Bélgica: Michel Preud’homme, o santo que fechava balizas


Jornalista
Quem é adepto de futebol e viveu o verão de 1994 com a televisão colada aos olhos sabe a resposta para a pergunta de queijinho: “Qual o guarda‑redes que terminou um Mundial a tentar marcar golo no último suspiro?” O protagonista desse momento icónico foi um gigante de reflexos, serenidade e elasticidade - mais do que em tamanho (1,80m) -, chamado Michel Preud’homme, o belga de olhos azuis e caracóis compridos, que parecia ter íman nas mãos e, por vezes, se aventurava para lá da grande área com uma calma enervante.
A figura de Preud’homme, hoje vice-presidente do Standard Liège, tem algo de paradoxal: um homem de modos suaves, quase aristocráticos, muito reservado no que à vida pessoal diz respeito, que defendia balizas como se estivesse a proteger um tesouro de família. Não foi por acaso que ganhou a alcunha de “Saint Michel”, que se lhe colou à pele em Portugal.
O guarda-redes belga começou no Standard Liège com apenas 10 anos, onde subiu todos os degraus até chegar à equipa principal e tornou-se bicampeão nacional, no início dos anos 80. Porém, foi no KV Mechelen que viveu o capítulo mais improvável da carreira: a conquista da Taça das Taças em 1987/88, vencendo o Ajax por 1-0, um feito que ainda permanece como um dos momentos mais surpreendentes da história recente do futebol belga. No ano seguinte, viria a conquistar a Supertaça Europeia também com o Malines (Mechelen).
Herdeiro de Jean-Marie Pfaff na baliza da Bélgica, Preud’homme já contava com 35 anos quando iniciou a caminhada no Benfica após o Mundial de 1994, numa relação que começou com alguma desconfiança da parte dos adeptos encarnados, devido à idade, mas que terminou numa devoção mútua. O belga nunca escondeu a mágoa de não ter sido campeão pelos encarnados. A Taça de Portugal de 1995/96 foi o único troféu que levantou de águia ao peito, mas o suficiente para cimentar o estatuto de ídolo, tornando-se até hoje um dos guarda‑redes mais acarinhados da história do clube.
Há talvez um outro capítulo, próximo do fim da ligação ao Benfica, que lhe tenha ficado atravessado: em 1996, com 37 anos, recebeu uma chamada inesperada. Do outro lado da linha estava Fabio Capello, recém‑chegado ao Real Madrid, pronto a levá‑lo para o Santiago Bernabéu. Preud’homme recordaria mais tarde que o Real lhe ofereceu três anos de contrato, mas o Benfica travou a saída: “Se não conseguirmos trazer um grande nome, os sócios matam‑nos”, disseram‑lhe. Tentaram contratar José Luis Chilavert. Se o paraguaio chegasse, Preud’homme seguiria para Madrid.
Não aconteceu e o Real acabou por contratar Bodo Illgner, que se tornou campeão espanhol e europeu logo na época seguinte. “Imaginem se eu tivesse ido…”, confessou Michel Preud’homme numa entrevista ao Yahoo.
Quando terminou a carreira de guarda-redes, em 1999, após uma época em que disputou o lugar com Sergey Ovchinnikov, ficou ainda ano e meio como dirigente do Benfica. A seguir enveredou por uma carreira de treinador no Standard Liège, mas passou também por clubes como o Gent, Twente, Al‑Shabab e Club Brugge, tendo conquistado títulos em vários países e consolidando a reputação de técnico metódico e eficaz. Mais tarde, voltou ao Standard como vice‑presidente e diretor desportivo, cargo que continuou a desempenhar mesmo após abandonar o banco. Atualmente, permanece ligado ao clube como figura institucional, mantendo-se uma referência viva do futebol belga.
O Mundial de 1994 foi o palco onde se tornou lenda global. As suas defesas contra Marrocos, Holanda e Alemanha foram tão extraordinárias que lhe valeram a primeira edição do Prémio Lev Yashin, atribuído ao melhor guarda‑redes do torneio. Foi precisamente nesse mesmo Mundial que protagonizou um dos momentos mais caricatos, embora menos lembrados: já nos instantes finais da eliminação frente à Alemanha, Preud’homme avançou até à área contrária para tentar marcar o golo do empate. Um guarda‑redes transformado em avançado desesperado, numa imagem que ficou gravada na memória de quem viu.
Mas nem todo o percurso foi perfeito. A carreira de Preud’homme também teve sombras. Em 1984, foi suspenso por seis meses devido ao escândalo de corrupção relacionado com o jogo Standard-Waterschei de 1982, um episódio que raramente surge nas memórias mais românticas, mas que faz parte da sua trajetória.
Ainda assim, nada disso belisca o essencial: Preud’homme foi um guarda‑redes de técnica impecável, reflexos sobrenaturais e uma serenidade que desconcertava avançados. Parou remates de Van Basten, Klinsmann, Lineker ou Bergkamp como quem apaga velas num bolo de aniversário.
Hoje continua a ser visto como um dos maiores guarda‑redes de sempre e, para muitos, o maior da história da Bélgica. Um “santo” sem altar, que fechava ângulos impossíveis e que, por vezes, se aventurava a tentar o impossível do outro lado do campo.
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