Cromos do Mundial

Coreia do Sul: Cha Bum-kun, o alienígena sensível com potente pontapé

O sul-coreano jogou o Mundial de 1986 e marcou 55 golos em 121 internacionalizações pelo seu país
O sul-coreano jogou o Mundial de 1986 e marcou 55 golos em 121 internacionalizações pelo seu país

Antes de Park Ji-sung e Son Heung-min houve Cha Bum-kun. O primeiro coreano a jogar na Europa aterrou na Alemanha como um extraterrestre em que todos queriam tocar (alguns com força a mais). Na Coreia não acharam graça à carreira internacional que seguiu, deixando para trás o serviço militar, e esteve afastado durante quase dez anos da seleção. Regressou para jogar o Mundial 1986 e enfrentar Maradona. Cha Bum-kun é o quarto dos 48 Cromos do Mundial, série que destaca um futebolista excêntrico, ou quase, de cada país que jogará na edição de 2026

Quando o Eintracht Frankfurt comemorou 115 anos, o clube alemão espalhou pela cidade imagens das suas lendas. Cha Bum-kun desceu a uma estação de metro e viu-se ao espelho num cartaz. A imagem refletida subtraía mais de quatro décadas ao estado atual. No momento em que a foto foi tirada, as coxas escapadas aos diminutos calções estavam num estado de definição que o tempo esbateu. Lothar Matthäus, impressionado com a robustez, elogiou aquelas pernas. Pelo menos, na versão do coreano.

Arsène Wenger ouviu falar de Cha Bum-kun quando este ainda parecia uma estátua grega. O antigo treinador do Arsenal é natural de Estrasburgo, cidade francesa à beirinha da Alemanha. Todos os fins de semana as notícias do jornal repetiam-se. A Bundesliga, o campeonato do país vizinho, foi tomado por um extraterrestre que fazia parangonas sempre que jogava.

Cha Bum-kun começou a jogar futebol na Coreia, mas quando viu Beckenbauer pela primeira vez sentiu-se “incrivelmente ridículo”, como se na Europa o nível fosse tão avançado que quase parecia outra modalidade. O avançado foi visionário quanto à possibilidade de o empregarem através do jeito para marcar golos, que começou a evidenciar quando, aos 18 anos, se estreou pela seleção nacional.

Nem por isso a barriga parou de roncar. Não tendo acesso a muita comida ao longo da fase mais precoce da vida, quando se mudou para a Alemanha Cha Bum-kun pedia dois bifes ao almoço “mesmo que fosse constrangedor”, porque os jogadores só tinham direito a um. Ter medo do que pensavam dele é apenas um dos muitos receios que esta personagem sentia.

A relutância compreende-se pela trajetória inédita que seguiu. Cha Bum-kun foi o primeiro coreano a jogar na Europa e o primeiro asiático com impacto nesse mesmo continente. Os Jogos Asiáticos de 1978 contaram com a presença do Eintracht Frankfurt e o clube alemão negociou no sentido de libertar Cha Bum-kun do serviço militar obrigatório para que o goleador da equipa da força aérea pudesse ser testado em território germânico.

Apesar dos esforços do Eintracht Frankfurt, nesse ano estreou-se pelo Darmstadt, com quem tinha assinado um contrato de seis meses. No entanto, cumpriu apenas um por ter sido forçado a regressar devido às obrigações militares. A relação com as autoridades coreanas nunca foi pacífica. Cha Bum-kun estava mais desejoso por jogar futebol no estrangeiro do que por aprender estratégias de guerra.

Cha Bum-kun a jogar pelo Eintrach Frankfurt na final da Taça UEFA de 1980 contra o Borussia Mönchengladbach
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Os remates do ‘Cha Boom

No ano seguinte, mudou-se em definitivo para o Eintracht Frankfurt. Chegou apenas com o saco de plástico onde levava as chuteiras. O mundo novo assombrou-o. Como um alienígena acabado de chegar à Terra, não saía de casa depois das 22h30 e também não explorava as redondezas para não se expor.

O percurso na Bundesliga dividiu-se entre Eintracht Frankfurt e Bayer Leverkusen, emblemas com os quais conquistou a Taça UEFA. Marcou 98 golos em 308 jogos no campeonato alemão, estabelecendo-se então como o melhor marcador estrangeiro da história da prova. Podia ter sido um registo mais amplo caso estivéssemos perante uma figura mais intrépida. Ao longo da carreira, nunca marcou uma grande penalidade devido aos traumas causados por um erro que teve ao serviço da seleção.

O tétrico Cha Bum-kun compensava com os potentes remates em jogadas corridas, aspeto que lhe valeu a alcunha de Cha Boom. Além dos estragos que fazia no ataque, marcou o futebol pela catártica postura. Durante o percurso em solo germânico, viu apenas um cartão amarelo e ensinou a saber perdoar.

Outra grande preocupação de Cha Bum-kun eram as lesões. Um problema físico grave podia deixá-lo sem sustento e levar a um regresso ao país natal. Uma entrada dura de Jürgen Gelsdorf, jogador do Bayer Leverkusen, magoou-o na região lombar. O fim de carreira chegou a ser hipótese. O Eintracht Frankfurt insistiu para que Cha Bum-kun assinasse um processo contra Gelsdorf, mas não o fez por uma questão de “consciência religiosa”.

Enquanto esteve na Alemanha, Cha Boom foi afastado da seleção. Apesar do interregno de quase dez anos, é o jogador mais novo (24 anos e 139 dias) de sempre a chegar às 100 internacionalizações. O regresso, em 1986, coincidiu com a estreia em Campeonatos do Mundo. No México, enfrentou a Argentina de Diego Armando Maradona e saiu derrotado por 3-0. Aliás, a Coreia acabaria por não vencer qualquer jogo e ser eliminada na fase de grupos.

Em 1998, voltou ao Mundial como selecionador. A experiência não fez as vezes da anterior. Após perder os dois primeiros encontros e ainda com um jogo por disputar, Cha Bum-kun foi despedido a meio do torneio.

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