Nuno Mendes, o craque feito em laboratório cuja queda prenunciou a eliminação de Portugal
Enquanto esteve em campo, Nuno Mendes foi o melhor de Portugal
Pat Elmont - FIFA
Nos 56 minutos em que contou com o único lateral canhoto da convocatória em campo, a seleção testemunhou uma grande versão de Nuno Mendes, novamente dominador contra Lamine Yamal, valendo-lhe ser, para a Tribuna Expresso, o melhor jogador português em Dallas. Sem Mendes, tudo se complicou mais para uma equipa com opções injustificáveis no ataque
Os grandes jogadores elevam-se nas grandes ocasiões. É o caso de Nuno Mendes, um futebolista made in Alcochete, que não haja equívocos, mas um lateral que parece um produto de laboratório, com todos os ingredientes que um futebolista de elite deve ter, mentalidade incluída.
Depois de semanas algo complicadas, na sequência de nova época desgastante e sempre com preocupações quanto ao seu físico privilegiado, mas propenso a problemas, Dallas viu quase uma hora do melhor Nuno Mendes. E ver o melhor Nuno Mendes é não só assistir ao melhor lateral-esquerdo do planeta, mas, na verdade, um dos mais decisivos futebolistas do momento.
O duelo é já repetido. Lamine Yamal já reconheceu que o português de 24 anos é o adversário mais difícil que existe, pegajoso na marcação, rápido e ágil, inteligente, concentrado. A defender o mais talentoso do adversário, Nuno Mendes foi impecável.
O Portugal-Espanha foi uma partida difícil para a equipa nacional. Não se esperaria um passeio contra os campeões europeus, claro. Mas tudo piorou a partir dos 56', quando Nuno Mendes caiu, tombou, mal-tratado por um corpo que é benção e chaga, músculos tão fortes e explosivos que, por vezes, dizem stop. A partir do momento em que o bicampeão europeu saiu, a saída de cena de Portugal ficou bem mais próxima. Ainda assim, aquela quase hora no relvado valeu-lhe ser, para a Tribuna Expresso, o melhor entre os homens de Roberto Martínez.
Nuno Mendes e Lamine Yamal, uma bonita rivalidade que tem visto o português levar a melhor
Chris Brunskill/Fantasista
Cedo começou Nuno a dominar o seu rival. Há qualquer coisa de sísmico no baile entre Lamine e Nuno Mendes, como se a Terra tremesse. Simultaneamente, fica sempre a ideia de que quem não sai vencedor do duelo, na verdade, não termina como perdedor, já que o mérito costuma ser do opositor, não uma qualquer falha de quem não logra ludibriar o craque do outro lado.
Não só com Yamal teve Mendes de dançar. Houve, também, momentos de confronto com Pedro Porro, eles que foram parelha crucial do primeiro título de Ruben Amorim no Sporting, as asas do 3-4-3 do treinador, que em Manchester bem suspirou por gente assim nos corredores.
Ofensivamente, houve também impacto. No total, progrediu quase 70 metros com a bola, ajudando a seleção a esticar-se, capacidade que, nitidamente, se perdeu sem ele em jogo. Acertou 23 de 24 passes, com destaque para os 100% de êxito nos passes longos.
O grande momento do canhoto, o único lateral canhoto entre estes 26, deu-se na sequência de um canto à direita. Uma jogada estudada com João Félix — Mendes e Félix protagonizaram uma sociedade com claro valor de crescimento e aposta futura — levou o número 25 a zona de disparo. O seu tiro beijou a barra, impedindo-o de marcar aos espanhóis, como fizera há um ano, na Liga das Nações.
É evidente que o que vier de bom para o futuro da seleção passará sempre pelos pés do craque feito em laboratório. No Texas, a sua queda antecipou a do coletivo.
🧱 A muralha
Diogo Costa: Portugal perdeu, mas o guarda-redes foi o segundo melhor. A frase anterior mostra bem o nível global da equipa nacional. Tal como diante da Colômbia e da Cróacia, o campeão nacional esteve muito seguro, somando intervenções decisivas. Fez cinco defesas, mais do dobro das de Unai Simón, que somente realizou duas. Sem culpas no golo, este Mundial consolida o seu estatuto de indiscutível. Aos 26 anos, e com 48 internacionalizações no bolso, dificilmente não será o número um mais algum tempo.
Diogo Costa voltou a destacar-se
Kevin C. Cox
☹️ Parte vítima, parte culpado
Bruno Fernandes: O MVP da última Premier League teve um Mundial para esquecer. O recordista de assistências em Inglaterra foi uma presença estranha na América do Norte, uma versão errática, reduzida, como um jogador a tentar lembrar-se do que é, mas sem lá chegar, amnésico durante algumas semanas. Bruno, contra a Espanha, esteve impreciso, sem conseguir aportar a sua criatividade, com várias receções e gestos falhados. Esta é a parte do culpado, agora entra a vítima: o capitão do United tem, frequentemente, de compensar os movimentos de Cristiano Ronaldo, sendo o mais adiantado de Portugal, posição em que é difícil assistir alguém, por se estar enfiado na área adversária. Em Dallas, descaiu muito na esquerda, longe do espaço central entre-linhas, seu habitat natural. Um coletivo disfuncional prejudica as individualidades.
Não totalmente por sua culpa, Bruno Fernandes foi uma das desilusões portuguesas do Mundial
Catherine Ivill - AMA
💿 Vira o disco e toca o mesmo
Cristiano Ronaldo: Outro jogo feito na totalidade, outra vez com imensas dificuldades. Fez 10 passes, o valor mais baixo entre os 22 titulares. Tocou 19 vezes na bola, a menor quantia entre os 22 que principiaram a eliminatória. Não tentou qualquer drible. Disparou uma vez à baliza. Inativo sem bola, incapaz de pressionar ou de ganhar duelos, pouco presente com ela, ora saindo da área para contribuições inócuas, ora alheando-se do futebol ofensivo e coletivo. Se Portugal vive longe da área adversária, é difícil ver em que acrescenta. Contra a Croácia, Gonçalo Ramos entrou e decidiu. Desta feita, o algarvio nem saiu do banco. Uma gestão inexplicável a marcar mais um Mundial de baixo nível para um dos melhores futebolistas da história.
Ronaldo sofreu para ter destaque, mas Gonçalo Ramos não saiu do banco