Mido fez 51 jogos e marcou 20 golos pela seleção do Egito
Fenómeno adolescente, foco de polémicas constantes, expulso da seleção antes de uma final em casa, homem que atirou uma tesoura contra Ibrahimovic. Ahmed Hossam Hussein Abdel Hamid Wasfi foi um rebelde, um caso de talento desperdiçado e, durante algum tempo, o egipcío mais famoso do planeta. Mido é o primeiro dos 48 Cromos do Mundial, série que destaca um futebolista excêntrico, ou quase, de cada país que jogará na edição de 2026
“Mido é aquilo em que a rua árabe pensa. Mido é a palavra nos lábios dos homens e mulheres árabes. Mido, a alcunha dada desde pequeno a Ahmed Hossam, um futebolista que ainda não cumpriu 20 anos, é objeto de fascínio para o mundo árabe. Mais do que Beckham para os ingleses (ou até para os japoneses), ele é, para os árabens em geral — e para os egípcios em particular —, o que Maradona foi para os argentinos. Ou talvez mais.“
Em 2003, um perfil no The Guardian apresentava ao mundo um talento que brotava no Ajax. Saído do Zamalek ainda menor de idade, Ahmed Hossam Hussein Abdel Hamid Wasfi, ou simplesmente Mido, um menino nascido numa família rica do Cairo, aterrou na Bélgica com o peso das expetativas nos ombros. O começo na Europa foi duro, recheado de saudades de casa. Fez as malas para o Egito rapidamente, mas o pai, um homem de negócios que lhe financiara uma boa educação em colégios privados, convenceu-o a voltar.
Durante algum tempo, Mido rimava com o futuro do futebol europeu. Era um ponta de lança alto, quase 1,90 metros, canhoto, forte. Goleador. Onze golos em 24 encontros pelo Genk, ainda adolescente, mais 23 na primeira época e meia em Amsterdão. Estava ali um diamante.
Mas o talento que Deus, ou Alá, ou a genética, lhe deram vinha com asterisco. Talvez tenha sido Ronald Koeman, seu técnico em Amsterdão, o primeiro a esbarrar com aquele lado lunar. “Ele é tratado quase como um deus no Egito e isso, por vezes, traz problemas“, chegou a notar o técnico.
Recém-chegado às duas décadas de vida, os casos de Mido com Koeman acumularam-se. Antes de um clássico com o Feyenoord, uma discussão entre ambos acabou com o atacante de fora da convocatória. Na sequência do desentendimento, o egípcio foi para o Cairo, sem autorização. Seria multado e, no regresso ao Ajax, apontou 13 golos nos 11 últimos desafios da época, incluindo um na final da Taça. Luz e sombra, talento e descontrolo.
Seria este o paradigma de uma carreira nómada. Meses depois, acusado por Koeman de “falta de esforço nos treinos“, seria relegado para a equipa B do Ajax. O ponto final nos Países Baixos chegaria quando, após um jogo, se envolveu numa briga perante outro jovem rebelde e talentoso no balneário. Zlatan Ibrahimovic queixou-se do individualismo de Mido, este não gostou e atirou uma tesoura na direção do sueco. Foi a gota de água para os responsáveis no clube.
Emprestado ao Celta de Vigo, estava dado o mote para uma vida de pouca permanência em clubes. Nunca esteve duas épocas completas, consecutivamente, na mesma equipa. Do Zamalek para o Gent, da Bélgica para o Ajax, de Amesterdão para Vigo, de Espanha para o Marselha, de França para a Roma, da Serie A para o Tottenham, de Londres para o Middeslbrough, o Wigan, o West Ham, breve retorno ao Zamalek, breve retorno ao Ajax, fim no Barnsley.
Foi havendo, de tempos a tempos, piscares de talento. Na verdade, o esquerdino tinha o hábito de grandes arranques em cada pequena etapa. Zamalek: bis à segunda partida; Celta: golo na estreia; Marselha: marca na estreia no Vélodrome; Tottenham: bis ao segundo jogo: Middlesbrough: dois golos nos dois primeiros encontros (os únicos que faria naquela época pelo clube); Wigan: golo na estreia (só faria mais um pelo clube); Egito: golo na estreia; Ajax: cinco minutos depois de assinar contrato, tinha um Ferrari comprado.
Mido a refrescar-se a meio de um jogo do Ajax para a Liga dos Campeões
Adam Davy - EMPICS
Expulso da CAN, o fim triste e perigoso
Já sem a aura de esperança dos meses de Genk e Ajax, foi no Tottenham onde Mido pareceu poder vir a ser o que prometera. No entanto, o seu rendimento caiu a pique na sequência da mais famosa das suas inúmeras indisciplinas.
Mido era, em vários textos do início do século, descrito como “o egípcio mais famoso do mundo“. O seu casamento foi transmitido em direto pela televisão do país, uma nação de 107 milhões de pessoas com uma rara devoção ao futebol. No pico da notoriedade do jogador, a CAN foi disputada em casa, em 2006. Era o momento de Mido.
Ou, pelo menos, era isso que Mido achava.
Afetado por uma lesão, seria substituído na primeira parte diante da Costa do Marfim, na fase de grupos, falhando os quartos de final contra o Congo. Na ronda seguinte, perante o Senegal, atuou de início, mas a sua contribuição discreta levou-o a ser substituído aos 79'. A revolta foi visível, notória, chegando a parecer que a estrela entraria em confronto físico contra Hassan Shehata, o selecionador. Amr Zaki, entrado para o lugar de Mido, marcou na primeira vez que tocou na bola. O semideus seria expulso da seleção, impedido de participar na final que veria a equipa da casa erguer o título africano.
O descontrolo foi parte de Mido. No Marselha foi a tribunal por excesso de velocidade. No Middlesbrough, após a descida à segunda liga, apresentou-se duas semanas mais tarde na pré-época. Em Inglaterra, o egípcio não foi só vilão, sendo também, recorrentemente, vítima de insultos racistas, atraindo a islamofobia que percorria na sociedade britância nos primeiros anos dos 2000.
Retirou-se jovem, aos 30 anos, mas era quase um jogador em part-time desde mais cedo. A última partida completa que completou deu-se com 26 voltas ao sol. Foram temporadas de caos, de mudanças, de golos, de polémicas, tudo começando cedo e terminando cedo.
Em maio de 2002, com 19 anos, Mido, já cheio de problemas com Koeman, convenceu o treinador a deixar Ibrahimovic no banco, sendo o canhoto o preferido para a final da Taça dos Países Baixos. Após aquele título, o egípcio partiria para uma carreira de inconstâncias, o sueco explodiria para ser um dos melhores do mundo.
Uma década mais tarde, Zlatan era a grande estrela do PSG, tendo já vencido os campeonatos de Itália e Espanha. Mido, mais novo, já não jogava futebol. Engordou rapidamente, chegando aos 150 quilos. Com 30 e poucos anos, caminhar 100 metros sem parar para descansar era um problema. Os médicos avisaram-lhe que, se continuasse assim, morreria antes dos 40, a idade com que Ibra ganhou o seu último campeonato italiano. Ahmed Hossam percebeu a gravidade da questão e emagreceu bastante. Mido ficaria para sempre como um caso do que poderia ter sucedido se a luz do talento não viesse com sombras a ele pegadas.