordante de talento, cuja maior fatia chegará a tempo de 2030 para tentar fazer as pazes com o torneio, Cristiano Ronaldo acabou uns quase incógnitos 90 minutos de olhos empapados em lágrimas. Desolado.

    Ronaldo no final da sua última partida em Campeonatos do Mundo
    Ryan Pierse - FIFA

    O mais velho ainda no Mundial foi consolado, com um abraço, por Lamine, um dos mais novos, embalado que está para a sua interpretação da ribalta.

    Se sem Cristiano, se com ele, sabe-se lá, daqui por quatro anos terá 45, pela lógica certamente demasiado para ainda prevalecer, com as suas vantagens minguantes e as implicações crescentes, como inamovível de uma seleção nacional que terá de andar para a frente com os seus fantasmas, as suas devoções, se preferências com os seus erros. Já sem Roberto Martínez, responsável pelo arrojo atirado arremessado para parte incerta, treinador de uma seleção por demais tímida neste jogo, em muitos outros, simpático perante os microfones e as câmaras para, no campo, alinhar uma seleção antipática com o talento que tem.

    A Portugal sobrará agora tempo para digerir a tristeza, aquecer os pensamentos, aprender com as lições que este Mundial lhe deve dar, tem que dar, enquanto o espetáculo continuar, agora em definitivo dado por outros. Oxalá se aprenda, o feeling que fica deste Mundial é que isto, assim, é pouco.

    Tem alguma questão? Envie um email ao jornalista: dpombo@expresso.impresa.pt