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    Trump ligou à FIFA e a FIFA retirou suspensão ao norte-americano Folarin Balogun. Federação belga diz-se “perplexa“ e promete agir

    O momento em que o árbitro Raphael Claus expulsa Folarin Balogun, após revisão do VAR
    O momento em que o árbitro Raphael Claus expulsa Folarin Balogun, após revisão do VAR
    Maja Hitij - FIFA

    De acordo com o “New York Times“, o presidente norte-americano contactou Gianni Infantino pedindo que a suspensão do avançado da seleção dos Estados Unidos, expulso frente à Bósnia, fosse revertida. No domingo, a FIFA confirmou que Balogon poderá jogar frente à Bélgica, provocando uma situação quase inédita em Mundiais

    Vamos rebobinar: jogo dos 16 avos de final do Mundial, entre Estados Unidos e Bósnia. Aos 64 minutos e já depois de marcar o golo que colocava a equipa da casa em vantagem, Folarin Balogun foi expulso depois de uma entrada imprudente sobre o defesa Tarik Muharemovic, quando ambos disputavam a bola. O árbitro deixou seguir o lance, mas foi alertado pelo VAR, que viu a forma como o tornozelo do defesa bósnio ficou numa posição nada natural depois da disputa com Balogun.

    Os norte-americanos contestaram a decisão. O facto de Balogun não ser apenas mais um jogador, mas sim o melhor marcador da seleção neste Mundial, com 3 golos, terá aumentado o protesto.

    Só que, sabe-se agora, a contestação a um cartão vermelho ter-se-á transformado em algo mais, algo quase sem precedentes e que pode manchar definitivamente a integridade do Mundial. No domingo, a FIFA informou que a suspensão automática a Balogun pelo cartão vermelho passava a condicional por um ano, agarrando-se ao artigo 27 do seu código disciplinar. Pelo que o avançado do Mónaco vai poder jogar no decisivo embate com a Bélgica nos oitavos de final da prova, na madrugada desta terça-feira.

    “Se Folarin Balogun cometer outra infração de natureza e gravidade semelhantes durante o período probatório, a suspensão será revogada e a sanção será aplicada, sem prejuízo de qualquer sanção adicional que venha a ser imposta pela nova infração”, pode ler-se no comunicado do Comité Disciplinar da FIFA.

    Pouco depois, o “New York Times” denunciava que a suspensão dos efeitos do cartão vermelho de Balogun, evento raríssimo, aconteceu depois de Donald Trump ligar a Gianni Infantino para pedir que a suspensão do jogador norte-americano fosse revertida, história confirmada por três fontes ao jornal nova-iorquino. Mais tarde, o britânico “Guardian” informava que o presidente dos Estados Unidos terá feito três chamadas para a FIFA a partir de quarta-feira, para assegurar que a decisão era tomada.

    Ao The Athletic, a Casa Branca confirmou que houve uma chamada entre Trump e Infantino na semana passada, mas sem especificar o tema. A FIFA não reagiu aos pedidos de esclarecimento enviados tanto pelo “New York Times” como pelo “Guardian”.

    O Politico fala de um esforço coordenado de uma equipa da Casa Branca em conjunto com a federação norte-americana, que procuraram ao longo de quatro dias todas as hipóteses legais e diplomáticas para refutar a suspensão de Balogun. Donald Trump terá ligado a Infantino pela primeira vez na quinta-feira, no dia seguinte ao Estados Unidos-Bósnia. Diz o portal que o presidente da FIFA terá sido questionado sobre as regras para a suspensão do jogador e terá ouvido as preocupações do líder norte-americano, não prometendo, na altura, um resultado positivo caso os Estados Unidos avançassem para um apelo.

    Momento em que Balogun pisa o tornozelo de Tarik Muharemovic
    Robert Gauthier

    Ao portal, a FIFA reiterou que a decisão de aplicar uma pena suspensa da Balogun, em vez de um jogo fora, foi feita por um painel independente de 18 elementos, que constituem o seu Comité Disciplinar, não oferecendo mais pormenores sobre o processo que levou a uma decisão rara.

    Desde a implementação do sistema de cartões no Mundial, em 1970, que não há registo que qualquer jogador que tenha recebido um cartão vermelho tenha jogado no encontro a seguir e a situação só encontra paralelo em 1962, quando a FIFA permitiu que Garrincha jogasse a final do Mundial, depois de ter sido expulso nas meias-finais.

    A situação está a ser comparada com a de Cristiano Ronaldo, que recebeu uma sanção de três jogos depois de ser expulso por ter dado uma cotovelada num adversário durante o jogo de qualificação para o Mundial entre Portugal e a Irlanda. A FIFA decidiu que dois dos jogos seriam com pena suspensa, pelo que o avançado ficou disponível para os primeiros encontros do Mundial. Mas a diferença é que o português cumpriu, de facto, um jogo de suspensão, enquanto Balogun poderá jogar imediatamente.

    Mais parecida a situação será com os perdões da FIFA a Nicolás Otamendi e Moisés Caicedo, expulsos nos últimos jogos da fase de qualificação sul-americana e que viram a FIFA permitir-lhes jogar no primeiro encontro do Mundial 2026. A justificação foi uma alteração no artigo 10º do regulamento da prova: de acordo com a nova redação, os cartões amarelos e as suspensões pendentes de um ou dois jogos, que resultem de admoestações na qualificação, não transitam para a fase final. O caso de Balogun não entra neste precedente.

    Na Truth Social, Donald Trump, sem nunca referir qualquer conversa com Infantino, congratulou-se com a decisão. “Obrigado, FIFA, por fazer o que está certo e reverter uma grande injustiça”, escreveu o presidente norte-americano.

    Federação belga apresenta argumentos

    Da parte da federação da Bélgica, o adversário dos Estados Unidos nos oitavos de final, a reação foi de estupefação.

    “A Real Federação Belga de Futebol está perplexa com a decisão da FIFA de considerar elegível o jogador dos Estados Unidos, Folarin Balogun, que se encontrava suspenso, para disputar o jogo entre os Estados Unidos e a Bélgica”, começa por dizer o comunicado.

    A federação belga refere que mesmo que a FIFA se escude no artigo 27 do código disciplinar, o artigo 66.4 do mesmo código “estabelece claramente que um cartão vermelho resulta automaticamente numa suspensão para o jogo seguinte da equipa, tal como aconteceu em todos os anteriores cartões vermelhos mostrados durante este Campeonato do Mundo”.

    O organismo traz ainda à discussão o Regulamento de Competição do Mundial de 2026, onde o artigo 10.5 sublinha que “se um jogador ou um membro da equipa técnica for expulso na sequência de um cartão vermelho direto ou indireto, ficará automaticamente suspenso para o jogo seguinte da sua equipa” e que, “além disso, poderão ser aplicadas sanções adicionais”.

    Face à forte discordância, e com o objetivo de “salvaguardar os direitos legítimos de todas as equipas participantes e proteger os princípios fundamentais do fair play” do futebol, “tanto neste Mundial como em futuras edições da competição”, a federação belga “está a analisar todas as opções possíveis”.

    Emilee Chinn - FIFA

    No domingo, em conferência de imprensa, Mauricio Pochettino, treinador dos Estados Unidos, aplaudiu a decisão. “Para mim o futebol tem de celebrar, porque se algo de injusto acontecer, sabem agora que é possível reverter a decisão”, apontou o técnico argentino, que defendeu que Balogun nunca deveria ter recebido cartão vermelho já que a decisão do VAR de chamar o árbitro aconteceu “depois de ver a situação em câmara-lenta, que nunca é a realidade do que aconteceu no relvado”.

    O selecionador dos Estados Unidos foi depois questionado se era a favor de políticos intercederem na FIFA sobre decisões específicas. ”Não, não podemos misturar isso”, apontou, reforçando, no entanto, que a decisão de apagar a suspensão de Balogun ”foi da FIFA”.

    Num Mundial marcado por questões de geopolítica, que levou, por exemplo, a um lamentável tratamento da seleção do Irão, obrigada a estagiar no México e estando apenas autorizada a viajar para os Estados Unidos para os jogos, volta a ser tema a relação de proximidade entre Gianni Infantino e Donald Trump, até agora silencioso sobre questões do Campeonato do Mundo.

    O presidente dos Estados Unidos foi agraciado, em dezembro, com o recém-criado (ou criado à medida) Prémio da Paz da FIFA. Desde o início do Mundial que Donald Trump havia assumido uma postura de distância da prova. Mas quando chegou, chegou com estrondo.

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