Frente à Inglaterra das metamorfoses, todos os minutos são longos
Bellingham festeja com Rogers depois do segundo golo de Inglaterra
Anadolu
Esta Inglaterra conhece bem as fases decisivas das grandes competições e está de novo numas meias-finais, depois de derrotar a Noruega por 2-1, com o golo da vitória, um de dois de Jude Bellingham, a surgir no prolongamento. Foi aí, e com a ajuda do banco, como tantas vezes tem acontecido na prova, que a equipa de Thomas Tuchel voltou a tomar conta de um jogo cujo controlo perdeu a partir do final da 1ª parte. Mas esta seleção sabe resistir e renovar-se em pleno jogo
Longos 120 minutos no calor de Miami foram necessários para Inglaterra voltar às meias-finais de um Mundial, depois do 4º lugar de 2018, na Rússia. E, frente a esta Inglaterra, longos serão todos os minutos, porque está aqui uma equipa de resistência e de recomeços: frente à Noruega, a equipa de Thomas Tuchel nem sempre foi a mais forte, a mais perigosa, a mais organizada, a mais rápida nos processos. A Noruega assustou, esteve em vantagem, Schjelderup marcou um dos golos do torneio. Mas, no banco, Inglaterra tem um dos grandes estrategas em movimento e jogadores capazes de entrar e revigorar o curso da história.
Ganhou por 2-1, com o golo da vitória a surgir já no prolongamento por um Jude Bellingham que chegou a tempo de ser figura no Mundial. Mais uma vez, Inglaterra refez-se.
Uns quartos de final do Mundial já é momento por demais solene e daí talvez o risco quase zero das duas equipas até à primeira paragem desta vez sim para hidratação, tal o calor e humidade em Miami. Antes disso, apenas um par de aproximações algo trapalhonas de Inglaterra, sem verdadeiro perigo.
Levando a sério a americanização do jogo, no segundo quarto o encontro mudou de cara: a iniciativa deslocou-se para o campo norueguês, que deu o primeiro sinal com um incomum cabeceamento frouxo de Haaland, pouco depois da meia-hora. Foi o prelúdio de um momento de dúvida e espanto. Ficará talvez para sempre com Andreas Schjelderup a sua verdadeira intenção no lance que abriu o marcador. Queria servir Haaland na área? Ou encheu-se verdadeiramente de fé?
Nisto dos golos, os propósitos importam, que ninguém duvide, mas a imagem que fica é um remate de pé esquerdo, quase sem ângulo, a viajar por cima de Pickford, que parece ter confiado demasiado no golpe de vista. A bola bateu nos ferros antes de entrar e o jogador do Benfica, talvez impressionado, quiçá incrédulo com o que acabara de fazer, quem sabe na dúvida sobre uma possível falta sobre Kane no início da jogada, festejou com tranquilidade nórdica. Foi preciso Martin Ødegaard - verdadeiro pêndulo do jogo na altura - levantá-lo em ombros para Schjelderup entender o tamanho da façanha.
Andreas Schjelderup a festejar o primeiro golo da Noruega-Inglaterra
Justin Setterfield
O golo fez bem ao jogo, abalou as estruturas inglesas, até então demasiado lentas no momento ofensivo. Abriu também espaços que a Noruega por pouco não aproveitou. Alexander Sørloth rematou à meia-volta entre um par de adversários, para irritação de Pickford, apesar do guarda-redes ter o lance controlado. O avançado do Atlético Madrid que, minutos depois, e com Haaland a colocar-se a jeito para ficar isolado, nada decidiu, nem passe nem remate e, por isso, naturalmente, perdeu o lance.
Do outro lado, e já nos descontos da 1ª parte, funcionava finalmente o lado esquerdo: Elliot Anderson combinou com Anthony Gordon, com o futuro jogador do Barcelona a encontrar a chegada de rompante de Jude Bellingham à entrada da área. A receção é meio golo, a tirar o marcador direto da jogada, com o médio do Real Madrid a rematar depois de pé esquerdo para a baliza. Ainda antes do intervalo, Bellingham lançou Harry Kane, que picou com classe por cima de Nyland, mas estava em fora de jogo.
Bellingham a marcar o golo do empate de Inglaterra
Elsa
Ficaria mais estranho, nervoso e indefinido o jogo na 2ª parte. Magnus Carlsen, grande mestre do xadrez presente nas bancadas, teria dado jeito lá dentro para trazer alguma estratégia ao jogo. Thomas Tuchel lançou Eze e Saka ao intervalo por Rice e Madueke, passando uma mensagem de controlo ofensivo que a Inglaterra nunca conseguiria ter daí até ao final dos 90 minutos, sofrendo nas bolas paradas, momento que a Noruega aproveitou para causar uns quantos calafrios à seleção dos Três Leões.
Foi assim que a bola entrou na baliza de Pickford, aos 55’, num golo que seria anulado depois de um chega-para-lá mais enérgico de Erling Haaland, com a Noruega a enviar ainda uma bola à trave após canto, por Ajer. As entradas de Nusa e Oscar Bobb para as alas davam sinais definitivos da vontade de Stale Solbakken em arriscar. A Inglaterra só faria a Noruega suspirar já perto do fim do tempo regulamentar, com Frederik Aursnes a cortar no momento certo um cruzamento que magneticamente já ia ao encontro dos pés de Eze e Kane.
O prolongamento traria nova mudança na dinâmica do jogo e daria força à ideia já construída nos últimos jogos de que Thomas Tuchel levou para o outro lado do Atlântico gente capaz de mexer vinda do banco. Djed Spence e Morgan Rogers, entrados nos últimos minutos do tempo regulamentar, trouxeram energia aos vice-campeões da Europa numa fase já de grande desgaste do meio-campo norueguês, onde Solbakken mexeu pouco.
Um jogo de luta para Erling Haaland
Bradley Collyer - PA Images
É de Rogers o remate forte, ainda bem no início do tempo extra, que Nyland defende para a frente e que Bellingham aproveita, afoito, para transformar no 2-1, bem nas barbas de Ostigard, acabado de entrar. Já na segunda parte, uma iniciativa de Spence permitiu duas importantes defesas consecutivas a Nyland, primeiro ao remate do jogador do Tottenham e depois à recarga de Saka. A Inglaterra voltava à vida no momento certo.
E a tempo de voltar a uma das fases decisivas de uma grande competição, onde vai estando quase consecutivamente nos últimos anos. Sempre a bater à porta do triunfo final, nunca a entrar. Nesta geração, já houve momentos de maior fulgor futebolístico (Mundial 2018 e Euro 2020 à cabeça), mas talvez nunca esta capacidade de resistir e se renovar em pleno jogo. It’s coming home?