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    Mais de 70 campeonatos nacionais, oito Ligas dos Campeões, mas quem vence o Mundial? Scaloni ou De la Fuente, homens de federação

    Scaloni e De la Fuente, finalista do Mundial, selecionadores titulados, sem experiência em clubes ao mais alto nível
    Scaloni e De la Fuente, finalista do Mundial, selecionadores titulados, sem experiência em clubes ao mais alto nível
    Anadolu

    O torneio encheu-se de grandes nomes do jogo de clubes, mas são dois homens sem passado ao mais alto nível fora dos conjuntos nacionais a chegar à final. Lionel Scaloni, selecionador argentino quase por acidente, nunca orientou uma equipa principal que não a albiceleste, enquanto Luis de la Fuente, há mais de uma década na estrutura de la roja, nunca trabalhou em clubes acima da terceira divisão

    Mais de 70 campeonatos nacionais, oito Ligas dos Campeões, mas quem vence o Mundial? Scaloni ou De la Fuente, homens de federação

    Pedro Barata

    Jornalista

    Houve uma romaria de técnicos de elevada reputação no futebol de clubes rumo aos Estados Unidos, México e Canadá. Com efeito, uma das tendências da antecâmara do Mundial 2026 foi a busca feita por várias seleções, procurando treinadores com fama disso mesmo, treinadores, não propriamente selecionadores, gente vencedora no quotidiano que transportasse essa cotação para o grande palco global.

    Assim, para obter o hexa, o Brasil virou-se para Carlo Ancelotti, o senhor Liga dos Campeões, vencedor das big 5 (Espanha, Inglaterra, França, Itália, Alemanha) europeias. Inglaterra, para deixar o 'quase', apostou em Thomas Tuchel, campeão europeu com o Chelsea, vice-campeão com o PSG, com uma Bundesliga no palmarés. A Alemanha, para esquecer os desgostos recentes, contratou Julian Nagelsmann, o jovem prodígio, bicampeão da Bundesliga. Os EUA, no grande verão do soccer, pagaram um salário milionário a Mauricio Pochettino, segundo na Champions com o Tottenham e campeão francês.

    O Mundial 2026 foi uma coleção de troféus dos clubes nos bancos. No total, os timoneiros das 48 seleções contabilizavam 71 campeonatos nacionais erguidos, com glórias para todos os gostos, numa lista de ligas ganhas que mais parece uma volta ao mundo: México, Coreia do Sul, Chéquia, Bélgica, Suíça, Áustria, Espanha, Itália, França, Inglaterra, Alemanha, Escócia, Rússia, Países Baixos, Japão, Egito, Irão, Cabo Verde, Argentina, Chipre, Dinamarca, Austrália, Angola, Marrocos, Emirados Árabes Unidos e Jordânia.

    Não só de êxitos internos se faz a história destes prestigiados treinadores de clubes. Há oito êxitos em Ligas dos Campeões neste lote, valor, claro, inflacionado pela mão-cheia de vezes que Carlo Ancelotti triunfou na maior competição de clubes da Europa. A juntar ao italiano há o título europeu de Thomas Tuchel com o Chelsea, o asiático de Toni Popovic, que dirigiu a Austrália, com os Western Sydney Wanderers e o da CONCACAF de Javier Aguirre, do México, com o Monterrey.

    A pegada alastra-se também às divisões de prata dos continentes, às segundas categorias: Julen Lopetegui, responsável pelo Catar, conquistou com o Sevilla a Liga Europa, prova equivalente à Taça Sul-Americana que Gustavo Alfaro, do Paraguai, deu ao museu do Arsenal de Sarandí e que sucedeu à Taça UEFA, obtida por Dick Advocaat (Curaçau) no Zenit.

    A relação entre Scaloni e Messi tem sido fundamental para os êxitos da Argentina
    Patrick Smith - FIFA

    As seleções convenceram técnicos com passado no Barcelona e Real Madrid, Milan e Juventus, Bayern e Ajax, Sporting e Benfica, Borussia Dortmund e Tottenham, Boca Juniors e Racing, Al-Nassr e Zamalek. Havia quatro ex-Chelsea (Ancelotti, Pochettino, Tuchel e Potter), confirmando que boa parte da humanidade com habilitações para tal já pisou o banco dos blues.

    Dito isto, quem vai levar o título?

    Ou Lionel Scaloni ou Luis de la Fuente. Scaloni? Jogos enquanto treinador principal sem ser na seleção da Argentina: zero. Luis de la Fuente? Jogos enquanto treinador principal numa primeira ou segunda divisão? Nenhum. É o triunfo dos homens de seleção, dos funcionários de federação.

    Na verdade, esta tem sido a nota dominante dos últimos Mundiais. Houve uma sequência em sentido inverso, com Aimé Jacquet (tricampeão pelo Bordéus) em 1998 a ser seguido por Luis Felipe Scolari (inúmeros títulos por Grémio e Palmeiras antes de chegar à seleção) em 2002, por Marcello Lippi (pentacampeão italiano, vencedor da Liga dos Campeões, ex-Juventus, Nápoles ou Inter) em 2006 e Vicente del Bosque (bicampeão europeu pelo Real Madrid) em 2010.

    O ciclo inverteu-se. Joachim Löw passou de adjunto de Jürgen Klinsmann a principal e ganhou em 2014, Scaloni triunfou em 2022 e ou repetirá em 2026 ou passará o testemunho a outro homem de federação, Luis de la Fuente. Didier Deschamps — uma Ligue 1 pelo Marselha, uma final da Liga dos Campeões com o Mónaco, passagem pela Juventus —, em 2018, soa agora a exceção.

    O homem que prossegue o legado

    A ressaca da geração de ouro não estava a ser fácil para Espanha. Fora na fase de grupos do Brasil 2014, eliminada na primeira eliminatória no França 2016 e no Rússia 2018, houve um vislumbre de melhoria quando a estrela passou a estar no banco.

    Luis Enrique trouxe personalidade, conhecimento e renovada agressividade, aspetos que, com uma Espanha sem talento ofensivo de elite, ajudaram a chegar às meias-finais do Euro 2020. Mas o passar do tempo trouxe desgaste, o Catar 2022 foi mau e a queda frente a Marrocos ditou a saída pela porta pequena.

    Luis de la Fuente venceu o Europeu sub-21 em 2019
    TF-Images

    O sucessor do asturiano foi um homem da casa. Perante as dúvidas, a federação decidiu reforçar a aposta na identidade, na sua própria estrutura, não duvidando da ideia que levara la roja dos fracassos do século XX para ser potência moderna.

    Luis de la Fuente tem uma trajetória modesta em clubes. Trabalhou nos escalões inferiores de Sevilla e Athletic, ocupou vários bancos de divisões inferiores. O cargo mais relevante que ocupou no futebol do dia a dia foi orientar o Alavés, no terceiro patamar do país vizinho, em 2011/12.

    O sereno treinador chegou à estrutura federativa em 2013. Trabalhou nos sub-19, depois nos sub-21, foi aos Jogos Olímpicos de Tóquio. Conhece na perfeição o método, a fórmula. Os futebolistas.

    Dezasseis dos 26 eleitos para este Mundial ganharam títulos continentais na formação (sub-17, sub-19 ou sub-21) ou medalhas em Jogos, seja a prata de Tóquio ou o ouro de Paris. Vários fizeram-no com De la Fuente: o católico e fã de touradas ganhou o Euro sub-19 em 2015 com Rodri, atual capitão, Merino, homem dos golos decisivos, e Unai Simón, guardião titular. Em 2019 venceu em sub-21 com Fabián Ruiz, Dani Olmo e Mikel Oyarzabal, três titulares desta equipa, e também com Simón e Merino.

    Na prata de Tóquio estavam, das opções para a final contra a Argentina, Unai Simón, Eric García, Marc Cucurella, Martín Zubimendi, Mikel Merino, Dani Olmo, Pedri e Oyarzabal. Há uma linha de continuidade e De la Fuente é um dos grandes responsáveis por ela.

    O temporário que virou ícone

    Caos. Pode ser difícil recordá-lo agora, a meio de um ciclo com quatro finais de seguida, mas a federação argentina (AFA), na ressaca do Rússia 2018, era um caos.

    Figuras como Lionel Messi saíram desse Mundial descrentes quanto à própria seleção. Não só a liderança de Jorge Sampoli fora desastrosa, como a gestão federativa era amadora, incompetente, com noticiadas e reiteradas falhas básicas em coisas como marcação de hotéis ou agendamento de voos.

    Com problemas financeiros e sem um rumo definido, a AFA tinha de arranjar quem orientasse a seleção nos amigáveis que estavam agendados para os meses posteriores ao Mundial. E, basicamente, virou-se para a opção que estava ali à mão, para a escolha barata: um adjunto de Sampaoli com contrato com a federação e algum trabalho feito com equipas jovens argentinas. Assim, por acidente, chega Lionel Scaloni ao seu primeiro cargo como treinador principal no futebol sénior.

    O antigo internacional aceitou a missão. Rodeou-se de gente de confiança, de colegas de geração, Ayala, Samuel e, sobretudo, Pablo Aimar. O ex-Benfica foi fundamental para a primeira missão do inexperiente staff técnico: convencer Lionel Messi, que cresceu a idolatrar Aimar, a não deixar a seleção. Foi feita uma videochamada com Scaloni, Messi e Aimar, em que os técnicos explicaram a intenção de renovar o plantel, mas mantendo o canhoto como líder e referência do coletivo. Messi ficou agradado com o que escutou.

    Seguiram-se meses de consolidação de uma base. A premissa era o regresso ao que ficou conhecido como la nuestra, ao ADN argentino, a um futebol recheado de centrocampistas, de gente a aproximar-se da bola para combinar, de tabelas, de drible, de fluidez criatiava. No centro de tudo, Messi, claro.

    A Copa América 2019 deixou boas sensações e deu fôlego para prosseguir o trabalho. A Copa América 2021, vencida no Maracanã frente ao Brasil, foi uma libertação, um peso saído de cima, o primeiro troféu para a seleção desde 1993, o primeiro título na principal para Messi.

    Foi o ínicio de uma era brutal. Mundial 2022, Copa América 2024, nova final em 2026. O núcleo manteve-se: dos titulares da Copa América 2019 seguem nesta convocatória Messi, Lautaro, De Paul, Paredes, Tagliafico e Otamendi. É bem possível que, na final de Nova Jérsia, nove dos 11 titulares — todos menos Otamendi e Di María — voltem a atuar de início, três anos e meio passados. Como comparação, a Espanha da final do Euro 2024 teve Carvajal, Le Normand e Morata de início e Nacho Fernández como suplente utilizado, todos fora deste torneio, apesar de só terem passado 24 meses.

    Chegou por acidente, ficou pela convicção. Scaloni apagou o caos e trouxe êxito continuado. Ele, tal como De la Fuente, mostra que, nas grandes fases finais de seleções, nem sempre a bagagem trazida dos clubes é o mais decisivo.

    Tem alguma questão? Envie um email ao jornalista: tribuna@expresso.impresa.pt