A poucas horas de Argentina e Espanha discutirem o título mundial, uma imagem com quase 19 anos voltou a inundar as redes sociais. Nela, um Lionel Messi ainda imberbe, de 20 anos, sorri enquanto dá banho a um bebé com meia dúzia de meses, numa pequena banheira azul. Esse bebé era Lamine Yamal, o mesmo que vai tentar travar o argentino na final do Mundial 2026. Durante anos, muitos garantiram tratar-se de uma montagem ou de uma criação feita por inteligência artificial. Não é. A fotografia é genuína e a história por trás dela possui um enredo de acaso e solidariedade.
Tudo aconteceu em dezembro de 2007, numa sessão fotográfica organizada pelo “Sport“, em parceria com a Fundação do Barcelona e a UNICEF, para um calendário de beneficência em que participaram vários jogadores do plantel blaugrana. A ideia era simples: famílias humildes seriam sorteadas para posar, junto dos seus filhos pequenos, com um futebolista do clube catalão.
Os pais de Lamine Yamal, Mounir Nasraoui e Sheila Ebana, que trabalhavam como pintor de construção civil e empregada de mesa, respetivamente, entraram nesse sorteio depois de uma iniciativa da UNICEF, em Rocafonda, o bairro de Mataró onde a família vivia. Ganharam o prémio: uma visita ao Camp Nou para fotografar o filho, então com seis meses, ao lado de um jogador do Barcelona. Podia ter calhado a qualquer nome do balneário blaugrana daquela época. Calhou a Messi.
O fotógrafo responsável pela sessão, Joan Monfort, recorda que a escolha não teve nada de planeado. “A casualidade uniu-os, a fotografia podia ter sido com outro jogador, mas foi com o Leo“, explicou Monfort, citado pela agência EFE. O próprio fotógrafo admite que, tempos depois, se a família tivesse podido escolher, talvez tivesse preferido posar com Ronaldinho, Xavi ou Iniesta, nomes bem mais consagrados na altura, do que um Messi ainda a dar os primeiros passos rumo à lenda em que se tornou.
Um Messi tímido e um pato de borracha
Segundo o testemunho de Oriol Canals, então responsável de marketing do “Sport“, o início da sessão não foi propriamente fácil. Messi, ainda muito jovem e longe da exposição mediática que o acompanharia mais tarde, mostrou-se pouco à vontade a segurar o bebé. Canals recorda o argentino como alguém “extremamente tímido, algo tenso e muito prudente“ naquele dia. A tensão dissipou-se quando Monfort recorreu a um pato de borracha para captar a atenção das duas figuras centrais da fotografia. O truque resultou: o bebé descontraiu-se e o próprio Messi acabou por relaxar perante a objetiva.
Anos mais tarde, o fotógrafo resumiria assim aquele momento improvável: “Não há dinheiro que pague uma fotografia como aquela“. Monfort recorda ainda que Yamal, mesmo com poucos meses, mostrou-se particularmente bem-disposto durante a sessão, ao ponto de ter conquistado o então jovem avançado argentino “em dois sorrisos“, segundo o relato do próprio fotógrafo.
Uma imagem esquecida durante quase 20 anos
Apesar do episódio insólito, a fotografia praticamente desapareceu do radar público durante quase duas décadas. Foi o próprio pai de Lamine Yamal quem a resgatou das gavetas da memória familiar, ao partilhá-la nas redes sociais, em 2024, durante o Campeonato da Europa que Espanha ganharia. Só nessa altura a imagem começou a circular com a intensidade que hoje conhecemos, à medida que o nome de Yamal ia ganhando peso no Barcelona e na seleção espanhola.
O próprio internacional espanhol reconheceu, mais tarde, que desconhecia por completo a existência da fotografia até o pai falar dela. Questionado sobre as comparações constantes com Messi, motivadas em parte por este episódio, Yamal foi direto: “Não creio que alguém se incomode por ser comparado com o melhor jogador de sempre, mas, no fim de contas, essas comparações acabam por nos prejudicar, porque nunca vamos ser como ele.”
Em entrevista à DAZN, ao rever a imagem, o avançado catalão comentou, com humor, que “cresceu um poucochinho“ desde então e confessou o desejo antigo de defrontar o argentino num jogo oficial, depois da Finalíssima (competição que oporia a Espanha à Argentina, mas que acabou cancelada devido a falta de acordo entre a UEFA e a CONMEBOL), não ter proporcionado esse encontro.
Messi, por seu lado, nunca comentou publicamente aquela sessão em concreto, mas já se referiu a Yamal em diversas ocasiões como um dos jovens futebolistas que mais lhe recordam o seu próprio início de carreira, além de o considerar já um dos melhores do mundo apesar da tenra idade.
O acaso que o futebol tornou profecia
Quase 19 anos depois daquele banho improvisado numa banheira de plástico no balneário visitante do Camp Nou, o destino volta a juntar os dois nomes, desta vez frente a frente, em campo, numa final de Campeonato do Mundo. Nas redes sociais, a fotografia foi rapidamente rebatizada como “o banho dos deuses”, numa alusão irónica ao que muitos veem hoje como um símbolo de transição geracional no futebol mundial: o antigo menino-prodígio argentino a passar, involuntariamente, o testemunho a um bebé que ainda mal sabia segurar a cabeça.
Lionel Messi e Lamine Yamal chegam à final do Campeonato do Mundo de 2026 em momentos de forma impressionantes, protagonizando um duelo de gerações em que o veterano argentino de 39 anos domina o plano ofensivo, enquanto Yamal assume-se como a principal arma de desequilíbrio da seleção espanhola. Resta agora saber se o guião, tão bem escrito pelo acaso em 2007, terá direito a um capítulo à altura este domingo, no MetLife Stadium.