Cromos do Mundial

Colômbia: Carlos Valderrama, El Pibe que recusou 2 milhões de dólares para cortar o cabelo

A farta melena da Carlos Valderrama jogou em três Mundiais (1990, 1994 e 1998): fez 112 jogos pela seleção e marcou 11 golos
A farta melena da Carlos Valderrama jogou em três Mundiais (1990, 1994 e 1998): fez 112 jogos pela seleção e marcou 11 golos

Em campo, era impossível perder a carapinha de Carlos Valderrama de vista. Médio de poucos números, mas muita exuberância técnica e estilística, era estrela na seleção da Colômbia que colocou a Argentina a levar olés em pleno Estádio Monumental no apuramento para o Mundial de 1994. No seguinte, deu a última camisola que usou pela seleção cafetera a David Beckham. Valderrama é o décimo segundo dos 48 Cromos do Mundial, série que destaca um futebolista excêntrico, ou quase, de cada país que jogará na edição de 2026

Carlos Valderrama estava num bar em Santa Marta, na Colômbia. Juntou-se com os amigos do futebol a pontuar a conversa com esse elixir da recuperação pós-treino chamado cerveja. Aproximou-se do boémio coletivo um camião da polícia, farejando grupos criminosos. O veículo estava cheio e as autoridades não tinham onde colocar mais candidatos à fiscalização. Inesperadamente, os jovens tiveram que deixar os copos para trás quando a polícia arranjou espaço para eles.

Na esquadra, os agentes pediram a identificação aos detidos. Quando chegou a sua vez, Valderrama deixou cair o cartão ao tirá-lo do bolso. Ao erguer-se, após o apanhar, a sua cara ficou a conhecer a mão de um polícia. O catraio de 19 anos não se sujeitou à humilhação e retribuiu antes de se pôr a fugir pelo meio de uma praia. O alvoroço terminou com El Pibe atrás das barras.

Esteve preso durante 50 dias e diz-se que a iminência de se tornar no grande craque do clube local, o Unión Magdalena, lhe terá aberto a porta da cela para se alojar na enfermaria. Por estar cansado de o ver à frente e perante a insistência do pai, o juiz libertou o jovem.

O penteado pelo qual lhe ofereceram uma quantidade choruda de dinheiro
Clive Brunskill

Foi lá que a alcunha foi forjada. Nessa equipa, jogava então um argentino. Chamava-se Turco Deibe. Carlos costumava visitar o balneário do Unión Magdalena com o pai, mas, certo dia, o progenitor chegou sem a sua cria de seis anos. O jogador perguntou: “Onde está El Pibe?” A partir daí, a expressão argentina para designar um garoto passou a ser sinónimo de Valderrama.

A impulsividade era pouco verbalizada. Naquela saudosa altura em que os jornalistas entravam pelo campo dentro assim que o jogo terminava, a airosa carapinha loira era de imediato posta à prova com perguntas sobre os frescos acontecimentos. Para despachar o assunto, dizia só “todo bien, todo bien”.

Jogador fácil de ver ao longe devido à exuberância capilar, Valderrama foi médio de muita técnica e poucos números. A geração de ouro da Colômbia chegou a qualificar-se para Mundiais em que era a principal candidata a ganhar. No caminho para o Campeonato do Mundo 1994, os cafeteros golearam a Argentina por 5-0 no Estádio Monumental e assumiram a responsabilidade de lutarem pelo título. “O mais incrível foi ouvir os olés do público argentino a cada toque nosso na bola. Inesquecível. Eles é que começaram a picar-nos”, contou em entrevista ao “Observador”.

Antes da fase final, realizada nos Estados Unidos, uma marca fez-lhe uma alucinante proposta: $2 milhões para cortar o cabelo. Fiel ao penteado assumido quando se rendeu ao efeito provocado por um pente com três dentes, rejeitou o dinheiro. Essa edição do torneio também se fez de infortúnios. A Colômbia não passou da fase de grupos, pois o defesa Andrés Escobar marcou um fatal autogolo. Fatal porque o mataram à porta de uma discoteca em Medellín por causa do erro. O trágico desfecho quase levou à reforma antecipada de Carlos Valderrama, aí jogador do Junior Barranquilla.

Carlos Valderrama a preparar-se para bater um canto no Mundial 1998, o último da carreira
Richard Sellers/Allstar

Anos antes, em 1987, foi considerado o melhor jogador da Copa América. No ano seguinte, estava a deixar o Deportivo Cali para ir conhecer a Europa. Pelo Montpellier, defrontou o Benfica na Taça UEFA. De França, seguiu para o Valladolid, treinado pelo guru do futebol colombiano Francisco Maturana.

Em Espanha, melhor do que perguntar por Carlos Valderrama é pedir informações sobre o tipo que teve os huevos sentidos por Míchel, craque do Real Madrid que exagerou nas táticas para ganhar espaço num canto. “Me emputé”, recordou o colombiano à revista “Líbero”. “Cada vez que vou a Espanha dizem-me: ‘Valderrama, o Míchel vai apanhar-te.’ É um cumprimento.”

Deixou a seleção colombiana após o Mundial 1998. No último jogo, trocou a camisola com David Beckham, manto que ainda usa de quando em vez. Intransigente, por mais dinheiro que lhe ofereçam, não a vende.

Hoje em dia, o cabelo deixou de ser loiro, mas ainda há Valderrama nas pulseiras e colares cheios de miçangas complementados por brincos com diamantes. Quando é para falar da Colômbia, adversária de Portugal no Mundial 2026, está sempre pronto. Num desses momentos, perguntaram-lhe se comprava bilhetes para ver a seleção. “Não compro boletas. Joguei 20 anos na seleção, vou comprar boleta? Olá!” A gargalhada contaminou toda a gente.

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