Uma parte para uns, uma parte para os outros, o bronze para Inglaterra num jogo sem defesas e banhado a golos
Saka marcou três golos no jogo que deu o terceiro lugar a Inglaterra
Jared C. Tilton - FIFA
Os homens de Tuchel concluíram o Mundial em terceiro lugar, após derrotarem (6-4) a França. Numa partida incrivelmente aberta, Inglaterra marcou quatro na primeira parte, altura em que os gauleses não compareceram. Houve reação após o intervalo, Mbappé bisou e ultrapassou Messi como melhor marcador dos Mundiais, mas o hat-trick de Saka e Bellingham fecharam o jogo
Bem, isto foi entretido. Não foi dramático, não estava muito em jogo, houve sorrisos cordiais e amizade no fim, a tensão competitiva não existiu. Mas foi divertido, uma montanha-russa na Flórida, uma anomalia no futebol de elite, como uma brincadeira em que ninguém defende.
10 golos. Uma equipa a chegar ao 4-0, a outra a quase empatar, um golo aos 90+6', outro aos 90+8'. No fim de tudo, o marcador, que não teve descanso, mostrava França 4-6 Inglaterra.
Desde o Mundial que organizaram, em 1966, que os ingleses não fechavam no pódio. Regressam agora a esse palanque, com a medalha de bronze. O ciclo de Deschamps, de ouro em 2018 e prata em 2022, fica sem completar a palete de caricas.
Correu-se para atacar, não para defender. Os espaços abundavam e o mais incrível é a sensação de que poderiam ter sido mais, que este 6-4 poderia ter sido um 8-7 ou um 8-9 ou algo do género.
Tuchel redime-se um pouco depois da tempestade de críticas no pós-Argentina. O grande aliciante era Mbappé e a disputa com Messi nos golos: a estrela gaulesa bisou e, à espera do que faça Leo na final, superou-o na contabilidade goleadora deste torneio, 10 contra oito, e no total dos Mundiais, 22 contra 21.
Como sempre antes deste penúltimo jogo de Mundiais, a antevisão ao encontro fez-se da discussão sobre se esta partida deveria ou não existir. Bem, olhando para a entrada dos franceses em campo, parecia que a seleção gaulesa estava apostada em marcar uma posição, em deixar claro que não, eles não queriam estar ali. Até que, depois do intervalo, passaram a querer estar.
O último dos 10 golos, da autoria de Bellingham
Luke Hales
No início, foram minutos em que falar de apatia de França é um eufemismo. França, na primeira parte, foram 10 jogadores pouco interessados em jogar e Mbappé a tentar o golo para os seus recordes individuais. O resultado foi um atropelo.
Inglaterra demorou três minutos a chegar ao 1-0. Doué estreou as ofertas francesas, os presentes de quem saiu do Mundial após perder contra Espanha e só regressou estando a perder por 4-0. Declan Rice, bastante criticado nos últimos dias e destaque na madrugada do encontro, roubou a bola e rematou com estilo e eficácia.
Espanha e Argentina vão disputar a final do Mundial, com um traço comum de respeito pela cultura
Thomas Tuchel fez bastantes mudanças no seu onze. Dois dos que entraram foram Saka e Rashford, que aproveitaram os latifúndios dados pela França como crianças que se divertem porque no recreio não há propriamente quem defenda. Nos instantes seguintes ao 1-0, Saka serviu Rash, cuja finalização foi cortada por Malo Gusto, Cherki respondeu para defesa de Henderson, Saka não teve pé direito e uma boa chance perdeu-se. Era futebol de ida e volta, sem barreiras ou interrupções. Foi quase sempre assim, uma fórmula simples: uma jogada=uma oportunidade de golo.
Dentro da suavidade competitiva do calor de Miami, neste embate aberto e livre, Inglaterra entrou a competir e França não, o que abriu o fosso da primeira parte. Aos 18', Rice bateu um canto da esquerda, Konsa fugiu a Rabiot e cabeceiou para dobrar a vantagem inglesa.
Aquando da primeira pausa de hidratação já havia o total de nove remates entre os dois conjuntos. No banco, Thomas Tuchel era uma presença bem mais relaxada do que nas eliminatórias anteriores, um homem aliviado, um treinador a descobrir que é possível marcar e não fazer entrar todos os defesas que há no banco.
Rice atira para o 1-0
Jamie Squire
Rice atira para o 1-0
Jamie Squire
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Perto do descanso, o descalabro gaulês intensificou-se. Deschamps dava o ar de um homem a querer desaparecer, ser devorado pelo banco de suplentes. Os seus defesas mal corriam, Theo Hernández era um futebolista em greve, em protesto contra o jogo da medalha de bronze. Defender? O que é isso?
O 3-0 teve traços de desenho animado. Saka e Rashford tiveram tempo para rematar, falhar cair, levantar e marcar, golo de Saka. O 4-0 seria de novo pelo canhoto do Arsenal, lançado em velocidade, beneficiando da auto-estrada francesa na Flórida.
Intervalo. Didier Deschamps, no 186º e último jogo por França, o fim de uma era, o adeus do selecionador campeão do mundo que já fora capitão campeão do mundo, corria o risco de sair humilhado. Algo terá dito ao intervalo, quando lançou Barcola, Dembélé, Digne e Upamecano.
A mudança sentiu-se ao terceiro minuto, espelhando o que os de branco haviam feito na etapa inicial. Michael Olise e Mbappé, o arco e a flecha, a dupla do assistente e o goleador, passaram a conectar-se, a encontrar-se. Passe do homem do Bayern, golo do atacante do Real Madrid.
O 4-1 de Mbappé
Buda Mendes
O 4-1 de Mbappé
Buda Mendes
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Upamecano foi a voz que levou a França para a frente. Olise, pelo meio, descobria caminhos, Barcola e Dembélé atacavam o espaço. Os gauleses marcaram mais dois até aos 66', altura em que até já poderiam ter igualado, tal a festa de criação de lances que se verificou.
Mbappé lançou a velocidade de Barcola para o 4-2. Pouco depois, tabelou com Olise para o 4-3. Deschamps exultou, festejou de raiva, como que querendo sentir coisas pela derradeira vez, uma despedida à séria.
Tuchel estava bloqueada no banco, um treinador a fazer duas coisas totalmente diferentes no espaço de três dias, primeiro a substituir imenso, agora imóvel. Na França, Olise e Dembélé criavam muito e marcavam nada, com o criativo do Bayern particularmente perdulário. Mbappé não parava de rematar, acabando com nove finalizações.
Quando Tuchel finalmente operou mudanças, Inglaterra respirou melhor. A machadada final na tarde de Miami, na tarde de futebol de pátio de crianças, todos a atacar para um lado e depois todos a atacar para o outro, seria dada com ajuda de Djed Spence, o cult heroe desta seleção, um futebolista relativamente anónimo até este Mundial, quando, subitamente, é o lateral com mais energia e agressividade e poder de aceleração do planeta. Ganhou um penálti que Saka transformou no 5-3, chegando ao hat-trick.
Machadada final? Bem, não, havia sempre espaço para mais neste relvado cheio de fome. Dembélé despediu-se com um golo, o 5-4, dando esperanças de prolongamento. Não haveria empate, haveria sim um sinal de grandeza do melhor futebolista inglês nas Américas, um homem de aura, de peito para fora, de assumir responsabilidades, que entrou pleno de personalidade. Jude Bellingham tem a energia dos personagens principais e pegou na bola, fintou e fintou até colocar um ponto final no banho de golos. 6-4. That was fun, Miami.