Brasil: Romário, o baixinho que hibernava no frio e tem medo de chihuahua
Romário marcou 55 golos em 71 internacionalizações pelo Brasil, cinco deles no Mundial de 1994
A crista de Romário é igual ou maior ao rasto da sua incrível carreira. O avançado que se picava com Pelé, barricava em casa em Eindhoven quando a temperatura ia aos negativos ou pedia a Johan Cruijff dias de folga em Barcelona para ir ao Carnaval foi o goleador do Mundial de 1994, que conquistou com o Brasil. Após a vitória, ainda nem 30 anos tinha, quis regressar ao calor do Rio de Janeiro, onde hoje é político. Romário é o terceiro dos 48 Cromos do Mundial, série que destaca um futebolista excêntrico, ou quase, de cada país que jogará na edição de 2026
Há futebolistas do diz-que-disse, fãs de terem reputação antes de a justificarem. Depois há Romário, o construtor da própria fama. O ‘baixinho’ de alcunha corria de peito para fora, mexia-se com pernas arqueadas e falava barato por cobrar caro se duvidassem dele, hábito nutrido desde cedo. Aos 22 anos, já eriçado o seu pêlo na venta, fez capa da “Placar” com uma destemida premonição: “Garanto que ainda vou impressionar muita gente. Vou fazer 1000 golos.” Promessa arriscada, por todos os motivos e mais alguns, especialmente porque no Brasil mil festejos só o Rei Pelé.
O aviso apareceu em 1988, era o brasileiro um moleque do Vasco da Gama. Em 2007, a mesma revista soprou 45 velas e pô-lo em manchete, ornado com a mesma camisola do mesmo clube carioca e titulado com uma frase mais arrojada do que o próprio era de feitio: “Romário maior que Pelé.” O destaque tinha justificação, o jogador estava prestes a tornar-se milenar nos festejos.
A manchete da Placar com Romário, em 1988, tinha ele 22 anos
A manchete da Placar com Romário, em 1988, tinha ele 22 anos
12
Entre a lenda que construiu e a crista que exibe, qual delas a maior em Romário. Nas redondezas do milénio em golos, o único humano a ganhar três Mundiais ousou recomendar-lhe a ponderação da reforma, deixar as chuteiras em paz. Já era quarentão, o seu rasto bem vincado no futebol, tinha dado pontapés na bola em Espanha, nos EUA, Países Baixos e na Austrália, mas Romário não encaixou a ousadia. “Pelé calado é um poeta”, respondeu, sem timidez em alfinetar o ícone que apesar da língua afiada, respeitava. Quando Zico, outra viga da bola brasileira, sobre ele falou, desmereceu-o através da estima ao ‘Rei’, dizendo “só vejo o Pelé na minha frente” no panteão do futebol com samba.
Lá Romário é um inquilino inamovível. Nascido em Jacarézinho, favela na órbita norte do Rio de Janeiro, o Vasco da Gama cedo pescou a fina técnica do filho de um tingidor de uma fábrica de tintas, seu Edevair, como os brasileiros se referem ao pai, este um pedreiro nas horas vagas para o dinheiro cobrir as idas dos filhos aos treinos de futebol. Mas Romário tinha outro: “Quando eu nasci, o papai do céu olhou para mim e disse: ‘Ele é o cara.’” O progenitor terreno ensinou-lhe cinco mandamentos, não beber vinho nem usar drogas entre eles, travessuras que jurou nunca ter cometido enquanto jogava.
Estas coisas disse-as ao “Players’ Tribune”, o site berço de relatos de vida na primeira pessoa de futebolistas. Bastaria copiar e colar essa auto-biografia assinada por Romário, alérgica a filtros, ébria em histórias caricatas, para se ficar com uma fidedigna ideia da sua figura. De quem ele foi e ainda é.
Tinha acordos com clubes para sair à noite (não nunca, mas quase nunca na véspera de um jogo) e não treinar de manhã. Uma vez, após “resolver” abdicar uma partida do Fluminense para desfrutar de um dia na praia, mudou de ideias, chegou ao balneário ainda com areia nos pés, o treinador foi súbdito, pô-lo a titular, logo alguém teve de sair da equipa e assim privou a família de Marcelo, vindouro craque do Real Madrid, em peso no estádio, de o ver estrear-se pelo clube.
A sua confiança era intergalática - “se é impossível de eu finalizar, passo a bola para outra pessoa; se é quase impossível, eu tento finalizar; essa é a lógica: se eu não conseguir, outro companheiro com certeza não vai conseguir”. Ele era jocoso com as críticas - “Egoísta? Claro que não, cara; se eu marcar um golo, eu ganho, e meu time ganha também; é isso”. E quem lidou com o ‘baixinho’ tinha de ter poder de encaixe, aprendeu a lição Carlos Alberto Parreira, então selecionador do Brasil. Desentendido com Romário, exilando-o por quase um ano da seleção, chamou-o de volta quando a equipa estava em apuros para chegar ao Mundial de 1994.
O melhor é deixá-lo contar, ipsis verbis: “Tiveram que me chamar de volta. E eu não senti a pressão. Eu tava lá pra me divertir, sabe? Pra mostrar para aqueles filhos da p*** da comissão técnica que eles deveriam ter me convocado bem antes. “Pô, quando acabar, eu vou esculachar esses m*****.” Era mais ou menos isso. Pode perguntar a qualquer pessoa que esteve no Maracanã e ela dirá que talvez tenha sido o jogo mais foda que um jogador de futebol já fez, principalmente com a camisa da seleção. Em uma escala de 1 a 10, eu levei 11.”
No último jogo da qualificação, o vai-ou-racha, marcou dois golos ao Uruguai.
Foi impossível o avançado não ir ao seu Campeonato do Mundo, nos EUA, onde fez a mãe, Dona Lita, atirar uma garrafa de vidro ao chão por cada um dos cinco golos do filho, hábito acopolado ao folclore futebolístico do Brasil que conquistou o tetra no torneio. Não esteve em 1998, traído por uma lesão demasiado perto da prova. E hoje não pode ouvir falar em Felipão por o ter ignorado em 2002. A supremacia de Romário ficou reservada a 1994, pendurada ao lado do festejo de embalar um bebé coreografado com Mazinho e Bebeto, colega de ataque que anos depois, em Espanha, diriam ser a melhor arma de provocação: ai de quem sugerrisse ser melhor do que Romário.
Romário com Bebeto e Mazinho a protagonizar o festejo que ficou colado ao Mundial de 1994 (este e o de Diego Maradona)
Mark Leech/Offside
Fica com a 10, ordenou Cruijff
Jogaria assim-assim no Valencia, só depois do ano e meio espetacular em Barcelona (39 golos em 65 partidas), na frente da dream team do meticuloso Johan Cruijff, exigente por regra à exceção de com Romário, elogioso da sua “excelência” enquanto jogador “tecnicamente quase perfeito”, disse-o à “Folha de São Paulo” já o avançado se tinha pirado para o calor do Rio, acalorado por ser campeão mundial e redutor do lume da sua ambição. Cruijff obrigou-o a abdicar do número 11, o seu preferido, para vestir o 10 - “na minha equipa, o melhor joga com a 10”, disse-lhe o holandês. Diria mais tarde ter sido o melhor que treinou. E uma das melhores histórias do brasileiro aconteceu lá, com ele.
Os relatos divergem, mas, sendo mais ou menos verdade, Terá sido assim: Romário queria ir ao Carnaval do Rio de Janeiro, comprou o bilhete de avião e pediu a Johan dois ou três dias de folga extra porque a viagem calhava em dia de jogo; o treinador assentiu, mas com a condição de o avançado compensar com dois golos na primeira parte; o brasileiro marcou três, ao segundo já fazia sinais na direção do banco, para Cruijff o substituir.
Tantas são as histórias, tão rocambolescas, que sozinhas caricaturam Romário, senador pelo Rio de Janeiro, hoje a pular entre Brasília e o futevólei em Copacabana, candidato recente a governador da cidade que continua linda ao contrário da estima que terá por Eindhoven, onde contou cinco anos no PSV (128 golos em 144 encontros), arisco ao frio. “Cara, chegou a –17 graus uma vez. Dezessete!! Como alguém ia me criticar por não treinar? Uma vez, passei três dias sem sair de casa. Os caras ficaram preocupados comigo. Eles bateram na minha porta e eu não atendi. Tava hibernando, parceiro!!”, relatou, tão ao seu jeito, no “Players’ Tribune”.
Senhor sem medos aparentes, só um deixou escapar, inusitado como Romário é, receoso de cães pequenos por uma vez, em adolescente, “dois vira-latas e um pequinês” terem “avançado” na sua direção. As cristas murcham, a dele sucumbe perante a raça chihuahua. De novo, parafrasear o original não faz juz. Como Romário dificilmente haverá sucessor, o melhor é citá-lo: “Eu respeito os cachorros. Nunca vou fazer mal a eles. Mas tenho pavor. E detalhe: quanto menor o cachorro, mais medo eu tenho. Um pastor alemão? Eu consigo conviver. Mas um Chihuahua? P*** que pariu, me arrebenta…”