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  • Mundial 2026

    A Argentina usou todas as suas superstições para arrancar a reviravolta mais impressionante deste Mundial

    Messi a festejar o golo do empate da Argentina
    Messi a festejar o golo do empate da Argentina
    NurPhoto

    A 10 minutos do fim do jogo com o Egito, a Argentina perdia por 2-0, jogava mal e tinha as malas à porta. Mas é difícil quebrar a alma da Scaloneta: Romero, Messi e Enzo fizeram a reviravolta num jogo de emoções explosivas, que deixou meia equipa argentina em lágrimas após o apito final. Os campeões do mundo limparam a suas próprias borradas, venceram por 3-2 e estão nos quartos de final do Mundial

    O argentino é um tipo de superstições, de cabalas como dizem por lá. Vestir a mesma camisola do jogo anterior, se deu vitória, é coisa de principiante. É preciso repetir o dia, momento por momento; sentar-se no mesmo sítio em que se estava no instante do golo, ficar de pé se, por acaso, aconteceu levantar-se para ir à casa de banho e houve golo. Promessas à Virgen de Luján também se usa.

    Na sexta-feira, com Cabo Verde, já foi preciso desbaratar algumas dessas cabalas. Esta terça-feira, com o Egito, foi necessário usá-las todas, uma por uma, todas as cabalas do cardápio, para no final chegar o rio de lágrimas que Lionel Messi limpou à camisola albiceleste, tornando literal o que tantas vezes usamos como metáfora.

    Talvez seja essa a grande força da seleção argentina neste Mundial, tornar os recursos estilísticos coisas reais, usar a quase tragédia como gasolina, abraçar a tensão que se ouve a explodir nos corpos e nos olhos de cada um daqueles jogadores, talvez não em estado de graça como há quatro anos no Catar, não de rosa na boca a dançar em San Telmo, mas com uma faca nos dentes, cheios de um qualquer coração que não cessa de bater.

    Frente ao Egito, a Argentina ultrapassou de tudo até à vitória final, por 3-2, que a coloca nos quartos de final do Mundial. Primeiro um guarda-redes, Mostafa Shobeir, rapaz de Gizé, forte como uma pirâmide, nada esfíngico, que tudo salvou na 1ª parte. Já com o Egito em vantagem, depois de marcar logo aos 15’, com Yasser Ibrahim a responder a um cruzamento tenso de Attia, lance que os africanos já vinham a trabalhar, Shobeir defendeu um penálti a Messi, o segundo que Lionel falha neste Mundial, o terceiro falhado nos últimos seis. Há resquícios de humanidade no rosarino.

    Shobeir a travar o penálti de Lionel Messi
    Martin Rickett - PA Images

    Tirou depois o golo a MacAllister, a entrar de rompante na área para responder a um cruzamento de De Paul, num raro lance de futebol exterior da Argentina, e seria novamente decisivo quando Alvarez respondeu de primeira a cruzamento também ele de primeira de Tagliafico, numa defesa que estará entre as mais impossíveis do Mundial. Antes disso, Messi, para quem um livre é mais fácil que um penálti, tinha enviado uma bola ao poste.

    Parecia então uma questão de tempo, embora as cabalas argentinas não acreditem nessas coisas de lógica. A segunda parte dos campeões mundiais foi fraca, como fraco foi grande parte do jogo com Cabo Verde, com a diferença que o Egito defendia pior. A desinspiração era plena, o Egito rodeava Messi e blindava o corredor central onde todos aqueles jogadores se sentem em casa.

    No drama literário de quem é fatalista de nascimento e cultura, a Argentina foi toda para a frente. E acabou punida. Aos 58', em transição, Haissem Hassan passou em drible por dois argentinos - sacrilégio dizer que foi uma jogada maradoniana, mas quase -, deixou para Salah, que encontrou Zico sozinho na área. A bola entrou, mas havia falta no início da jogada sobre Lisandro.

    Salvos pelo VAR, a Argentina não se salvaguardou do aviso e, pouco depois, com quase toda a equipa no meio-campo do Egito num canto, voltou a ser apanhada em contra-pé, num lance com os mesmos protagonistas: aqui foi Salah a conduzir e Hassan a encontrar Zico na área, para o escandaloso 2-0.

    A campeã mundial estava em risco de cair e não mostrava futebol para sair do buraco. As cabalas já estariam a fazer muitos começarem a imaginar onde estavam quando Zico, o outro Zico, o brasileiro, marcou à Argentina no Mundial de 1982, num jogo em que Maradona acabou expulso.

    Muitos milhões de argentinos terão feito o contrário do que fizeram nesse dia, porque daí para a frente a equipa de Scaloni ligou o turbo, deu o coração ao jogo. E apareceu Messi.

    Messi em lágrimas no final do Argentina-Egíto
    Patrick Smith - FIFA

    A perder por dois a 10 minutos do fim, foi Cuti Romero a dar início à mais impressionante reviravolta deste Mundial, de cabeça, a passe de Messi, deslocado para a direita, de onde pouco depois saiu novo cruzamento desaproveitado por Lautaro. Teria de ser o número 10 a tomar para si a responsabilidade do virar da história. Aos 84’, fechou um lance feio, de insistência, com um lindo semi-vólei, a retornar a beleza ao jogo. Estava feito o empate, explodiam as bancadas, funcionavam todas as superstições.

    O Egito, honrosamente, e depois de tamanho baque, foi à procura do golo e o jogo tornou-se previsivelmente partido, caótico, fatal para os faraós quando Julian Alvarez lançou Lautaro com um remate de costa a costa para a direita, com o avançado do Inter a temporizar bem a chegada à área de Enzo Fernández, que confirmou a camalhota já nos descontos com um subtil cabeceamento.

    Tudo parece um drama ambulante quando o assunto é Argentina, no sofrimento de aguentar frente a Cabo Verde, na luta para voltar ao jogo esta terça-feira, na forma como gente em dia não (Enzo, por exemplo) se tornou heróica. Se na sexta-feira, a equipa acabou aliviada, tão envergonhada com a sua exibição que praticamente não festejou, quando soou o apito final em Atlanta esta tarde houve uma explosão de quem se viu fora e conseguiu voltar à tona.

    Muita gente rebentou gritando, dançando, abraçando os colegas. Outros, como Messi, simplesmente não conseguiram conter uma cachoeira de lágrimas. Ficou imóvel, parado, sem conseguir reagir. Os colegas pegaram-no em ombros, elevaram-no aos céus. Mais uma vez, foi decisivo. Scaloni não conseguiu falar na zona de entrevistas, tal o tamanho do nó na garganta, sendo rendido pelo adjunto Ayala, que também acabou a entrevista rápida em lágrimas, agradecendo o coração dos seus jogadores, a reação de uma equipa que parece precisar do limbo para ir ao fundo da sua alma buscar as derradeiras forças.

    Não sei se sabe se dará para ganhar o Mundial, mas para bater esta Argentina vai ser preciso quebrar-lhes o âmago. E eles vão resistir como puderem.

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