• Suécia
    18:0020 JUN
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    Grupo F
  • Mundial 2026

    O jogo do século provou que na Argentina não se nasce para viver, nasce-se para sofrer. Se for por futebol, melhor ainda

    O alívio de Enzo Fernández ao ver a Argentina chegar ao empate. O melhor estava por chegar
    O alívio de Enzo Fernández ao ver a Argentina chegar ao empate. O melhor estava por chegar
    Shaun Botterill/Getty Images

    Apresentamos a mais breve história do futebol da Argentina. A albiceleste voltou a estar virtualmente eliminada do Mundial, mas com tantas emoções até os mortos ganharam vida. Aos 85’, a equipa de Scaloni estava a perder por 1-0 contra a Inglaterra, mas marcou dois golos em sete minutos para completar uma reviravolta épica (2-1) que a colocou na final, onde vai defender um título que é seu frente à Espanha

    Esqueçam a estratégia. Provavelmente, Lionel Scaloni deu a palestra antes do jogo junto das alminhas que a Argentina tem no balneário e não ao lado do quadro tático. É que nas superstições ninguém ganha a esta equipa que pediu à FIFA para jogar de azul escuro, porque assim aconteceu nas duas vezes em que tinha eliminado a Inglaterra (1986 e 1998). E perguntem a Enzo Fernández a razão para ter usado as mesmas chuteiras que calçou durante o Mundial 2022 conquistado pela Argentina…

    As ordens para acreditar em coincidências vinham do topo da hierarquia. Scaloni lançou Giuliano Simeone no onze inicial convencido de que o filho ajudaria tanto como o pai a superar a Inglaterra. Diego Simeone, em 1998, arrancou uma expulsão a David Beckham (figura central da transmissão televisiva), encaminhando a passagem da Argentina. Honra seja feita às fezadas.

    Não é preciso gastar muitas páginas para escrever a história do futebol argentino. Se alguém perguntar por ela, mostrem a meia-final do Mundial 2026. Aos 85 minutos, a albiceleste estava a perder por 1-0 contra a Inglaterra. Aos 90+2’, já vencia por 2-1. Na Argentina, não se nasce para viver. Nasce-se para sofrer e se for por futebol melhor ainda.

    As colunas do estádio não foram assim tão incompetentes. Os hinos não se ouviram bem, porque os adeptos os assobiaram. A invasão de campo foi imediata. Nenhum adepto saltou para dentro do relvado, apenas a animosidade que deles brotava contagiou quem andava lá dentro.

    Jogo de tensão máxima levou a conflitos entre os jogadores
    Richard Pelham

    A cobertura do estádio de Atlanta correu riscos sérios de ruir. A tampa saltou a muita gente e a tensão sem limites podia ter causado danos estruturais. Entradas duras, protestos, suplentes e equipas técnicas de pé. Se alguém desse aos intervenientes uma tela em branco para se expressarem, talvez usassem os pincéis para a esburacarem. Não há que esconder que, ao nível da execução, foi grosseiro. Afinal, além da luta por defrontar a Espanha na final, decorria um ajuste de contas com o passado.

    Se o futebol tivesse um momento fundador que não o que a cronologia estabeleceu, por certo seria o Argentina-Inglaterra de 1986. Valham-nos os relatos, as testemunhas, os documentos que provam que tudo aquilo não foi apenas um mito. Os jogadores eram pessoas, não soldados em cima de cavalos alados. O Estádio Azteca era um lugar na Terra, não um templo erguido nas nuvens. Com todo o respeito pelo que veio antes, pelo que veio depois e pelo que ainda virá, a plenitude aconteceu ali.

    Devido ao desespero que sentiram pela morte de 649 dos seus pibes na Guerra das Malvinas, os argentinos foram indemnizados em justiça poética. A mão de Deus foi o opróbrio dos ingleses, que arredaram brutalmente do território em disputa os instrumentalizados pela ditadura e pouco preparados soldados sul-americanos.

    A rivalidade tem várias pontas por onde se lhe pegue. Quase nunca o futebol é só um jogo e quando Argentina e Inglaterra se enfrentam, mesmo 40 anos depois, temos a certeza disso.

    Os jogadores demoraram três minutos a engalfinhar-se. Após Enzo Fernández se fincar em Elliot Anderson, os blocos de argentinos e ingleses empurraram-se naquilo que no râguebi - desporto em que ambos os países são competentes - seria uma formação ordenada.

    Thomas Tuchel preparou a Inglaterra para a animosidade. A Declan Rice e Elliot Anderson juntou um terceiro trator, Morgan Rogers, sempre conveniente para, a partir da direita, fazer o trabalho gregário a que a Argentina obrigava.

    O relvado parecia não ser liso e o jogo desenrolou-se aos solavancos. A bola estava em disputa pouco tempo, sendo a fluidez imediatamente travada por uma entrada agressiva. As faltas exigiam que o árbitro as justificasse perante os juízes-jogadores, o que tardava a retoma.

    A albiceleste ficou especialmente nervosa quando Lionel Messi iludiu três adversários e, ao quarto que tentava enganar, foi aparatosamente visado por um irascível entrada de Elliot Anderson. Os seguranças do astro saíram logo em defesa do seu protegido.

    O momento em que tudo parecia perdido para a Argentina
    Buda Mendes

    Com tantas batalhas a decorrerem ao mesmo tempo, as balizas ficaram a salvo de ameaças. Nem mesmo o remate longínquo de Enzo Fernández retirou essa fama à primeira parte, cenário que se alteraria na segunda.

    Julián Alvarez é especialista em fazer remates aparentemente desmiolados passarem pelas pernas que, sem efeito, tentam perturbar a trajetória. Mesmo muito incomodado, conseguiu rematar para defesa de Pickford. Era um sinal da maior pujança da Argentina, momento que seria interrompido.

    Harry Kane é mais do que a sua aparência de figura estanque e sólida. Contrariando o que transmite a sua imagem, como em tantas outras ocasiões, recuou para inebriar a defesa com um passe longo. A desorganização gerada na albiceleste permitiu que, com as sobras, Morgan Rogers fizesse um cruzamento que encontrou Nahuel Molina em estado de sonolência. Nas costas do defesa, Anthony Gordon marcou.

    Para a seleção dos Três Leões, a partir daí, tratou-se de sofrer. A carapaça montada em frente à área foi insuficiente. Ezri Konsa, Dan Burn e Nico O’Reilly foram jogadores lançados para que a crosta defensiva não cedesse, o que estava a ser um problema mesmo com cinco defesas e um médio defensivo. Qualquer bola enviada com critério para o interior da área causava dano. Nico González teve duas grandes oportunidades às quais se somou um cabeceamento de Alexis Mac Allister ao poste.

    A Inglaterra limitou-se a defender nos minutos finais e Lautaro Martínez conseguiu aquilo que parecia impensável
    Marvin Ibo Guengoer - GES Sportf

    Claro que o empate teria que ser marcado pelo tipo que calçou umas chuteiras especiais para se inspirar. O momento do golo foi de alguém que estava nos seus dias. De fora da área, Enzo Fernández estourou as redes.

    E se tornássemos isto ainda mais épico, muchachos? O jogo teve nove minutos de compensação (amplamente ultrapassados), mas em apenas dois a eliminatória tinha virado. O pé direito de Messi assistiu Lautaro Martínez para um feito surreal.

    A Argentina está em condições de se tornar no terceiro país a ganhar duas vezes consecutivas o Mundial, depois de Brasil e Itália. Foi encaminhada para essa hipótese pelo jogo do século. Não se tratou da primeira vez que a equipa de Scaloni esteve virtualmente fora do torneio, mas com tantas emoções até os mortos renascem.

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