Lionel Messi, o caminhante celeste que vive a despedida adiando a despedida
Messi, 39 anos, poderá ter na final o último grande encontro da carreira
David Ramos
Aos 39 anos, após 45 títulos e 925 golos, um dos melhores desportistas da história pode disputar, na final contra a Espanha (20h00, RTP1/Sport TV1/LiveMode), o seu último grande jogo. Uma existência gloriosa, em que à genialidade em campo se foi somando uma inesperada aura pela seleção, culminando num Mundial a roçar o irreal para um quase quadragenário
É imaginar a cena como se Lionel Andrés Messi Cuccittini tivesse a bola em seu poder, possivelmente descaído para a direita, talvez num daqueles forcings finais da Argentina para sobreviver a situações limite. Eis que, subitamente, uma voz rouca e lenta lhe susurra ao ouvido, um som que só ele escuta, vindo não se sabe bem de onde.
É imaginar a voz de Diego Armando Maradona ecoando na mente de Messi como se fosse Obi-Wan Kenobi a falar com Luke Skywalker: “Usa a força, Luke”, deixa a energia fluir, sente, não penses, age por instinto, não planeies.
O mestre apela ao aprendiz que faça uso de todo o seu talento, que o canalize, para assim o explorar ao máximo. Para, desta forma, ser o Messi sem barreiras mentais, sem complexos, sem medos, o Messi tardio, dos quase 40. O Messi de 2022, o Messi de 2026.
Algo sucedeu antes do Catar, prolongando-se para as Américas. Algures entre a chegada de Scaloni, Leo como Messi, o homem com quem trocou uns passes antes de ser expulso na sua estreia na seleção, técnico da Argentina por acidente e convicção de Cesar Luis Menotti, de Rosario como Messi, de Rosario como Di María, cujo golo na final da Copa América 2021 quebrou um jejum de 28 anos sem títulos para a albiceleste. O primeiro troféu de Messi pela Argentina, um desbloquear de dúvidas.
Já não era preciso pensar. Era permitido só fluir.
Luke é Skywalker, caminhante dos céus. Messi também anda, passa os jogos a passear pelo campo, a deambular vestido de celeste. Até que a bola lhe chega, a energia é canalizada, o milagre acontece.
A devoção dos companheiros de seleção por Leo é evidente
Patrick Smith - FIFA
39 anos. Melhor marcador do Mundial a par de Mbappé. Futebolista com participação em mais golos, com quatro assistências a juntar aos que marcou. Maior número de grandes oportunidades criadas (13), de fintas (25) e de cruzamentos com êxito (19) ao longo de todo o campeonato. Máximo goleador (21) e assistente (12) da história dos Mundiais. Contra Inglaterra somou nove fintas e duas assistências, algo inédito na fase a eliminar do torneio.
A Argentina está na final contra a Espanha (20h00, RTP1/Sport TV1/LiveMode) por várias razões. Uma das principais, aliás, a principal é um jogador de quase 40 anos, que vai na quarta temporada a competir numa liga periférica. Já parámos para pensar que isto é um absurdo, uma impossibilidade?
Pablo Aimar diz que Lionel Messi joga sempre como se quem está a ver nunca o tivesse visto, sempre pronto a provar o que é: um futebolista infinito, para quem tudo é possível, fintar como o melhor extremo, criar como o melhor 10, passar como o melhor médio, marcar como o melhor avançado.
Barney Ronay, do “Guardian“, escreve que é evidente que Messi adora jogar futebol: Leo nunca esteve num encontro em que Messi não estivesse. Não sabe o que é estar num relvado em que não esteja o melhor jogador de sempre. Claro que a sensação é boa, claro que apetece repetir. Como nota Ronay, dá vontade de perguntar: sabes que nem sempre é assim, que as partidas não contam todas com um baixinho canhoto que basicamente pode decidir que não, tu não vais ganhar esta partida, esta é minha e portanto tu vais perder?
Sair? Não me parece
“Nada me irrita mais do que dizerem que não sou argentino”.
Messi deixou o seu país ainda adolescente. O Barcelona pagava-lhe o tratamento hormonal, uma necessidade se aquele rapaz de 1,40 metros e 14 anos quisesse ser profissional de futebol. Mas, na Catalunha, Lionel sempre se sentiu argentino, sofreu por não entender catalão, teve saudades de casa.
A vontade de regressar a Rosario acentuou-se quando os irmãos e a mãe voltaram. Ficou só com o pai, Jorge, vivendo ambos no país contra quem, agora, Lionel disputará a sua terceira final do Mundial. Fá-lo-á com o pai numa altamente delicada condição de saúde, pano de fundo de todo o certame americano.
Ingleses no chão, Messi com a bola
Masashi Hara
Chamavam-lhe pecho frío, pé frio, anti-vitória,naqueles anos de finais perdidas. “Que vá jogar por Espanha”, ouvia-se naquelas entrevistas de rua, como se chegar a três finais da Copa América, a uma de um Mundial, vencer um Mundial sub-20 e uns Jogos Olímpicos fosse zero.
Mas ele sentiu o peso da responsabilidade. Renunciou à seleção em 2016, convenceu-se que em 2018 o ciclo terminara, que havia mais nada para ele em Mundiais. O panorama cambiaria com a Scaloneta, com o golo de Di María no Maracanã, com o Catar. O peso saiu de cima. A partir dali era só fluir.
Em 2026, neste Mundial, Messi não joga com qualquer responsabilidade ou pressão em cima. Joga como quando era criança, como quando foi fazer habilidadescom a bola no relvado do Newells' no dia da apresentação de Maradona com o clube. Joga para continuar a jogar, joga como uma criança que foge dos gritos da mãe para regressar a casa no fim da tarde.
Cair antes do fim do Mundial significaria, possivelmente, o adeus. Então Leo foi adiando a derrota, o fim, parando o tempo com os pés.
Espanha e Argentina vão disputar a final do Mundial, com um traço comum de respeito pela cultura
Certo dia, quando Messi estava na formação do Barcelona, teve de realizar uma partida com uma máscara para lhe proteger a face, devido a uma lesão sofrida. Era um dérbi contra o Espanyol. Os culés estavam a perder e o pibe decidiu tirar a máscara e desatar a jogar. O Barça deu a volta ao marcador e os treinadores de La Masía passariam a conhecer aquele episódio como el partido de la mascara.
Lionel repetiu a atitude neste Mundial. Com a equipa a perder por 2-0 contrao Egitoou por 1-0 diante de Inglaterra, entrou em transe. Apertou as chuteiras, pediu a bola, encontrou soluções. Assistiu, marcou, fintou. Casemiro, que tantas vezes o defrontou no el clásico pelo Real Madrid, assegura que a regra número um para defrontar Messi é não espicaçar Messi, não acordar a besta.
Onde antes poderia haver um travão emocional naquelas circunstâncias à beira do abismo, ansiedade e vómitos, agora houve só aura, um canalizar da energia do público, dos companheiros, da ocasião. Usar a força, o talento, fluir.
Todos temos um plano até levar o primeiro soco, dizia Tyson. Vocês têm um plano até eu dar o último soco, responde Messi.
Messi contra Messi
Quem é Lionel Messi? Num tempo em que as celebridades fazem da sua vida um reality show, aqui está uma mega estrela com uma intimidade quase desconhecida. Sabe-se que é casado com um amor de adolescência, que tem um cão do tamanho de um urso, que um dos seus filhos é altamente reguila. E pouco mais.
Sabe-se nada do que Messi pensa sobre o mundo. Não se lhe conhecem opiniões, pensamentos, visões, não somente no que respeita à política ou à humanidade, mas mesmo no que toca ao futebol. Messi é a favor ou contra as pausas de publicidade? Prefere o Mundial com 48 seleções ou com 32? Acha que o VAR deve ser mais ou menos interventivo? Não sabemos.
Messi é como se fosse um desenho-animado. Ninguém se interroga o que está a fazer Ash quando não treina Pokemons porque ele é Ash, o treinador de Pokemons, e serve-nos enquanto tal. Lionel é Messi, o jogador de futebol.
Messi, o público e, ao fundo, uma tarja com Leo e Diego
Patrick Smith - FIFA
Um jogador de futebol que é como um milagre do jogo. Parece impossível tanto talento durante tanto tempo. Um talento prático, eficaz, nunca um adorno a mais, uma habilidade desnecessária. Uma bola, uma jogada, golo, assistência, repetir.
Messi vive de praticar uma das atividades culturais mais populares da história. Como será ter a certeza que ninguém com quem partilhe um relvado neste jogo que se extende a todos os cantos do planeta vai ser melhor que ele? Quando é que ele ter-se-á apercebido disto?
O tempo foi moldando-o. Modificou-o taticamente, ao ponto de haver vários Messis, o extremo-direito driblador do início, o falso nove de Pep, o centro da MSN de Luis Enrique, o faz-tudo dos anos de sofrimento da seleção, o veterano que se resguarda nesta Argentina cheia de centrocampistas.
Alterou-o, também, enquanto capitão. No passado, mesmo quando tinha a braçadeira, os líderes eram outros, Piqué ou Busquets no Barcelona, Mascherano na seleção. Agora Messi, rodeado de colegas que o idolatram, que cresceram a vê-lo brilhar, tem um inesperado ar de caudilho, arrastando os outros consigo, protestando com árbitros, não fugindo de conflitos. Canalizando todos os elementos no seu transe.
Lionel Messi deixa-nos outra certeza em 2026. A disputa pelo trono existe, de facto: é Messi contra Messi. Quem é melhor, o Messi de 39 anos ou o de 29? O Messi de Pep ou o de Luis Enrique? O da seleção de 2022 ou o de 2026?
Se a história acabar em Nova Jérsia, se esta aventura pela elite da bola terminar na final do Mundial, fechando-se contra o país que o acolheu, se este for o último grande jogo da carreira, será Messi a deixar o futebol, porque o futebol jamais o deixou, pega-se a ele como um íman. O que será Messi, que só existe como jogador, depois de não ser jogador? Talvez desapareça, desvanecendo-se como um sonho quando despertamos de manhã. E que bonito foi viver estes 20 anos de sonho.