• Suécia
    18:0020 JUN
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    Grupo F
  • Mundial 2026

    Ferran Torres derruba a muralha argentina e Espanha é, outra vez, campeã do mundo

    Espanha a levantar o troféu, com Trump na fotografia
    Espanha a levantar o troféu, com Trump na fotografia
    David Ramos

    Um jogo de clara superioridade de la roja só foi decidido no prolongamento, com Ferran a ser o herói aos 106', fazendo o 1-0 e repetindo 2010. Os espanhóis remataram 12 vezes à baliza, contra zero dos argentinos, sempre muito encolhidos, o que se acentuou com a expulsão de Enzo Fernández aos 90+3'

    Ferran Torres derruba a muralha argentina e Espanha é, outra vez, campeã do mundo

    Pedro Barata

    Jornalista

    André Iniesta, Ferran Torres. Joanesburgo, Nova Jérsia. Vicente del Bosque, Luis de la Fuente. 2010, 2026.

    Espanha, campeã do mundo, outra vez, pela segunda vez, novamente rainha do planeta na sequência do título europeu, domínio continental e global. Numa tarde que principiou cheia de sol e acabou já com sombras, símbolo da passagem do tempo de uma final longa, longa, longa, de intervalos com concertos e prolongamento, o 1-0 acrescentou uma segunda estrela às camisolas de la roja.

    O encontro teve toques de monólogo. Praticamente só Espanha atacou, a Argentina apostada em defender, defender, defender. Ao 12.º segundo de 12 disparos enquadrados, contra zero dos sul-americanos, veio o aguardado 1-0, para lá dos 90', tal como Iniesta em 2010, na segunda metade do prolongamento, igualmente como em 2010.

    Ferran quebrou o cadeado de Dibu Martínez, mas este é um triunfo que vai além de um lance pontual, do remate que furou a muralha, deste 1-0, até deste Mundial. Durante décadas, Espanha vivia abaixo do seu potencial, um grande país europeu longe dos êxitos de alguns dos seus parceiros continentais. Até que uma revolução chegou ao futebol do país, adeus furia, olá toque, ter a bola, valorizar a bola, controlar o jogo, consolidar uma identidade. Não é ADN, porque com esse nasce-se. Este foi um processo de deliberada construção de um método, de uma forma diferente de fazer as coisas.

    O resultado? Dois Mundiais e três Europeus em menos de 20 anos. Aqui, nas Américas, a equipa de De la Fuente ganhou com Nico e Lamine, as asas voadoras de 2024, abaixo do seu melhor. É a valorização do coletivo, da equipa que multiplica as suas partes.

    O golo decisivo de Ferran Torres
    Al Bello

    O colossal estádio de Nova Jérsia, uma gigantesca cratera rodeada de um parque de estacionamento a perder de vista, recebeu uma final ao início da tarde, debaixo do sol norte-americano. Os longos minutos prévios ao jogo foram recheados da habitual série de número musicais genéricos, com artistas omnipresentes deste tipo de circunstâncias, como Robbie Williams, juntando-se um estranho e imperceptível discurso de Tom Cruise, todo vestido de negro, esforçando-se por dizer “España” e “Argentina” com o sotaque de um turista em Ibiza. Digamos que esta sensacional brutal incrível — no universo da FIFA tem de ser tudo meio em hipérbole — cerimónia pré-encontro captou o entusiasmo de zero seres humanos.

    Parte destas celebridades, quer as que tiveram destaque antes do desafio, quer as que participaram na simulação de intervalo da Super Bowl posterior, terão pisado mais tempo o meio-campo ofensivo do que a Argentina, num encolher depressa evidente. Messi apenas tocou duas vezes na bola nos primeiros 15' numa equipa que chegou à segunda metade tendo zero ações na área para onde atacava.

    Espanha controlou a bola e o ritmo. Argentina vestiu o traje do sofrimento, do aguantar, um fato que não é plenamente desconfortável para os de Scaloni. Juntaram linhas, compactaram, permitiram alguns espaços quando Oyarzabal flutava ou Olmo buscava as zonas cegas dos médios, mas os campeões da Europa também pouco criaram até à segunda parte.

    Um remate de Lamine Yamal, logo aos 5', para corte de Lisandro Martínez seria a melhor chance nesta etapa incial de bloqueio. O central canhoto dos sul-americanos sairia lesionado aos 44', substituído por Otamendi. O seu parceiro, Romero, também sucumbiria a problemas físicos mais tarde. Em cima da recolha aos balneários, Oyarzabal e Cucurella ameçaram Dibu Martínez, mas o cenário global era de um futebol tenso, de poucas balizas. A certa altura, aproximaram a taça de campeão do mundo de Donald Trump, que se sentava nas bancadas como um imperador romano, possivelmente dando-lhe o objeto para que o presidente tivesse algo com que se entreter.

    O longo show do intervalo seguiu a lição da cerimónia prévia. Uma sucessão de generalidades, Madonna num veículo com Ronaldo e Ronaldinho, a “Seven Nation Army” repetida à exaustão no desporto, Justin Bieber e Shakira a fazerem de Justin Bieber e Shakira. Para tentar que a Argentina se sentisse mais confortável em campo do que alguns adeptos a esperarem pelo segundo tempo, Scaloni lançou o organizador —sempre pronto para um toque de agressividade a mais Paredes.

    O exercício futebolístico da Argentina debaixo do sol de Nova Jérsia foi um monólogo da inexistência atacante, um discurso repetido de defender, não passar do meio-campo, aguentar como recurso vital, como único recurso. Messi aparecia distante do jogo, distante da bola. Só depois do 1-0 é que as amarras soltar-se-iam.

    O carrossel de substituições (Scaloni introduziu Molina na troca clássica com Montiel, mas nma ordem inversa da habitual, De la Fuente deu entrada a Pedri e Ferran) produziu um intensificar da qualidade ofensiva espanhola. Os ataques criavam mais brechas, as finalizações eram mais comuns, algum desconforto aparecia entre a ressistência argentina. Olmo e Ferran Torres forçaram Dibu a intervir antes de novas trocas celestes, com Simeone e Medina, e vermelhas, com Nico Williams e Merino.

    Se Nova Iorque é a cidade que nunca dorme, sempre desperta, pronta para ser megalómana e produtora de sonhos e de grandiosidade, a final ali ao lado da grande maçã chegou a assemelhar-se a um dia longo, muito longo, sem terminar, sem chegar a hora do sono, uma eternidade feita de homens europeus a atacar e de cidadão sul-americanos a defender, uns com a bola e outros estacionados diante da área.

    O aproximar dos 90' foi deixando os argentinos cada vez mais em apuros. Se até ao descanso havia pouco perigo, este foi aumentando de frequência, assumindo Emiliano Martínez cada vez mais protagonismo, chegando ao prolongamento com 10 defesas feitas, várias já em momentos de aperto, perante Laporte, Ferran ou Nico. A derradeira antes dos 30' adicionais foi num livre de Lamine quando a albiceleste já estava com 10: Enzo Fernández chegou tarde a um lance com Cubarsí e viu o segundo amarelo. Se passar o meio-campo era uma tarefa hercúlea para a Argentina, o prolongamento prometia assemelhar-se à tentativa de obter um milagre.

    Pela quinta vez em sete finais de Mundiais no século XXI, houve igualdade no fim dos 90 minutos. Unai Simón, esse, teria outro jogo em que foi mais jogador de campo que guarda-redes, saindo do torneio só tendo de enfrentar 10 remates, os únicos que, em oito desafios, os adversários fizeram à baliza espanhola, que defendendo-se com bola só encaixou uma vez.

    Chegámos ao prolongamento com 15 remates para um lado e zero para o outro edepressa ficou 16-0. Nico cabeceou, Dibu defendeu. O atacante do Athletic até conseguiria, finalmente, colocar a bola na baliza, mas o lance foi anulado por falta de Merino sobre Otamendi.

    Giuliano Simeone assumiu minutos em que parecia ter como função bater, chocar, correr atrás da bola, como um cão obcecado a ladrar perante tudo o que mexia. Resultou bem para esticar algum futebol, para respirar por instantes longe da baliza onde tudo decorria. Merino, herói tardio perante Portugal e Bélgica, foi outro espanhol que roçou o 1-0 que não chegava.

    Haveria de chegar no começo da segunda metade do prolongamento. Porro cruzou da direita, Nico Williams cabeceou a bola perante um perdido Molina. Ferran Torres teve a bola diante do pé esquerdo, o seu momento "Iniesta de mi vida", um instante em que a sua precisão decidiria se, durante décadas e décadas, haveria documentários consigo como protagonista, livros, filmes, uma entrada direta para a cultura popular espanhola, herói de milhões. Não falhou.

    Em desvantagem e com 10, a Argentina decidiu jogar. Foi refrescante ver alguns minutos de atrevimento, uma equipa a lançar-se para a frente naquele estilo que a salvou várias vezes: agressividade, fé e Messi. Leo, ausente durante a maioria da final, liderou as tentativas no desespero. Um cruzamento e um remate de Simeone assustaram Unai Simón, mas não houve 1-1. Os campeões de 2022 saem de Nova Jérsia com uma imagem de timidez ofensiva.

    O mundo é da Espanha. A mensagem é evidente e clara: apostar na criação de uma identidade, deixar que um treinador com anos e anos de federação dê continuidade ao trabalho, ter convicção na ideia, jogar o jogo como ele é, inteiro e coletivo. Que a lição que já vinha de 2010 volte a ser reiterada em 2026.

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