• Suécia
    18:0020 JUN
    5
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    Grupo F
  • Mundial 2026

    Quando não houve Messi, a Argentina teve o milagre de Julián Alvarez para chegar às meias-finais do Mundial

    Mais um milagre argentino na fase a eliminar do Mundial
    Mais um milagre argentino na fase a eliminar do Mundial
    Robbie Jay Barratt - AMA

    Foi mais um jogo em modo ato de fé da Argentina neste Mundial, como se as vitórias não pudessem ser apenas vitórias, mas provações constantes. A jogar com mais um desde o minuto 72, só um momento de inspiração de Álvarez no prolongamento permitiu que a campeã em título batesse a Suíça por 3-1, numa jornada em que o milagre, por uma vez, não chegou da canhota de Messi

    Depois das vitórias agónicas frente a Cabo Verde e Egito, ficaram as questões. Muitas questões. Os triunfos argentinos chegaram de um lugar profundo da alma de um país que teve de aprender a saber perder em tudo, menos no futebol.

    Mas, num desporto jogado por duas equipas, nem sempre um coração cheio é suficiente.

    O que valeria afinal esta Argentina frente a uma equipa organizada, sólida como a Suíça, taticamente disciplinada, um cliché futebolístico da imagem do seu país? A entrada a medo da Argentina terá respondido a algumas dessas perguntas. A estratégia após um golo madrugador retorquiu muitas outras. Mais um jogo resolvido no prolongamento conta o resto: a Argentina está nas meias-finais do Mundial entregando-se de novo, de corpo e alma, à possibilidade do milagre, que esta noite não se chamou Messi mas sim Julián Álvarez.

    Até quando esta sucessão de fenómenos quase esotéricos é sustentável? A Inglaterra será a próxima equipa a tentar baixar a Argentina à terra.

    Mas vamos, então, ao início. A cabeça de Alexis MacAllister deu sequência a um canto de Messi, tinha o jogo 10 minutos, 10 minutos de bola nos pés helvéticos e de um certo pânico cénico argentino, sem resposta para a intensidade e pressão bem afinada do adversário, a ganhar as segundas, terceiras, quartas bolas, quanto mais houvesse. Dibu Martínez não poucas vezes era obrigado a jogar direto, à procura de desmarcações que nunca surgiam, confiando num jogo que os argentinos desmerecem. E o ritmo alto, sabe-se, nunca foi do agrado dos argentinos.~

    MacAllister festeja o golo que abriu o marcador em Kansas City
    Icon Sportswire

    Depois do cabeceamento afoito de MacAllister, a Argentina tentou meter mais gelo no jogo do que aquele que há no Perito Moreno, procurando gerir os ritmos, quanto mais a passo melhor, controlando desde trás, trocando a bola durante largas sequências de passes entre Paredes e os quatro defesas, tentando cheirar um pequeno espaço para romper a pressão adversária. A Suíça, com bola, era inofensiva - Lisandro Martínez e Cuti Romero estiveram quase sempre irrepreensíveis -, mas sem bola condicionava na perfeição as tentativas de saída de bola albiceleste, com referências bem definidas.

    O crescimento dos helvéticos foi uma consequência dessa superioridade coletiva. A Argentina, algures na 1ª parte, entregou a bola, como que procurando as vantagens de um jogo feio: segurança lá atrás e talvez surgisse uma transição. Enzo baixou então para ajudar um incansável Paredes e a Argentina assumiu a organização defensiva, um território algo inóspito para os campeões mundiais. O golo cedo não fez bem a uma Argentina já de si conservadora nas opções e no risco.

    A 2ª parte começou com Molina a desaproveitar um dos únicos momentos em que a albiceleste conseguiu avançar na vertical: lançado por Messi, optou pelo remate quando tinha Julián Álvarez em boa posição na área. Não se multiplicariam oportunidades destas. O jogo, entretanto, metia-se complicado para João Pinheiro, que nem sempre conseguiu resistir a apitar demasiado, num jogo truculento e pouco fluído de parte a parte.

    Ndoye a fazer o empate no Argentina-Suíça
    Michael Regan - FIFA

    A partir da hora de jogo, cresceu a Suíça. Ndoye assustou uma primeira vez a Argentina. Com o corredor central engarrafado, encontrou espaços na largura, com Dibu a responder com uma defesa segura, como segura foi a parada ao remate de longe de Xhaka que se seguiu. Aos 68’, apareceu o golo que já se adivinhava: na esquerda, Ndoye triangulou com Ricardo Rodríguez e rematou cruzado, com a bola a passar por entre as pernas de Martínez.

    Aqui, chegou a encruzilhada para a Argentina: gerir ou arriscar? Embolo ajudou: quando a Suíça tinha tudo para aproveitar o momentum, o avançado simulou uma falta e acabou expulso por acumulação de amarelos, uma daquelas infantilidades que não se aceitam em tempos de VAR.

    Ainda assim, abrindo-se a janela de oportunidade de jogar frente a uma equipa em inferioridade, Lionel Scaloni manteve-se irredutível, optando pelas suas trocas habituais, esquecendo a frescura que tem no banco. Num jogo que talvez pedisse Simeone, entrou, como sempre, Nico González. Lionel Messi não estava bem no jogo: não viria dali o milagre, que até os extraterrestres têm direito a um dia não. O jogo da Argentina, mesmo em vantagem, em um conjunto de previsíveis ações no ataque, com Nico como passagem intermédia até a bola parar inevitavelmente nos pés de Messi.

    Depois de uma derradeira oportunidade de Lisandro Martínez, talvez a única a obrigar Kobel a brilhar ao longo dos 90 minutos, o prolongamento apareceu como uma sanção: um jogo feio, tático de um lado, ato de fé do outro, merecia ficar assim mesmo, num empate infinito.

    Mas alguém tinha de passar.

    E no tempo extra Scaloni arriscou finalmente algo, lançando Thiago Almada. Foi do médio do Atlético Madrid que saíram as primeiras bolas de perigo do prolongamento, mas o milagre da insistência, mais do que qualquer tipo de organização ofensiva, sairia dos pés de Julián Álvarez.

    Dibu Martínez em ação na área da Argentina
    Julian Finney - FIFA

    A oito minutos do fim, o avançado recebeu uma bola sem pressão de Flaco López, bem a arrastar homens consigo e, na esquerda, rematou em arco, com a bola a ir encaixar-se entre Kobel e o cantinho mais afastado da baliza helvética - não foi um Sidny Lopes Cabral, mas o resultado foi o mesmo. Já nos últimos segundos, e com a Suíça completamente balanceada para o ataque, em busca de novo empate, Lautaro faria um demasiado pesado 3-1, na recarga a uma bola que Almada, isolado num contra-ataque, não conseguiu transformar em golo.

    E assim, novamente sem qualquer racionalidade que não seja o talento dos seus jogadores para encontrarem uma réstia de forças, a Argentina vai avançando. Milagre após milagre, complicação atrás de complicação, como se ganhar não pudesse ser simplesmente ganhar mas sim uma provação constante. Com uma diferença: frente a Cabo Verde e Egito, a Argentina ganhou porque era o conjunto de jogadores mais forte.

    Frente à Suíça, por vezes, pareceu apenas circunstância, um momento de sorte, um pouco merecido presente. Mas os campeões também são feitos desta matéria.

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