A dois dias do jogo inaugural do Mundial 2010, o primeiro realizado no continente africano, a seleção anfitriã encontrava-se num autocarro panorâmico a acenar às 200 mil pessoas que estavam nas ruas de Joanesburgo numa festa que se espalhou por toda a parte, como se a pessoa responsável pelos convites não tivesse especificado a localização exata do evento. Carlos Alberto Parreira, o brasileiro que treinava a África do Sul, entrou em desespero quando soube do plano que tinha sido preparado sem o seu conhecimento e vociferou com os responsáveis.
O selecionador tinha uma grande desvantagem na preservação do profissionalismo da equipa: os jogadores queriam estar presentes. Foi preciso encontrar um meio-termo e escolheu-se uma espécie de comissão de farra. Alguns jogadores foram, outros ficaram. Siphiwe Tshabalala embarcou no périplo, desdobrando-se em saudações papais. De herói local, rapidamente se tornou ícone internacional.
As cores por todo o lado, os zumbidos das vuvuzelas, o “Waka Waka”. O Mundial 2010 foi toda uma bomba sensorial. A textura das memórias torna-as ainda mais inesquecíveis. Houve o golo de Andrés Iniesta na final, mas houve também a apresentação deste utilizador de um apelido musical e de longas tranças amarradas, figurino exótico adequado para o embaixador a posteriori da competição.
Tshabalala passou a véspera da estreia, contra o México, a ver “Invictus“, inspirando-se no filme que retrata o papel unificador da seleção de râguebi no pós-apartheid durante o Mundial de 1995. Chegado o jogo inaugural, marcou o primeiro golo do torneio, um dos pontapés mais gloriosos que a Jabulani levou. A bola saiu cruzada e ao ângulo da baliza, direitinha para uma nomeação ao Prémio Puskás. O espírito boémio saiu logo da toca.
O festejo coreografado foi tão memorável como aquilo que o motivou. “Golo da África do Sul. Golo de toda a África”, narrava a transmissão inglesa enquanto os Bafana Bafana dançavam sem garfos na barriga ao som dos instrumentos de sopro com efeito de enxame.
‘Shabba‘ foi herói por um dia. O momento marcante não teve repercussão no desempenho global da África do Sul, que se deixaria empatar. Seguir-se-ia uma derrota frente ao Uruguai e uma inócua vitória diante da França. Pela primeira vez, o país anfitrião foi eliminado na fase de grupos. Em 2022, o Catar repetiu o feito.
A carreia de Tshabalala também não atingiu dimensão similar ao feito. Quando começou a fazer parte da seleção ainda jogava na segunda divisão do futebol sul-africano. Disputou o Mundial 2010 já como jogador do Kaizer Chiefs, clube quatro vezes campeão do país, mas distante do poderio do Mamelodi Sundowns. Ficou nessa equipa com nome de banda britânica durante 11 anos sem que o salto chegasse.
Em 2018, mudou-se para o BB Erzurumspor, da Turquia, na única época no estrangeiro. Apesar de não ter feito nenhum anúncio oficial quanto ao final da carreira e, aos 41 anos, recusar apresentar-se como jogador reformado nas aparições públicas, Tshabalala não joga desde 2021.
Tal como em 2010, o jogo inaugural do Mundial 2026 também será um México-África do Sul, um cruzamento que, no passado, levou ao nascimento de uma personagem mítica. Há 16 anos que os Bafana Bafana não estão presentes na competição.
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