Estados Unidos: Alexi Lalas, o aspirante a músico tornado comentador populista
Alex Lalas deixou 97 internacionalizações pelos EUA, nas quais marcou 11 golos. Esteve nos Mundiais de 1994 e 1998
Os longos cabelos e barba ruivas e a personalidade forte, mais do que as qualidades futebolísticas, tornaram o central norte-americano numa espécie de figura de culto após o Mundial 1994, onde fez o primeiros minutos como profissional, aos 24 anos. Antes disso teve uma banda de algum sucesso em Nova Jérsia, numa carreira na música que ainda continua. Mas Lalas é, por estes dias, mais conhecido pelas suas opiniões confrontativas na televisão, onde não recusa a sua afiliação a Trump. Lalasé o décimo terceiro dos 48 Cromos do Mundial, série que destaca um futebolista excêntrico, ou quase, de cada país que jogará na edição de 2026
Alguns anos antes de surpreendentemente se tornar o primeiro futebolista dos Estados Unidos a jogar na Serie A italiana, então o campeonato mais forte da Europa, Alexi Lalas era, mais que tudo, um aspirante a rockeiro. Na Universidade de Rutgers dividia os estudos de Inglês com o futebol (chegou a ser considerado o melhor jogador universitário a nível nacional em 1991) e pelo meio ainda fundou uma banda, os Gypsies, que se fez grande, pelo menos nos bares e pequenas salas de espetáculo dentro das fronteiras do estado da Nova Jérsia.
Hoje é possível encontrar uma série de discos de Alexi Lalas no Spotify, gravados em nome próprio. O primeiro, de 1996, foge um pouco aos cânones em voga na época: embora esteja presente a imagem que o tornou conhecido, cabelo e barba longos, ruivos, olhar desafiador, há mais rock clássico do que grunge em “Far From Close”.
Mas, é claro, por muito que fosse essa a sua vontade inicial, não foi com a música que Alexi Lalas se tornou conhecido, ainda que o futebol não tenha sido um caminho óbvio. Depois de participar nos Jogos Olímpicos de 1992, um teste no Arsenal traria uma espécie de banho de realidade para o competitivo mas pouco fino central, rapidamente descartado pelo clube de Londres. De regresso a casa, no Michigan, Lalas, filho de um engenheiro e de uma poetisa premiada, Anne Harding Woodworth, viu-se sem música, sem futebol, sem um curso acabado.
Uma chamada de Bora Milutinović, responsável então por arregimentar um grupo de valorosos futebolistas norte-americanos para, dali a ano e meio, em 1994, representarem o país no Mundial por eles organizado, mudou tudo para Lalas. “Quando conheci o Bora era um punk de 22 anos que nunca tinha pensado no seu lugar no mundo”, disse Lalas, em 2015, à revista “FourFourTwo”.
O experientíssimo treinador sérvio conhecia bem as limitações de Lalas, que era lento e não tinha grande técnica, mas não lhe faltava “a personalidade”, como diria Bora ao “LA Times” a dias do arranque desse Campeonato do Mundo que tudo mudou para o soccer, então a viver num vazio entre o fim da NASL, nos anos 80, e uma MLS que ainda não tinha nascido. “É um jovem cheio de vida, gosta de música, de futebol, é muito inteligente. Aprende rápido”, apontou.
Por essa altura, Lalas era uma espécie de empregado a tempo inteiro da federação norte-americana, dedicando-se apenas aos treinos com os compatriotas. Durante o Mundial, mais pela sua figura e atitude do que pelas suas habilidades futebolísticas, tornou-se figura de culto numa equipa dos Estados Unidos bem compacta e que sofria poucos golos. Parecia incrível, mas com 24 anos jogava os primeiros encontros como profissional, e logo num Mundial.
O ruivo e barbudo Alexi Lalas alinhado com a seleção dos EUA enquanto entoava o hino antes de um jogo do Mundial de 1994
Jonathan Daniel
Profissional só na Serie A
Alexi Lalas fez pela primeira vez um jogo enquanto profissional por um clube quando se mudou para o Padova, equipa modesta do fortíssimo campeonato italiano. Ali se manteve duas temporadas antes de virar uma das figuras de proa do arranque da MLS, jogando primeiro pelos New England Revolution e depois pelos MetroStars, Kansas City Wizards e, por fim, Los Angeles Galaxy, com uma passagem pelos equatorianos do Emelec pelo meio.
Depois de deixar o futebol foi general manager de um par de equipas da MLS, com destaque para o período passado nos Galaxy, em que levou David Beckham para Los Angeles. Começou aí também a sua aventura pelo comentariado desportivo, que nos traz até à atualidade. E a como Alexi Lalas, outrora herói do renascimento do soccer se transformou numa das figuras mais polarizadoras dos Estados Unidos.
Depois de emprestar os seus conhecimentos à ESPN, em 2014 Lalas chegou à “Fox“ , explicando de maneira bem ilustrativa o porquê da mudança: “They Godfathered me.” Ou seja, fizeram-lhe uma proposta que ele não podia recusar. Tornar o Padrinho num verbo não seria, no entanto, o maior malabarismo que o antigo central faria com as palavras ou até com as verdades. Nos últimos anos, Lalas tornou-se megafone de algumas das ideias mais absurdas da direita populista norte-americana, num estilo que o próprio assume ser uma construção: mais do que a verdade, Lalas procura o confronto, a divisão como forma de gerar atenção.
Quando a seleção nacional feminina dos Estados Unidos caiu cedo no Mundial de 2023, nos oitavos de final, Lalas acusou a equipa de ser “polarizadora” e de desagradar a uma parte do país à conta do seu posicionamento político, “causas, posições e comportamento”. E que, não ganhando, corria o risco de se tornar “irrelevante”. Terá faltado o essencial olhar para o espelho antes de falar, que também não lhe ocorreu quando sublinhou num dos seus comentários que “o melting pot” é uma “falácia”, argumentando que a diversidade norte-americana não tem sido fantástica para a seleção.
Logo ele, comentador de futebol, que terá seguramente reparado nos sucessos de seleções como França, Alemanha e até a Espanha, logo ele, nascido Panayotis Alexander Lalas, filho de pai grego e que passou parte da infância em Atenas.
Tudo isto terá sido bom currículo para ser convidado para participar na versão norte-americana do concurso A Máscara e também para fazer parte da task force formada pela Casa Branca para acompanhar assuntos do Mundial 2026, onde os Estados Unidos vão comparecer com uma equipa onde não faltarão jogadores das mais variadas origens que construíram o país.