• Suécia
    18:0020 JUN
    5
    1
    Grupo F
  • Mundial 2026

    Uma tempestade de futebol abateu-se sobre o Azteca. Inglaterra saiu de lá com vida para continuar num Mundial que terá saudades do México

    Bellingham bisou no 3-2 inglês
    Bellingham bisou no 3-2 inglês
    Julian Finney - FIFA

    Num candidato a melhor jogo do ano, a equipa de Tuchel derrotou (3-2) um dos co-anfitriões, marcando confronto frente à Noruega nos quartos de final. O jogo teve começo adiado devido à meteorologia, mas a espera valeu a pena, com golos, penáltis, uma expulsão e incerteza. Com 10 desde os 54', a resistência inglesa prevaleceu

    Uma tempestade de futebol abateu-se sobre o Azteca. Inglaterra saiu de lá com vida para continuar num Mundial que terá saudades do México

    Pedro Barata

    Jornalista

    O futebol é infinito, o Azteca é infinito. É incrível como o jogo mais popular da história da humanidade vive aqui como se instalado num habitat perfeito, o ambiente ideal, um espaço desenhado para isto.

    Querem entretenimento? Metam um México-Inglaterra neste altar do futebol. Não se vão desiludir.

    A vitória, por 3-2, dos vice-campeões da Europa foi um prémio a um exercício com várias fases. Houve o reverter da superioridade inicial dos locais, houve eficácia, com três golos em seis finalizações, e houve resistir. Resistir muito tempo. Com 10 desde o vermelho a Quansah aos 53', numa contenda que chegou para lá dos 10 minutos de compensação, durante largos minutos os de branco montaram uma muralha à frente da sua baliza. Tiveram prémio, acabando de joelhos, mais do que festejando, respirando de alívio, exaustos física e emocionalmente.

    O México, representado pelas lágrimas lendárias de Ochoa, em pranto solitário, cai com dignidade de um Mundial que foi mais Mundial pelo contributo desta equipa.

    Uma tempestade adiou uma hora o arranque da eliminatória, um problema para quem, deste lado do Atlântico, batalhava com o sono para assistir à partida. Mas, mal o jogo finalmente principiou, viveram-se minutos de encontro de elevada emoção.

    Poucos locais na história do futebol apresentam o livro de registos emotivos do Azteca. Por este relvado sagrado passaram lendas atrás de lendas, aqui consagraram-se Pelé e Maradona. A remodelação realizada, ao contrário do que tantas vezes sucede, não lhe retirou um pingo de carisma, singularidade e imponência. Infelizmente, o Mundial 2026 não voltará ao gigante da Cidade do México.

    Bellingham faz o 1-0
    Julian Finney - FIFA

    A equipa de Javier Aguirre, agressiva, causou desde cedo muitos problemas aos ingleses. Raúl Jiménez forçou Pickford a uma primeira boa intervenção, com os homens de Tuchel a terem muitas dificuldades para, nos primeiros 36', se aproximarem da outra baliza com perigo.

    Subitamente, Inglaterra descobriu os caminhos do golo. Não ameaçou, não prometeu, tratou logo de fazer, navegando nas águas agitadas em que a partida mergulhou, com cinco golos, um vermelho e dois penáltis entre os 36' e os 68', a tempestade a chegar ao relvado.

    Primeiro foi Saka a tricotar na direita, conseguindo ganhar espaço para cruzar. O Azteca é palco para grandes personalidades e entrou a energia de personagem principal de Bellingham, um médio com alma de avançado que, na verdade, vive em campo como um protagonista, central para a narrativa. Saka cruzou, Jude, cabeceou, 1-0, primeiro golo que os co-anfitriões encaixavam no Mundial.

    Até àquele momento, Kane só tocara três vezes na bola. O quarto toque foi para levar um contra-ataque para os pés de Bellingham, assistindo o jogador do Real Madrid para o 2-0. Dois minutos, gois golpes nas ambições do México, que no entanto demonstrou sempre uma incapacidade de desistir, de ficar estatelado no chão, por muito ensaguentado que estivesse.

    O primeiro dos vários retornos mexicanos à vida foi aos 42'. Na sequência de um livre lateral, Konsa assistiu involuntariamente Julián Quiñones, que fuzilou Pickford. Com as bancadas desta arena a testarem os limites do ruído, o segundo tempo chegaria com incerteza quanto ao vencedor.

    O Azteca em noite de tempestade
    MB Media

    A altitude do Azteca, a cerca de 2240 metros acima do nível médio das águas do mar, recebeu de volta uma montanha-russa. Aos 54', Quansah foi apanhado pelo VAR a realizar uma entrada dura, daquelas que ficam feias na imagem parada do vídeo. Cartão vermelho.

    Antes de haver um assentar de poeira, os ingleses tiveram um fundamental 3-1, com Kane a converter um penálti sofrido pelo veloz Gordon. Assentar a poeira? Nada disso, novo penálti, Jiménez a reduzir para o 3-2.

    Tuchel, com olhos que parecem prontos a saltar das órbitas, cheio de energia, deu ordem para fechar a porta. Sem pudores, abdicou de atacar e encheu a equipa de defesas, lançando Dan Burn, que parecia o homem mais alto do mundo entre a floresta de corpos diante de Pickford.

    O México perdeu-se em cruzamentos e bolas bombeadas para a área. Não houve ideias claras para desmontar o muro de Tuchel. Cada bola perdida em centros demasiado largos sugava a vida dos adeptos nas bancadas.

    No final destas duas horas de altos e baixos, de futebol no fio da navalha, de futebol no grande palco do futebol, ouviu-se o “Wonderwall”, a canção-símbolo desta Inglaterra. A Noruega aguarda, o México não chegará a jogar o Mundial fora de casa.

    Tem alguma questão? Envie um email ao jornalista: tribuna@expresso.impresa.pt