Japão: Nakata pintava o cabelo para dar nas vistas, fartou-se do futebol e foi vender saké
Hidetoshi Nakata esteve em três Campeonatos do Mundo, fez 78 jogos pelo Japão e marcou 11 golos
Apanhou todos de surpresa, em 2006, quando anunciou a retirada aos 29 anos após o Japão ser eliminado do Mundial. Grande figura do futebol do Japão, ele próprio uma grande figura, Hidetoshi Nakata não via futebol, não lia jornais, quando chegou à Serie A nem conhecia as equipas e não dava entrevistas: preferia escrever coisas no seu site, isto antes da virada do milénio. Nakataé o décimo primeiro dos 48 Cromos do Mundial, série que destaca um futebolista excêntrico, ou quase, de cada país que jogará na edição de 2026
Na Dortmund amarela, dentro do Westfalenstadion que precipita sobre o campo a maior bancada sem lugares sentados da Europa, mas quando o único de amarelo era o da canarinha, um homem escondia o pranto. Deitado de costas na relva, os joelhos fletidos, os braços atirados para trás da cabeça, Hidetoshi Nakata tapava a cara com a camisola suada por um brasileiro. O Japão acabara de perder, andor para fora do Mundial e o seu melhor jogador parecia desconsolado. Seria a derrota a arcar com a culpa, a não ser que ele soubesse algo.
Já o sabia há uns meses: era a sua última vez num campo de futebol. Tinha 29 anos.
À vista desarmada o desalento era óbvio, com óculos de ler nem por isso. Quase duas décadas volvidas, saído da obscuridade, Nakata tirou pó à bobina. Contou numa rara entrevista que o amor pelo jogo sumira, esvaziara-se o depósito do único japonês a participar nos 10 encontros que o país fizera até 2006 em Mundiais, logo um que nem gostava do meio onde estava. “Joguei sempre pela paixão. Não era fã de futebol, gostava de jogar futebol. Essa é a razão por que saí, perdi a paixão”, revelou à “The Athletic”, em 2025, já fumado o seu cachimbo da paz com a modalidade.
Assíduo frequentador de semanas da moda em capitais europeias, as fotografias mais atuais mostram-no trajado pela Louis Vitton ou seus pares da alta costura. Uma calça como se pintalgada por Jackson Pollock ou um sobretudo de gola larga que nem asa de avião; a gravata por baixo da camisa, sustida na pele do pescoço, com a perna cruzada à beira de uma passerelle para desvendar o tornozelo sem meia. Nakata faz-se hoje vistoso para dar nas vistas no meio onde as aparências predominam.
Nakata estendido no relvado após o Brasil-Japão que eliminou a sua seleção do Mundial de 2006. Seria o último jogo da sua carreira
Phil Cole
Sempre o fez, aliás. Nascido na prefeitura de Yamanashi, não longe do Monte Fuji, ainda jogava no Shonan Bellmare durante os primórdios da J-League, em 1998, quando o país se estreou em Mundiais. Desejoso por jogar na Europa, bastava-lhe impressionar com os pés, mostrar como domesticava a bola, mas quis reforçar a intenção ao pintar o cabelo todos os dias. “Era importante ser conhecido no mundo”, disse, ao reforçar que levou o hábito ao torneio porque “esperava ser reconhecido”.
Se era essa a ânsia, Nakata podia ter optado pelo beisebol, íman da loucura desportiva dos japoneses, mas deixou-se encantar pelo Capitão Tsubasa - “Oliver e Benji” em Portugal -, série mangá onde o campo de futebol era quilométrico e os personagens demoravam um episódio inteiro a ir de uma baliza à outra. Decidiu-se pelo futebol e, em 1998, o Perugia pagou €4 milhões pelo jogador, de certa forma, também ele um personagem.
Não via futebol, nem queria saber
Aos 21 anos, Nakata não via futebol, nem jornais lia. Desconhecia mais de metade das equipas da Serie A, então ainda o campeonato que mais nivelava por cima o futebol europeu. “Só queria jogar futebol.” O japonês sabia quem eram Zinedine Zidane ou Alessandro Del Piero, mas pouco mais. Mesmo assim, finda a primeira época, a France Football listou-o entre os candidatos à Bola de Ouro. Ficaria ano e meio no maior clube da região da Úmbria até se mudar para a capital, onde se pintou de giallorosso para a eternidade: conquistou o scudetto, em 2001, com a AS Roma, partilhando louros com Francesco Totti, Aldair, Gabriel Batistuta e Cafú.
Quando vai à cidade ainda lhe agradecem apesar do estatuto de suplente, pouco Nakata podia contra o ídolo que tem murais pintados paredes-meias com ruínas romanas. Durou 18 meses no Olímpico, vendido ao Parma por mais de €28 milhões ao Parma e amealhando 10 milhões de visitas no seu site oficial no dia em que a mudança virou oficial. Em tempos pré-históricos das redes sociais, o japonês já pensava adiante. “Nesse tempo, poucas celebridades, futebolitas ou empresas tinham um. Os media controlavam tudo. Queria ter a minha própria voz”, enquadrou ao “The Athletic”, numa entrevistas das que raramente dava enquanto jogava. Na virada do milénio, o hype em torno de Nakata era real.
Nakata, com 21 anos, a posar na sua apresentação no Perugia, em 1998
Franco Origlia
Estavam cinco mil japoneses no estádio do Perugia quando se estreou pelo clube, uma falange impressionante que o jogador extravasou com o tempo. Na explosão da internet, Nakata criou a sua aura, alimentando a persona com o penteado descolorado, a roupa alinhada com as modas e a sua cara empolada por marcas como a Nike, a Mastercard ou a Canon. Chegado o Mundial de 2002 com deveres de anfitrião repartidos por Japão e Coreia do Sul, era ele a cara do futebol no seu país. A histeria com a ida aos oitavos de final fez companhia à que o jogador motivava.
Ainda jogaria no Bologna e na Fiorentina antes de acabar no Bolton Wanderers de Sam Allardyce, amordaçado pela rigidez do 4-4-2 e da dureza do futebol inglês. Nakata estranhou o frio, sentiu falta da comida italiana, murchou no cinzentismo inglês. O desencanto com o futebol atingira o pico. “Gosto de elegância e sou assim na vida, não só no futebol. Gosto de coisas bonitas, roupa, arquitetura, design, vistas“, admitiu. Arrumado o seu copioso choro em Dortmund, ao adeus no Mundial de 2006 fez seguir três anos quase contínuos a viajar pelo mundo.
Diz ter visitado mais de 100 países e vê-lo associado a futebol é miragem. Apaparicado pela moda, veste-se caro enquanto faz negócio de uma costela do seu Japão, dedicando-se à venda de saké, a típica bebida alcoólica de arroz fermentado, além de uma marca de chá criada pelo próprio. O seu site mantém-se na internet, vivo e em força, e a mensagem que pretende passar fica clara na sua biografia. Em nove linha, só a primeira descreve sem grande afinco quem ele foi. “Antigo membro da seleção nacional do Japão“, lê-se. E nada mais.